Revista "MUNDO e MISSÃO"

Atualidades no Mundo - África

ÁFRICA - SOLIDARIEDADE

Por mais de cinco séculos, a África vem sendo espoliada em todos os sentidos. Para o mercado mundial, os povos africanos não têm perspectivas, enquanto suas preciosas riquezas naturais são cobiçadíssimas. Por isso, o saque e a anarquia são continuamente alimentados por interesses comerciais internacionais. Mesmo assim, o povo é capaz de dar a volta por cima com uma força que surpreende.

Contudo, os bispos africanos em seu Sínodo realizado em 1994 em Roma, compararam a situação da África com aquela do "homem que descia de Jerusalém a Jericó e caiu nas mãos dos assaltantes que o roubaram, o espancaram e o deixaram quase morto" (Lc 10,30).

Os missionários e as missionárias fazem-se "bons samaritanos", respondendo ao urgente apelo de solidariedade que vem deste continente. É a história de Dorina que lida com as vítimas do terrível vírus ebola. É a história de Michael e de Antônio que souberam transmitir esperança mesmo pagando um preço muito alto. A missão na África se faz presença solidária. Uma presença que, às vezes, se paga - ou se premia? - com o martírio.

Beleza ofuscada

João Munari

A África é um continente cheio de encantos e de contradições. Berço da vida humana, foi o lugar onde se desenvolveram as mais antigas e prósperas civilizações que a humanidade já teve. Hoje vive uma noite escura. Há possibilidades de saída?

- PAÍSES: 53

- SUPERFÍCIE: 30.272.922 km2

- POPULAÇÃO: 765.800.000 habitantes

- POPULAÇÃO URBANA: 37%

- LÍNGUAS: 2.011 (30% das línguas do mundo)

- RELIGIÕES:

  • cristãos: 352.538.000 (46,5%)
    • católicos: 112.871.000 (14,9%)
    • protestantes: 176.098.000 (23,2%)
    • ortodoxos: 32.880.000 (4,3%)
    • outros: 30.689.000 (4,0%)
  • muçulmanos: 306.606.000 (40,5%)
  • religiões tradicionais: 90.365.000 (11,9%)
  • hinduístas: 2.378.000 (0,3%)
  • judeus: 290.000 (0,03%)
  • budistas: 136.000 (0,01%)
  • outros: 4.587.000 (0,7%)

- EXPECTATIVA DE VIDA: 50,7 anos

- MORTALIDADE INFANTIL: 98,6 de cada mil nascidos vivos

- SEM ÁGUA POTÁVEL: 46,6%

- ADULTOS ALFABETIZADOS: 57,9%

- PRODUTO INTERNO BRUTO: 537.247 milhões de dólares

- RENDA PER CAPITA: 722 dólares

Para alguns é um continente misterioso e ainda desconhecido, mas fascinante; para outros, ainda o lugar do atraso, da corrupção, das tragédias modernas, das lutas tribais e das epidemias, o continente que não deu certo. São bordões que dizem uma parte da verdade, mas não ajudam a entender o que realmente é a África, o que nela acontece e quais são as perspectivas para o seu povo.

Tragédias - Saltam, sem dúvida, aos olhos as tragédias. Em pelo menos 19 dos 53 países, há fome generalizada. A guerra civil alastra-se desde os anos 50 no Sudão, desde 1975, em Angola e, desde sempre, em muitas outras regiões que contrapõem etnias e grupos religiosos tradicionalmente rivais.

O recente assassinato de Laurent-Desiré Kabila, na República Democrática do Congo, trouxe à tona o problema da África Equatorial. Lá a guerra é de amplas proporções e contrapõe Ruanda, Uganda e Burundi de um lado e Zimbábue, Namíbia, Chade, Angola e Sudão, além do próprio Congo, do outro e já começa a ser chamada de "Primeira Guerra Mundial Africana".

Serra Leoa detém o recorde da expectativa de vida mais baixa do planeta, apenas 25,9 anos, segundo dados da Organização Mundial da Saúde do ano 2000. Dos 53 países africanos, 40 estão entre os mais pobres do planeta. Por causa das guerras, fala-se de 3 milhões e meio de refugiados vivendo em outros países, de mais 2 milhões de deslocados dentro da própria terra. Calcula-se que 26 milhões de pessoas estejam contaminadas com o vírus HIV que já fez 12 milhões de órfãos. Em Botsuana e Zimbábue, mas também no Quênia e na África do Sul, a doença é considerada pandêmica, ou seja, amplamente difundida. Uganda anunciou que o vendaval do ebola passou, mas todos sabem que a doença não está ainda totalmente controlada. E há tantas outras doenças que continuam sendo um problema na África, mesmo que tenham sido vencidas no resto do mundo. Noventa por cento de todos os casos de malária estão na África subsaariana, que também detém o recorde mundial negativo na questão da hanseníase, do analfabetismo e da mortalidade infantil.

