Revista "MUNDO e MISSÃO"
Atualidades no Mundo - Ásia
por Pedro Miskalo
A reforma do hinduísmo O “neo-hinduísmo” nasceu no início do século dezenove como reação à forte influência do Ocidente, da colonização inglesa e das missões cristãs. Foi então criado o movimento “Despertar Hindu” (“Hindu Jagaran”), de caráter religioso, cultural e político, no qual participaram grandes personalidades indianas dos dois últimos séculos. Ele purificou a tradição de práticas hoje inadmissíveis: o sistema de castas, a exclusão dos párias, o sati (imolação da esposa sobre a pira do marido), a idolatria e o politeísmo, e outras. O nacionalismo nocivo Desde a independência, o país se tornou Estado leigo, sujeito a uma Constituição civil. Lentamente, porém, foram se firmando grupos radicais, às vezes violentos, utilizando o orgulho nacional como bandeira em favor das tradições religiosas e de valores nacionais. A indutva, nome dado ao nacionalismo cultural-religioso hindu, é um fenômeno positivo, ao menos em parte, ao entender que o povo indiano adquire a consciência da nacionalidade e do retorno aos antigos valores religiosos, encobertos, por longo tempo, sob o complexo de inferioridade, nascido no domínio do ocidente. Como “efeito colateral”, surgiu a politização do hinduísmo (Hindu Communalism), que instrumentalizou a religião e alimentou extremismos. A morte de Indira Gandhi, e do filho Raijv, enfraqueceu o Partido do Congresso, e levou ao poder o Bharatiya Janata Party (BJP), que congrega o integralismo religioso com orientação político-nacionalista, de inspiração nazista. O BJP, ainda que condenasse as perseguições religiosas, parecia apoiar a indutva. Perseguições recentes Durante o governo nacionalista do BJP, grupos extremistas passaram a atacar o islamismo no país e, depois, o cristianismo. Os muçulmanos representam 13% da população total. Os cristãos, apenas 4%. O extremismo hindu destruiu a antiga mesquita de Ayodhya, no estado de Gurajat, em 1992, e massacrou dois mil muçulmanos. De lá para cá, milhares de muçulmanos foram assassinados. Em seguida, as Igrejas cristãs foram vítimas, especialmente desde janeiro de 1999, quando foram massacrados, em Orissa, o médico australiano protestante Graham Staines e seus dois filhos. Staines, quarenta anos na Índia, fora acusado de fazer proselitismo ao curar leprosos e pobres. Em 2002, oito padres, freiras e leigos cristãos foram mortos por extremistas hindus; igrejas e capelas foram destruídas, freiras violentadas, vestes sagradas e objetos religiosos incendiados. Uma menina foi violentada e morta no banheiro de uma escola católica. Os sacerdotes do colégio foram responsabilizados e a polícia, pressionada pela revolta popular, prendeu três padres. Alguns dias depois, o verdadeiro autor da tragédia, totalmente estranho à escola, foi preso. O último fato grave, ainda no governo do BJP, foram as leis contra as conversões. Aprovadas ao menos em três estados, poderiam receber ou ministrar o batismo apenas os que tinham a autorização da polícia e do juiz, após investigação e interrogatório. O pluralismo cultural renasce A vitória do Partido do Congresso trouxe novos ventos para a Índia e a esperança de futuras mudanças, tais como a possibilidade de menos políticas culturalmente conservadoras em face de crises generalizadas, como a disseminação da AIDS pelo país; o fim das exigências hinduístas no processo educacional; a extinção de sentimentos repulsivos a valores estrangeiros... O novo governo indiano já está revisando sua cultura, carregada – durante o governo anterior – pelas cores do fundamentalismo hindu.
Grupos fundamentalistas do governo anterior, por exemplo, haviam retirado dos livros os resultados arqueológicos que iam contra a tradição hinduísta, relativa à origem do deus Rama. Ora, foi a reivindicação do local de nascimento do Rama, em Ayodhya, que provocou a tragédia de Gujarat, em 2002, com o saldo de dois mil muçulmanos mortos. Gerolamo Fazzini, da revista Mondo e Missione, afirma que o Executivo não quer apenas mudar a política cultural e educativa do governo anterior, mas deseja esfriar tensões inter-religiosas, estimuladas com a ascensão ao poder do BJP. Em defesa do pluralismo cultural e religioso da Índia, interveio Amartya Sen, prêmio Nobel de Economia – 1998, de origem indiana: “A Índia não é uma nação hindu, tampouco era antes da chegada dos muçulmanos. No primeiro milênio antes de Cristo, assim como no milênio seguinte, o país conheceu forte presença do budismo, do hinduísmo, do jainismo. Os cristãos já estavam aqui no quarto século, isto é, bem antes de chegar a Inglaterra”. Joshi, ex-Ministro do Desenvolvimento, promete lutar contra a mudança. Justificando as intervenções feitas nos currículos escolares, Joshi afirmou que sempre considerou a educação baseada em valores religiosos, conforme recomendações do Parlamento. E alertou: “Não permitiremos que sejam difundidas falsidades e que as futuras gerações sejam deixadas na ignorância”. A Igreja católica indiana, ao contrário, apóia o “revisionismo” nos livros de história, contaminados pela retórica hinduísta que glorificava apenas os governantes hindus e tratava muçulmanos e cristãos como estrangeiros. Em ocasiões anteriores, ela já se preocupava com a situação. Entrevistado pela Agencia Ásia News,Dom Percival Fernandez, secretário geral da Conferência episcopal indiana, apóia o plano do atual ministro: “Pelo que leio nos jornais, a primeira reação da Comissão confirma que há muitos erros a serem corrigidos nos livros. Aos jovens devemos ensinar a história e não historietas”. Construir um mundo melhor Piero Gheddo, profundo conhecedor das circunstâncias que levaram a Índia à atual guinada histórica, escreveu recentemente: “A Índia de hoje está descobrindo o “diálogo da vida”; isto é, a convivência entre pessoas de religiões diferentes, o auxílio aos pobres de qualquer religião e o respeito mútuo, o intercâmbio de valores e a colaboração na defesa do homem. Este é o caminho a percorrer para construir um mundo melhor”. |
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