Revista "MUNDO e MISSÃO"

Atualidades no Brasil

A arte do presépio brasileiro

Hilda Souto

A primeira representação do mistério do nascimento de Cristo de que temos referencia e uma cena simples, conforme nos descreve Luís Martinez, docente de arqueologia crista na Pontifícia Universidade Gregoriana: "A cena foi esculpida no século IV (325 d.C.) e encontra-se em um sarcófago do Museu das Termas, em Roma, e é um belo exemplo de baixo-relevo paleo-cristio. Uma árvore indica a cabana, um pastor que medita apoiado a um bastão um rústico cocho com folhas no qual e colocado o Menino envolto em faixas; e inclinados sobre ele, as cabeças do burro e do boi. Não estão presentes Maria e Jose. Não existem anjos e estrelas mas, e preciso notar, estio presentes as figuras do burro e do boi. E, desta primeira aparição, numa cocheira jamais faltarão esses animais. Por que? Que mistério se esconde atrás dessas duas figuras? A constante presença dos dois animais não corresponde aos dados do Evangelho, porque os evangelistas não falam deles, mas nasce de finalidades simbólicas. Corresponde a uma interpretação patrística de duas profecias: a de Isaias 1,3 ("conhece o boi o seu patrão e o burro o estábulo de seu dono") e a de Habacuc 3,2 ("em meio a dois animais Te manifestarás"). Os animais são ali um símbolo do reconhecimento do Messias, um símbolo cheio de profundo significado. Porque, o boi, segundo a melhor interpretação patrística, e o povo de Israel, que levou o jugo da lei e o burro, animal de carga, e o povo gentio, carregado dos pecados de idolatrias: destes dois povos nasceu a Igreja que reconhece o Senhor". Avançando um pouco mais nesta longa e rica história, sabemos que o maior propagador desta representação do Mistério da Encarnação de Cristo foi Francisco de Assis. Em 1223, na cidade de Greccio, região da Úmbria, Itália, ele construiu um presépio com elementos naturais, posteriormente reproduzidos por vários artistas, daquela e de outras regiões. A partir desta data, propagou-se mais facilmente as representações dos presépios na Europa e principalmente na Itália. Nos séculos que se seguiram o presépio passou de uma representação bastante diminuta -por vezes apareciam Nossa Senhora, São Jose, o Menino Jesus e alguns pastores para culminar, em 1700, com o esplendor do presépio napolitano. O termo deriva da época em que, no reinado de Carlos de Bourbon, homem religiosíssimo, e apaixonado pelas artes, Nápoles tomam-se o principal centro difusor desse tipo de rara escultura. A cidade de São Paulo tem o privilegio de possuir uma dessas raridades.

