Revista "MUNDO e MISSÃO"

Atualidades no Mundo - Ásia

 

por Márcio Martins

m dia após o Natal de 2004, um tsunami causou tremenda devastação, deixando mais de trezentas mil mortes, além de milhões de desabrigados no sudeste asiático. Quando o tsunami atingiu as costas dos países banhados pelos oceanos Pacífico e Índico, bispos, padres e toda a população atingida clamaram por socorro em meio a uma catástrofe natural sem precedentes. Atendendo a esses apelos, membros da Ajuda à Igreja que Sofre (AIS) visitaram algumas das áreas mais afetadas no Sri Lanka e nas remotas ilhas de Andaman e Nicobar (pertencentes à Índia). Neste artigo, a AIS avalia o total impacto do tsunami na vida dos fiéis, que ainda sofrem com a perda de tudo aquilo que eles possuíam e contavam como deles. Após seis meses, a tarefa é continuar a reconstruir a comunidade cristã a partir das cinzas, ou melhor, da lama.

Tanto os padres como o povo dirigem seus apelos à AIS, pois sabem que a entidade é uma das poucas instituições de caridade que se oferece para reconstruir, não somente o que foi devastado, mas também atender às necessidades materiais e espirituais. Em meio ao horror da situação pela qual as populações passaram, ainda traumatizadas pela pequenez humana diante da força da natureza, a Igreja enfrenta a árdua tarefa de reconstruir e amparar a comunidade cristã. Apesar de tanto sofrimento, este artigo enaltece os povos que somaram força e esperança, a partir da fé que a todos une. As populações dos países atingidos pelo desastre agradeceram a ajuda rápida e eficiente, dada pela AIS, pois ela foi uma das primeiras entidades a enviar as remessas humanitárias aos sobreviventes. A Ajuda à Igreja que Sofre não medirá esforços para continuar com este auxílio.

SOMENTE DEUS PODE NOS AJUDAR

Quando as águas do tsunami baixaram, os cristãos do sudeste da Ásia uniram-se na dor, ao verem que tudo o que possuíam foi levado pelo mar, como castelo de areia. No Sri Lanka, onde mais de trinta mil pessoas morreram, muitos dos sobreviventes não dispunham sequer de um lugar para dormir. Casas, escolas e igrejas foram totalmente destruídas. Para um povo que vivia em meio à guerra civil, que já contabilizava milhares de mortos, o tsunami foi um desastre natural que acrescentou ainda mais agonia às suas aflições. Os sobreviventes, traumatizados com a violência da natureza, não sabiam por onde recomeçar, tamanha foi a destruição.

O bispo de Jaffna, dom Thomas Savundaranayagam, declarou:

“Vinte anos de guerra reduziram-nos a destroços e agora, depois desse tsunami, ficamos completamente abatidos. Não sabemos a quem recorrer, senão a Deus”. Oito casas de missões, quatro conventos e cinco salões paroquiais foram destruídos, deixando D. Thomas com uma conta de reconstrução que ele teme nunca poder saldar. Mesmo assim, mais de 150 mil refugiados foram acolhidos nas igrejas e instituições católicas remanescentes. Outro Bispo, Kingsley Swampillai, continua tentando, heroicamente, soprar nova esperança na vida de milhares de cristãos da costa leste do Sri Lanka, onde 60% da população ficaram desabrigadas.

Em sua diocese, Trincomalae-Batticaloa, 13 igrejas, quase um terço do total, foram reduzidas a ruínas pelo tsunami. Quatro delas ficaram irreparáveis. Kingsley declarou: “As pessoas me perguntam quando as igrejas serão reconstruídas. Eu sempre lhes digo que não se preocupem com isso agora; primeiramente, as pessoas serão reassentadas em novos lares. Mas o povo não está satisfeito. Eles querem reconstruir em primeiro lugar as igrejas, porque elas são fontes de alívio. Sinais de esperança para o futuro”. Nas ilhas de Andaman e Nicobar, na Índia, a devastação também atingiu toda parte. Na região, sobreviveram apenas quatro das sete igrejas paroquiais.

