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Novos diálogos com a CHINA
Alberto Garuti
Não é fácil, hoje, para um missionário
estrangeiro entrar e trabalhar na China.
Pe. Gianni Criveller, do P.I.M.E. conseguiu
Quando, no começo da década de 50, os comunistas liderados
por Mao Tse Tung tomaram o poder, todos os missionários estrangeiros
foram expulsos da China. Hoje, padres, religiosos, religiosas e leigas
engajados chineses estão autorizados a exercer seu trabalho pastoral
e de evangelização sob algumas condições:
aceitar o controle da Associação Patriótica dos Católicos
Chineses, uma organização dependente do governo, e seguir
todas as orientações que o governo dá em matéria
religiosa. Quem agir na clandestinidade está sujeito a sofrer a
ação repressora do governo.
Nessas condições, diríamos que é impossível
para um missionário estrangeiro conseguir a permissão de
entrar nesse país e trabalhar, a não ser que se encontrem
novos tipos de atividades que justifiquem sua presença. É
o que acontece com pe. Gianni Criveller do Pime, que já foi missionário
em Taiwan e agora reside em Hong Kong. Após defender tese de doutorado,
ele publicou um livro sobre como foi apresentada a figura de Jesus Cristo
ao povo chinês nos séculos XVI e XVII.
Durante as pesquisas para a tese, entrou em contato com muitos intelectuais,
universidades e centros de pesquisa e descobriu que, apesar das baixas
porcentagens de cristãos no país, o interesse por Cristo
e pelo cristianismo é muito grande e atual. Ele também conheceu
os chamados "cristãos culturais" (cultural christians)
e, através deles, está conseguindo entrar na China e desenvolver
sua atividade. Nesta entrevista à "Mundo e Missão",
ele conta sua experiência.
M.M: Quem seriam esses "cristãos culturais"?
P.G.C: São as pessoas que estudam cristianismo nas universidades.
Fazem isso pelos motivos mais diferentes: por interesse, porque estudando
matérias que dizem respeito ao Ocidente entram em contato com o
cristianismo, ou até porque foram convidados pelo próprio
governo, em quanto pertencem a departamentos para os negócios religiosos
de algum ministério. Em alguns casos, o interesse deles se transforma:
de puramente intelectual passa a ser algo que envolve a pessoa inteira.
M.M: Como você entrou em contato com essas pessoas?
P.G.C: Algumas eu conheci quando estava preparando minha tese.
Em Hong Kong, entrei em contato com o Centro de Estudos Sino-Cristãos,
patrocinado pelos luteranos e dirigido por Liu Xiaofeng, líder
dos cristãos culturais. Entrei ali como pesquisador e aceitei o
programa que o Centro assumiu, com palestras e cursos nos Centros de Estudos
Cristãos de várias universidades da China.
M.M.: Fale-nos desses Centros de Estudos Cristãos.
P.G.C: São pelo menos doze. Fazem parte de universidades
e são aprovados pelas autoridades, ligados à Faculdade de
Filosofia ou ao Departamento de estudos religiosos. Em geral, esses Centros
programam atividades extracurriculares como seminários ou uma série
de palestras, que não devem interferir nos programas oficiais estabelecidos
pelo governo. São cursos que se mantêm porque os responsáveis
sabem se equilibrar, balanceando, com muita sabedoria, as exigências
da livre pesquisa com o "politicamente correto", não
criando atritos com o pensamento oficial marxista.
M.M: Então você dá seminários e palestras
nos Centros de Estudos Cristãos dessas universidades. O que acontece
nesses cursos?
P.G.C.: Em geral, trata-se de séries de duas ou quatro palestras.
Até agora, abordei temas relacionados a minha tese, como pensamento
católico e protestante, formação dos missionários
na Europa antes de irem para a China nos séculos XVI e XVII, apresentação
do cristianismo à cultura chinesa, relação entre
cristianismo e culturas chinesas.
Não se faz nenhuma publicidade desses cursos na Universidade.
Eles são anunciados, com cartazes feitos à mão, dentro
do próprio Centro ou, quando muito, no Departamento a que o Centro
pertence. Meu público varia de 15 a 35 pessoas. O número
se mantém firme em todas as palestras, mesmo quando dou uma série
de quatro: sinal de que elas suscitam um certo interesse.
M.M.: Que língua você usa?
P.G.C: O inglês, por dois motivos. Primeiro, porque não
me arrisco, com meu chinês, a tratar temas tão sérios
e que empenham tanto. Segundo, porque o fato de falar inglês facilita
a permissão do governo que gosta que os alunos adquiram maior conhecimento
da língua inglesa e do mundo ocidental. O meu chinês, contudo,
me permite entender o que os tradutores dizem e posso garantir que eles
são sempre fiéis e que não há nenhuma tentativa
de manipulação e de instrumentalização do
que eu digo para fins políticos.
M.M: Os seus alunos fazem perguntas, mostram interesse?
P.G.C: Muito interesse e muitas perguntas, por isso eu estou diminuindo
o tempo da minha exposição para dar mais tempo ao debate.
Muitas vezes, as perguntas saem do tema que foi objeto da palestra e abordam
temas gerais do cristianismo, como a salvação dos que não
têm fé, a figura de Jesus, o Evangelho, a fé. Notei
que os chineses estão muito menos preocupados com a inculturação
do que nós. Por exemplo, eles temem que ela signifique uma perda
da identidade do cristianismo.
Em poucas palavras, eles dizem: "o cristianismo se apresente
como é, sem se preocupar em se acomodar à cultura chinesa".
Eles têm muito mais suspeitas em relação à
inculturação do que as próprias autoridades romanas!
O melhor momento é depois da palestra. Muitas vezes, sou convidado
a almoçar ou jantar com professores e alunos. Quase sempre vêm
as esposas também e o diálogo se desenrola num clima de
simpatia e amizade, especialmente depois de nos encontrarmos pela segunda
ou terceira vez. O diálogo já não tem aspecto acadêmico:
falamos à vontade e o assunto é quase sempre religião.
São esses os momentos que acho mais válidos em minhas visitas.
M.M: Qual a sua impressão sobre esses encontros?
P.G.C: Não queria dar a impressão de ser otimista
demais. Nas universidades chinesas, há milhares e milhares de estudantes
e só uma pequena parte participa dos encontros comigo. A maioria
dos estudantes parece atraída por muitos valores do mundo ocidental:
dinheiro, sucesso, carreira, mulheres, carros, moda. Mas há uma
pequena minoria de jovens mais sensível a outros valores. Sobre
essa minoria, o cristianismo hoje exerce um certo fascínio. É
um pequeno grupo que não podemos esquecer.
M.M: Quais resultados podem se esperar desses cursos?
P.G.C: Não se pode esquecer que esses Centros são
oficiais, isto é, relacionados com departamentos do governo. As
autoridades irão consultar essas pessoas para qualquer decisão
a ser tomada em assuntos religiosos. São pessoas que podem influenciar
nessas decisões e podem ajudar muitos chineses a ver o cristianismo
não através da ótica da ideologia, mas pelo que ele
é: a mensagem de Jesus, uma proposta de salvação.
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