O presépio no Brasil

Para falarmos da história do presépio no Brasil e preciso não esquecer dos colonizadores que aqui chegaram: tantos foram os co1onizadores, tantas foram as influencias. Portugal, Espanha e França são os que falam mais de perto em virtude de sua grande contribuição nesta área. Lourdes Milliet, em um artigo, escreve: "Pesquisas elaboradas nos informam que, em 1532, mais ou menos, o padre Jose de Anchieta, ajudado pelos índios, já modelava em barro pequenas figuras representando o presépio, com o propósito de incutir-lhes esta tradição e honrar o menino Jesus no dia de Natal. Mas não ha a menor duvida de que foi entre os séculos XVII e XVIII que os presépios foram efetivamente introduzidos e difundidos no Brasil pelos padres jesuítas, portugueses, franceses e espanhóis, que aqui aportaram para catequese do gentio." Inicialmente, copiando ou se inspirando nos modelos importados de Portugal e Espanha, a arte presepista brasileira só bem mais tarde adquiriu uma fisionomia própria e a riqueza de linhas e de material que marcaram o barroco nacional. O índio, o negro, o caboclo, a fauna, a flora, a mitologia afro-americana, usos e costumes foram transformando as influencias recebidas em cenas comuns da vida diária, onde se destacam lavadeiras carregando as suas trouxas ou lavando roupas no rio; caçadores, fazendeiros, colonos e trabalhadores cuidando de animais, tirando leite, ou montados a cavalo percorrendo o caminho; mulheres dando milho as galinhas, cuidando dos filhos ou tirando água no poço; moinhos, cisternas, fontes e monjolos movidos pelo riozinho sinuoso que, escorregando por baixo das pontes, passa entre capinzais, representados pelo alpiste ou arroz semeados de fresco. Tudo isto, projetando-se na paisagem com seus montes, árvores e casinhas de todo gênero, pintadas com cores vivas, e a, igrejinha bem iluminada. A Bahia é um dos Estados onde mais cresceu e se difundiu essa tradição, graças também ao seu precioso folclore. Jorge Amado, em seu livro "Gabriela, Cravo e Canela", dedica algumas Páginas para descrever com simpática precisão o significado de tio nobre trabalho das irmãs dos Reis, em Ilhéus: "Doceiras eméritas, mãos de fada na cozinha, aceitavam por vezes encomendas para almoços e janta- res de cerimônia. Sua celebridade, no entanto, aquilo a faze-Ias uma instituição na cidade, era o grande presépio de Natal, armado cada ano numa das salas de frente da casa pintada de azul. Trabalhavam o ano inteiro, recortando e colando em cartolina figuras de revistas para aumentar o presépio, sua diversão e sua devoção... Era uma daquelas casas de antigamente, com duas salas de visita dando para a rua. Uma delas ha muito deixara de funcionar como sala de visitas, era a sala do presépio. Não que ficasse armado o ano inteiro. Só em dezembro ele era montado e exposto ao publico, durava ate as proximidades do Carnaval, quando Quinquina e Florzinha o desarmavam cuidadosamente e em seguida iniciavam a preparação do próximo presépio... O Natal europeu com o Papai Noel em carro de renas, vestido para a neve e para o frio, trazendo presentes para as crianças, não existia em Ilhéus. Era o Natal dos presépios, das visitas às casas de mesa posta, das ceias após a missa do galo, do início dos folguedos populares, dos reisados, dos ternos de pastorinha, dos bumba-meu-boi, do vaqueiro e da caapora". Vários Estados do Brasil possuem uma linda e rica serie de presépios. O "Presépio de Piriripau", por exemplo, exposto Parque do Ibirapuera por ocasião do IV Centenário de São Paulo, possui 42 cenas que vão desde o nascimento ate a ressurreição de Cristo. Destaca-se, porem, a "Fuga para o Egito", onde dois homens que ferram o burrinho, colocam a ferradura ao contrário, a fim de enganar os perseguidores. Cenas tão peculiares como esta podem ser apreciadas em diversos presépios do nosso País e que, infelizmente ainda são bastante ignorados. No território paulista, o Vale do Paraíba foi a região onde mais se desenvolveu a arte presepista. A medida em que se aproxima o Natal, os figureiros do Vale se dedicam à confecção de presépios em barro cru pintado que são vendidos por todo o Estado. A singeleza e o colorido são traços típicos destas peças. Uma das mais interessantes e o "Galinho do céu", todo azul, altivo, imponente e orgulhoso e que ninguém sabe de onde veio, mas desconfia-se ser ele o filho do pavão!... Estes galos trazem na cabeça três palitinhos, distribuídos em leque, com três bolinhas nas pontas, simbolizando as três vezes em que o galo cantou durante - O interrogatório de Cristo. Também no Nordeste os figureiros se fazem presente. Na figura do célebre Vitalino de Caruaru, a cidade pode ser conhecida internacionalmente por seus presépios com pequenas figuras modeladas em barro. Acredito que nunca houve tanta imaginação, religiosidade popular e invenção quanto na elaboração dos presépios brasileiros e de todo o mundo. Tantas vidas e tanta dedicação a essa arte valem porque, armar um presépio quer dizer: Cristo, centro do cosmos e da história. Da história do nosso Salvador que quis se misturar a nossa e que, depois de 2000 anos, podemos comemorar como um fato atual e presente, sem precedentes em todo o resto da história da humanidade.

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