Dom Alex Dias, bispo de Port Blair, disse:

“As pessoas ficaram seriamente abaladas pelo desastre. Ainda em estado de choque, muitas se voltaram a Deus, especialmente as que mais perderam no tsunami”. “Eu espero, urgentemente, pela ajuda de vocês, pois somente com o seu auxílio poderemos atender e confortar os sobreviventes desse terrível desastre”, apelou o D. Alex Dias.

MANTENDO A FÉ EM MEIO ÀS RUÍNAS

Vakarai, um vilarejo na costa leste do Sri Lanka, foi totalmente destruído pelo tsunami e seus moradores foram obrigados a mudar-se para um campo de refugiados. Apenas a igreja de São Pedro resistiu, em parte, à violência das ondas gigantes. Naquele cenário, o pároco da igreja, padre Anthony, relatou a emocionante jornada de fé e agradecimento de Navamalar, sobrevivente e mãe de quatro filhos: “Nós vemos essa mãe trilhar seu caminho descalça. Tortuosa é sua jornada pelo chão da floresta, desde o campo de refugiados, que agora abriga 600 famílias, até a nossa igreja, a única não totalmente destruída, em Vakarai, para rezar o rosário e pedir a proteção de Deus.

O tsunami levara também a vida de sua mãe, Kunapusani, 65, mas, consciente de como tantas famílias haviam desaparecido. Navamalar agradeceu a Deus por seus quatros filhos adolescentes terem sobrevivido. Em seguida, ajoelhou-se para oferecer uma prece a Nossa Senhora, perante a sua imagem que tinha, de alguma forma, resistido à fúria do mar. E rezou assim: “Eu tinha que vir aqui. Preciso dizer: Obrigada, Deus! Nós perdemos muito, mas não perdemos a fé no Senhor. Tenho fé que nossa igreja será reconstruída”. Em seguida, o pároco disse: “Vi seu pobre rosário, todo quebrado, entre os dedos daquelas mãos calosas. Comovido e sem palavras, peguei o meu, que estava no bolso. Era o que eu tinha recebido do Papa e que eu carregava em todo lugar”. “Pegue-o – eu disse –. Tenho certeza de que o Santo Padre ficaria feliz em saber que você o carrega”. Ela regozijou-se com o presente e seus olhos se encheram de lágrimas”.

MILAGROSA MARIA

A milagrosa estátua de Nossa Senhora de Matara retornou ao seu povo, após ter sido levada pelo tsunami, que eclodiu bem na hora em que os fiéis comungavam

No fatídico dia do tsunami, a imagem de madeira de Nossa Senhora de Matara, muito venerada pelo povo do Sri Lanka, foi levada pelas ondas de 9 metros de altura, que invadiram e destruíram o santuário onde ela se encontrava. Dias a fio, o diretor do santuário, padre Charles, rezou pelo retorno da imagem. E relembra: “Fiquei em pé, olhando o mar, e orei: ‘Tu és a amorosa Mãe. Tu podes ver que o povo precisa de ti, especialmente neste momento. Estamos sofrendo tanto e temos a grande missão de continuar, mas sem ti, eu simplesmente nada consigo’”.

Na manhã seguinte, o ânimo mudou:

“O dia amanheceu bonito. Eu me levantei e pensei: ‘Sim, hoje é seu dia!’”. Trinta minutos depois, ele ouviu, de um grupo de crianças: “Achamos a imagem!” De fato, a maré havia trazido a imagem à beira da praia, perto dali. Estava milagrosamente intacta, até com a coroa ainda na cabeça do menino Jesus. Para o padre Charles, e certamente para todo o povo do Sri Lanka, o retorno da imagem foi o sinal de esperança em meio ao desespero. “Estamos felizes por termos a imagem de Nossa Senhora de Matara de volta. Por favor, rezem por aqueles que morreram e lembrem-se de
todos os necessitados que procuram
a nossa paróquia”, pediu o padre Charles.

Ajuda à Igreja que Sofre
Rua Carlos Vítor Cocozza n.º 149
Vila Mariana – São Paulo - SP – 04017-090
Tel.: 0800-7709927
www.aisbrasil.org.br

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