Riquezas - Esta situação calamitosa contrasta com o potencial do continente. Embora as economias africanas sejam frágeis e o desenvolvimento industrial ou tecnológico ainda incipiente, a África esbanja riqueza. São muito cobiçados os diamantes de Serra Leoa, de Angola e de Botsuana. Cobiçadíssimos o cobre e o cobalto de Zâmbia, o manganês e o urânio do Gabão e do Níger, a bauxita da Guiné, o petróleo e o gás natural da Líbia, Nigéria e Argélia e o ouro do Congo. São riquezas subterrâneas que, porém, não geram prosperidade para as populações locais. A maior parte é usada para financiar conflitos, derrubar inimigos, tentar a escalada ao poder, criar ditadores. O assassinato de Kabila enquadra-se nesse contexto. Quando ele chegou à capital Kinshasa, em 1997, numa marcha triunfal que tinha como primeiro objetivo derrubar o então ditador Mobutu, contava com enorme apoio popular e, discretamente, com a simpatia da opinião pública internacional. Esperava-se que inaugurasse um tempo de liberdade e prosperidade. Acabou de forma trágica e melancólica. Quatro anos depois, o povo acompanhou-o à sepultura com a indiferença de quem se sentiu traído em suas expectativas e em seus anseios mais profundos. Os motivos do assassinato? Centenas de quilos do ouro congolês têm como destino regular os bancos dos países vizinhos, sobretudo de Ruanda e Burundi. Entre 1998 e 1999, Ruanda vendeu mais de duas toneladas e meia de ouro congolês à Bélgica. Grandes riquezas, portanto, e com as riquezas, grandes interesses, grandes ambições. Para o povo sobrou, inevitavelmente, grandes desilusões. Para os envolvidos, as tragédias são quase sempre o desfecho natural.

Globalização - No ano passado, 17 países africanos comemoraram 4 décadas de independência. Mas, "por que o otimismo de 1960 desembocou no desespero de 2000?", perguntou na ocasião o editorial de um jornal diário nigeriano. A resposta estava na ponta do lápis: "É que a ganância jogou um papel determinante para que se chegasse a isso: ânsia de poder, sede desenfreada de lucro sujo em detrimento da nação e de seu povo". Pergunta e resposta fazem sentido: a Nigéria era um dos países mais promissores na época da independência. Hoje é o sexto maior exportador de petróleo do mundo e 70% de sua população vive com menos de 1 dólar por dia. "Estamos vivendo de esperança", comentou Anthonia Okereke, de 42 anos, auxiliar de enfermagem e mãe de seis filhos. Para ela, "a Nigéria é um país que vai para trás e não para frente". De resto, como a maioria dos outros.

O desencanto ocupou o lugar do entusiasmo. Depois de quase 50 anos de independência do jugo colonial europeu, há pouco para se comemorar. Além da instabilidade política, das dificuldades econômicas, das contradições internas não resolvidas, o neoliberalismo conseguiu entrar por uma brecha que havia ficado aberta e introduziu também na África, nos últimos 20 anos, os mecanismos de empréstimos, juros, trocas, devoluções e cobranças que colocam qualquer governo de joelhos, sem condições de desenvolver políticas que beneficiem as populações locais. A Tanzânia, rica em diamantes e ouro, paga por sua dívida externa mais do que consegue investir em saúde e educação juntas. E não é um caso isolado.

O povo - Todos os analistas são unânimes em afirmar que são grandes e muitos os problemas do continente africano neste início de século e milênio. Mesmo assim, a riqueza maior continua sendo seu povo: um povo alegre, amante da vida, capaz de passar por cima das tragédias e das dificuldades, com uma força que surpreende. "Acredito que o chão firme da esperança na África é o enorme potencial humano que tenho experimentado todos os dias no povo com quem vivo: povo que nunca desiste, que continua vivendo, rindo e celebrando a beleza da vida". Quem diz isso é um missionário italiano, padre Renato Kizito Sesana, que atua na África há quase 25 anos. Apesar das tantas situações de pobreza e violência, Kizito tem certeza de que esse potencial humano sobreviverá às tragédias. Francis Babey, músico e escritor de Camarões, resumiu a fé nesse potencial humano: "Nós, os africanos, daremos nossa contribuição ao resto do mundo. Levaremos nossa fé no futuro, quando outros não acreditarem mais nele. Certamente, carregaremos conosco a vida, porque nós, africanos, acreditamos numa vida que não termina. É essa fé na vida que nos ajuda a sobreviver, depois de séculos de escravidão e penosas vicissitudes".

