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Rumo ao TIMOR LESTE
Ernanne Pinheiros
A solidariedade da nossa Igreja com o povo massacrado da nação-irmã,
aos poucos, torna-se realidade. A missão tem suas raízes
no desejo da Igreja do Brasil de "dar de sua própria pobreza",
sensibilizada pelos acontecimentos desastrosos, após o plebiscito
de agosto de 1999.
A nota que a CNBB emite em comunhão com o povo do Timor diz: "possa
também a Igreja missionária do Brasil substituir os que
tombaram pela fé, movidos pelo amor para com os timorenses".
Diante do número crescente de voluntários/as para este serviço
missionário, foi criada uma Comissão para acompanhar as
iniciativas em favor do Timor-Leste e enviada uma delegação
para escutar "in loco" os apelos mais prementes do povo.
Um país destruído mas não derrotado
O Timor Leste, até a Revolução dos Cravos, em 1974,
foi colônia portuguesa. A partir daí, abandonado e sem perspectiva,
viveu um momento de insegurança que provocou, em 1975, a invasão
da Indonésia.
Este país, com quase um milhão de habitantes (os dados da
ONU falam em 829.000 habitantes, isto é, duas vezes a população
do Amapá) e uma superfície de 14.874 km2 (2/3 do Estado
do Sergipe), foi quase totalmente destruído, mas mantém
fortes sinais de esperança. Cidades como Dili, a capital, e Manatuto
foram praticamente demolidas e queimadas: uma verdadeira ladainha de absurdos.
A filosofia dos militares indonésios é que destruiriam tudo
o que tinha sido construído nos 25 anos em que estiveram o poder
no Timor.
Hoje, o território está sendo provisoriamente administrado
pela ONU, que lá mantém Forças de Paz, providencia
ajuda humanitária e organiza a Polícia Civil. Todavia, a
esperança para o futuro reside na iniciativa do Conselho Consultivo
Nacional (CCN), constituído de 15 membros: 7 do Conselho Nacional
de Resistência do Timor, grupo em está incluído Xanana
Gusmão, o grande líder nacional, já chamado de "presidente";
1 membro da Igreja católica; 3 membros dos grupos pró-integração
à Indonésia; 4 membros da UNTAET (ONU), incluindo o administrador
geral, o brasileiro Sérgio Vieira de Melo.
A questão principal é decidir qual é o projeto de
sociedade que convém ao Timor, decisão que deveria ser dos
próprios timorenses.
Saídas e perspectivas previstas
Outra questão urgente é a necessidade de uma reconciliação.
A presença do atual presidente da Indonésia, Abdurrahman
Wahid, muçulmano, no Timor, no dia 29 de fevereiro deste ano, oferecia
sinais para esta reconciliação. Fomos testemunhas de suas
palavras ao povo: "Os dois países foram vítimas de
ditaduras e agora buscam caminhos de libertação; um precisa
do outro".
No plano político, há dois grupos políticos fortes
que lutaram pela independência: Frente de Resistência do Timor
Leste (FRETILIN) e União Democrática do Timor (UDT). Os
dois grupos estão, no momento, condicionados pela presença
forte da UNTAET na administração total do país, mas
a forte liderança de Xanana Gusmão será promissora
para os desdobramentos políticos num futuro próximo.
No plano econômico, há grandes possibilidades: novas negociações
estão sendo feitas com a Austrália, sobre a localização
de poços de petróleo; o país exporta café
e possui uma floresta densa e rica; o cultivo de arroz, milho e frutas
é grande, sendo que a safra deste ano foi muito boa.
No campo social, há uma carência de tudo apesar da UNTAET
afirmar que já foram distribuídas 15.000 toneladas de alimentos.
É certo que muitos grupos estão atuando com projetos humanitários
e as ONGs exercem um papel importante. As escolas estão funcionando
embora de forma precária e as aulas na universidade já recomeçaram.
A questão do idioma é conflitiva: os mais velhos aprenderam
a língua portuguesa, porém, o tetum é, de fato, a
língua nacional. A dominação indonésia alfabetizou
os jovens em bahasa indonésio e obrigou a estudar a língua
inglesa. O processo está tornando o português a língua
oficial, como identidade do país.
A missão da Igreja católica
Num país onde o Estado sempre foi pura quimera, a força
da Igreja, como instituição presente em todo o território,
tem sido um referencial para o povo e suas aspirações. É
a única instituição que oferece um espaço
de enquadramento à maioria dos habitantes da ilha.
Três causas podem explicar o fenômeno do crescimento da Igreja
católica: 1. a presença significativa no meio do povo, nos
momentos de maior sofrimento: a escolha de dom Carlos Ximenes Belo, para
prêmio Nobel da Paz, revela e reconhece esta presença; 2.
respeito à cultura da população. O trabalho das comunidades
paroquiais sempre levou em consideração as lideranças
tribais para a organização da catequese e da dinâmica
da vida eclesial; 3. a decisão por parte da Igreja de assumir oficialmente
o idioma tetum na liturgia.
A Igreja do Brasil no Timor-Leste
Os bispos, os padres e religiosas do Timor pedem algumas prioridades
em relação à ajuda oferecida por missionários
e missionárias do Brasil: professores/as para o Seminário;
religiosos/as que possam fazer experiências de vida inserida no
meio do povo e formadores de formadores.
O diálogo tem se encaminhado em três níveis de solidariedade:
Igreja-Igreja, através do envio imediato de missionários
e voluntários já disponíveis a serviço da
missão, mediante os critérios e prioridades sugeridas; solidariedade
da Igreja do Brasil em parceria com entidades da família do Pe.
Lebret, com sede em Paris: o IRFED (Instituto de Pesquisa, Formação,
Educação e Desenvolvimento) e Centro Lebret que estão
com um projeto de ajuda à reconstrução do país
e através da mediação da Igreja junto a órgãos
do governo ou na sociedade civil.
O sonho se tornou realidade: desde o mês de junho, a Igreja do Brasil
está no Timor Leste, através de quatro missionárias
- três religiosas e uma leiga - que, certamente, abrirão
caminho missionário para outros. Duas religiosas são da
Congregação da Divina Providência: irmã Maria
Beatriz Mohr e irmã Lourdes Borelli (do Rio Grande do Sul); uma
religiosa da Congregação das Irmãs da Imaculada Conceição
- irmã Terezinha Kunen (de São Paulo); a leiga é
Ana Maria Pinheiro, de Manaus. O grupo, em preparação para
a partida, permaneceu uma semana recolhido, em Porto Alegre, para oração
e reflexão; o Regional da CNBB Sul III, no dia 31 de maio, realizou
uma celebração de "envio". Antes de chegar ao
Timor-Leste, nossas missionárias foram acolhidas em Sidney, Austrália,
pelo Instituto Mary Mackillop, um centro de estudos lingüísticos,
para informações sobre o idioma nativo do Timor Leste, o
tetum.
Depois de permanecerem alguns dias na residência da diocese de Baucau,
as missionárias brasileiras já assumiram a missão
em Laléia, uma pequena cidade a 40 km de Baucau.
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