Revista "MUNDO e MISSÃO"

Atualidades no Mundo - Ásia

Engenheiro luta contra exploração de crianças

Kailash Satyarthi, engenheiro eletrônico, deixa sua profissão para dedicar-se, em tempo integral, à luta contra a exploração das crianças

Giuseppe Caffulli

O protagonista desta historia chama-se Kailash Satyarthi, engenheiro eletrônico, nascido na Índia, em 1954.

Do guarda-chuva ao "Banco do livro"

Quando tinha mais ou menos sete anos, voltando da escola, Kailash viu outra criança da mesma idade sendo surrada pelo pai, diante de um barraco na periferia de sua cidade. Ele reconheceu a criança: era o engraxate que encontrava todos os dias, trabalhando na escadaria de um prédio público. Parou e perguntou ao pai o que tinha acontecido. Ele ficou sabendo que o menino, durante um aguaceiro, em lugar de proteger a caixa com os utensílios de trabalho, cobriu, com o único plástico que tinha, a própria cabeça. Resultado: escovas e panos molhados e o trabalho de um dia comprometido.
Kailash, que era de uma família burguesa bem estabelecida, começou a perceber uma outra realidade. Falou com os professores da sua escola e ouviu: "Há crianças que nasceram para estudar e outras que nasceram para trabalhar." Esta resposta o marcou e o deixou muito preocupado. Sentiu que devia fazer algo. O quê?
Começou a dar de presente ao pequeno engraxate seu guarda-chuva, para que ele pudesse proteger a si e aos instrumentos de trabalho. Aos 12 anos, criou o "Banco do livro", através do qual recebia livros de texto usados e os emprestava aos alunos pobres.

Pelas crianças

Aos 25 anos, formado em engenharia eletrônica, abandonou o trabalho para se dedicar, em tempo integral, à luta contra a exploração das crianças no trabalho. Em poucos anos, nasceu a South Asian Coalition on Child Servitude (Aliança do Sul da Ásia contra a Escravidão das Crianças - Saccs), uma rede de mais de 450 grupos ativos na defesa dos direitos dos menores.
"Quando comecei, o fenômeno da exploração do trabalho dos menores existia, mas ninguém queria encará-lo. Acrescente-se que, na Índia, trata-se de uma prática muito comum e aceita. Hoje, graças à mídia, a questão está no centro da atenção, não somente no meu país, mas em qualquer parte do mundo. Aconteceu uma grande mudança de mentalidade, que também para mim custou muito". Ameaças, atentados, espancamentos: o engenheiro Kailash teve que enfrentar a máfia dos que ganham rios de dinheiro, explorando o trabalho das crianças, com o apoio, muitas vezes dos poderosos. "Dois colaboradores meus foram mortos, um gravemente machucado e eu vivi dois anos sob escolta policial. Uma experiência terrível para mim e a minha família. Mas valeu a pena".
De 1980 para cá, graças a sua organização, Kailash recuperou cerca de 50 mil crianças que eram obrigadas a trabalhar em muitas indústrias do país. Como ele conseguiu? Dando assistência econômica às famílias e aos pequenos trabalhadores, fazendo pressão sobre as firmas para que adotassem códigos éticos, sensibilizando os consumidores para que boicotassem os produtos feitos por mão-de-obra infantil.
Mas ele não se limitou a isso: proporcionou também ajuda concreta para o crescimento humano e profissional das crianças. Nasceram assim o Mukti Ashram e o Bal Ashram, espaços para o desenvolvimento de crianças a quem foi negada a infância. (Estima-se que os pequenos trabalhadores seriam 60 milhões só na Índia e centenas de milhões no mundo inteiro).
Como instrumento de pressão sobre políticos e instituições, nasceu a Bal Mitra Gaon ("Liga dos amigos das crianças"), que tem como finalidade promover um trabalho de educação nas aldeias e nas áreas rurais do país.

Repercussão no mundo inteiro

O engenheiro Kailash agora não está sozinho. Em muitos países da Ásia, América e Europa, outras organizações estão perseguindo os mesmos ideais. Nasceu assim o movimento para a Marcha global contra a exploração do trabalho das crianças que tem como finalidade sensibilizar a opinião pública mundial e as instituições sobre um fenômeno que atingiu dimensões planetárias e pressionar os governos para que adotem leis que eliminem totalmente o trabalho infantil.
Os efeitos que a Marcha produziu durante dois anos não tardaram a aparecer.
O primeiro resultado foi que a Organização internacional do trabalho (Oil), reunida em Genebra, em 17 de junho do ano passado, aprovou, por unanimidade, o texto da Convenção sobre as piores formas de trabalho de menores, na qual foram aceitas todas as indicações dos que aderiram à Marcha. Kailash está satisfeito, mas confessa que ainda resta muito caminho a percorrer como, por exemplo, pressionar os governos para que acolham e dêem força de lei às indicações da Oil.
"Meu sonho, disse Kailash, é poder oferecer às crianças um mundo mais humano. Chega de pequenos escravos, chega de crianças exploradas e vendidas nos mercados do sexo a pagamento; chega de menores enviados a combater nas guerras dos grandes. Graças ao compromisso assumido por muitas pessoas esse sonho poderia tornar-se um dia realidade".
(Traduzido e adaptado de "Mondo e Missione" por Alberto Garuti)

Aprovada a Convenção sobre as piores formas de trabalho de menores

Os representantes de 174 governos, membros da Organização internacional do trabalho (Oil), reunidos em Genebra em 17 de julho de 1999, aprovaram os 16 artigos que compõem a Convenção sobre as piores formas de trabalho de menores.
Citamos o conteúdo de alguns desses artigos:
O art. 2 diz que o termo "criança"seja aplicado a todas as pessoas abaixo dos 18 anos.
O art. 3 fala das piores formas de trabalho de menores e indica, entre elas,
todas as formas de escravidão, como venda ou tráfico de menores, o trabalho forçado e exercido sob costrição, inclusive o recrutamento obrigatório e treinamento para que tomem parte em conflito armado;
a oferta de uma criança para prostituição ou produção de pornografia;
o uso de uma criança para atividades ilícitas como produção e tráfico de drogas;
o trabalho que, por sua natureza ou pelas circunstâncias em que é exercido, pode causar danos à saúde, à segurança ou aos princípios morais da criança.
A Convenção quer que os governos que adiram se comprometam a punir penalmente os responsáveis de eventuais violações e a adotar medidas necessárias para reprimir as piores formas de trabalho infantil, a proteger especialmente as meninas e a fornecer instrução fundamental gratuita e, quando possível, cursos de formação profissional.

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