A Igreja - A Igreja é a grande articuladora desse potencial e a principal promotora dessa esperança. Numa região que têm por todos os lados marcas da guerra, no sul do Sudão, a exemplo do que se faz em outros países, padres, irmãs e agentes de pastoral trabalham em capelas de palha, escolas e hospitais de barro. São estruturas pequenas, construídas distante das velhas cidades e fora das principais vias de comunicação, para evitar bombardeios e represálias de grupos armados. São lugares onde ainda é possível reunir o povo. O estilo de vida é muito simples. Anda-se a pé, às vezes dias e semanas a fio. Os missionários entendem que precisam ser presença solidária. É possível anunciar o Evangelho também em lugares onde seca e guerra fazem o povo viver em situação de emergência quase que permanente. Ao lado da Igreja, dezenas de ONGs (organizações não-governamentais) também operam nos campos da saúde e da educação. Mas são as comunidades que trabalham em silêncio para reconstruir, reconciliar e firmar a paz e que vêm pagando um preço alto pela sua fidelidade ao povo. No ano passado, 17 missionários, padres, irmãs e leigos, foram assassinados no continente. É o preço de uma ação que incomoda porque denuncia as arbitrariedades ou não aceita colocar-se a serviço de grupos com interesses particulares.
Habitar em estruturas precárias, empenhar-se num anúncio que parece nada transformar, apostar na construção de comunidades de fé que hoje estão juntas e amanhã podem se dispersar, mediar conflitos que apagam e se reacendem a cada dia: é o que faz a presença da Igreja importante. Quem trabalha na África sabe que tudo o que se faz pode desaparecer de uma hora para outra. No entanto, segue em frente porque acredita em Deus e sabe que investir no ser humano vale imensamente mais que investir em tijolos e monumentos.

PARÁBOLA

Dizem que um jovem missionário foi enviado para trabalhar em uma situação de guerra. Por causa da instabilidade do lugar, viu-se obrigado a ficar em casa, na missão central, sem poder visitar nem mesmo os povoados. Ocorreu-lhe a idéia de matar o tempo pintando a capela, que precisava de uma boa reforma. Quando os fiéis o viram, começaram a comentar: "Se o padre está pintando, quer dizer que não vai sair e, se não está saindo, quer dizer que a guerra terminará logo e que ele continuará trabalhando conosco". Dizem que o povo retomou a esperança perdida diante da violência que ameaçava tomar conta de tudo.
Um missionário concluiu a parábola, comentando: "Nunca pensei que isso fosse missão: matar o tempo virou uma maneira de transmitir esperança, mais que todas as rezas e todos os sermões".
Hoje, em muitos lugares da África, missão significa apenas presença. Uma presença que, às vezes, se paga - ou não será que se premia? - com o martírio.

ROMERO AFRICANO

Chamava-se Munzihirwa Mwenw Ngabo e era arcebispo de Bukavu, na República Democrática do Congo. Foi executado por soldados tutsis ruandeses, às 6 da tarde de 29 de outubro de 1996. Foi por causa de seu engajamento em favor da justiça e por querer a paz a qualquer custo que seu nome é freqüentemente associado ao de dom Oscar Romero, o bispo de El Salvador assassinado pelas forças da repressão em março de 1980. Antes de sua morte, dom Munzihirwa tinha denunciado em várias ocasiões aquilo que estava acontecendo na região: ataques aos campos de refugiados por parte dos ruandeses tutsis e a ocupação, por parte da Uganda, Ruanda e Burundi, de territórios congoleses. Dizia: "Não sabeis que há quatro meses Uganda, Ruanda e Burundi juntaram 7 mil homens armados para destruir os campos de refugiados na região de fronteira do Congo? Não sabeis que ainda hoje há carros armados estacionados esperando o momento oportuno para infiltrarem-se em nosso território?". Tentava alertar o povo, conscientizá-lo sobre aquilo que estava acontecendo e deter aqueles que vinham para matar, destruir e se vingar. Morreu por isso.

J.M.

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