Revista "MUNDO e MISSÃO"

Atualidades no Mundo - Ásia

O povo afegão sucumbe pela fome e pelas doenças, trazidas pelos efeitos da guerra e do isolamento político

Nestes dias, todos os jornais falam de Ossama Bin Laden, do Afeganistão que lhe dá abrigo e dos taleban, os es-tudantes de teologia islâmicos que detêm o poder nesse país. Quem são os taleban e como estão no poder?

 

 

Alberto Garuti

Até 1973, o Afeganistão era uma monarquia que mantinha ótimo relacionamento com a União Soviética, a qual, por sua vez, ajudava o país do ponto de vista econômico. Nesse ano, um primo do rei proclamou a república, mas foi eliminado cinco anos depois. Babrak Karmal instaurou um governo marxista.

Vinte anos de guerra

Isto causou a revolta dos camponeses, acostumados com sua tradição muçulmana. Karmal pediu ajuda aos soviéticos e todos sabemos como a história acabou. A presença, no território, do ini-migo comum fez com que os vários gru-pos afegãos, sempre em luta entre si, se unissem. Recebendo ajudas militares e logísticas dos Estados Unidos e do vizinho Paquistão, que tinham interesse na derrota dos soviéticos, e aproveitando-se da configuração geográfica de seu território favorável a uma guerra de guerrilhas, obrigaram os mais de 100 mil sol-dados soviéticos a deixar o país, depois de nove anos, para evitar perdas maiores.

AFEGANISTÃO

  • Território: 652.000 km
  • População: 20,5 milhões
  • Capital: kabul (1,5 milhões)
  • Religião: Islamismo 99%
  • Mortalidade infantil: 15%
  • Analfabetismo: 63%
  • Expectativa de vida: 45 anos

Livres do inimigo comum, os vários grupos voltaram a combater entre si. A guerra civil só terminou em começo de1998, com a derrota das outras facções, empenhadas na conquista do poder, por parte dos taleban. Esse termo designa os estudantes de teologia islâmica, tradicionalistas e radicais, da etnia pashtun, a mais numerosa do país, que receberam ajudas econômicas e militares do exterior, especialmente dos Estados Unidos, para eliminar outros grupos julgados mais perigosos pelas superpotências. Inicialmente bem recebidos pela população, pela imagem de pureza, autenticidade e religiosidade que transmitiam, aos poucos, transformaram o país de maneira tal que parece ter voltado em poucos anos à Idade Média.

A ordem imposta pelos taleban

“Nosso movimento, dizem os taleban, nasceu para pôr fim ao caos, à crueldade, matanças, destruições, roubos, adultérios, fraquezas de toda espécie e a todas as coisas más. O islã agora reina soberano no país”.

Quem mais sofreu nessa onda de mudanças foi a mulher, considerada como “elemento de distúrbio na sociedade. Ela tem que ser isolada, fechada, brecada e frustrada em toda tentativa de emancipação”. As mulheres afegãs já não têm direito a passaporte nem à carteira de identidade. São objeto a ser vendido para um casamento, devem permanecer submissas; por isso não podem estudar nem trabalhar. Quem se revolta arrisca o apedrejamento.

O corpo docente feminino das escolas de Kabul (70% do total) foi demitido. Foram fechadas 107 escolas particulares, dirigidas por professoras afegãs e que funcionavam ligadas a Ong estrangeiras. Se elas quiserem reabrir, devem comprometer-se a aceitar meninas somente de idade inferior a 8 anos, a quem só poderá ser ensinado o Alcorão.

O problema da saúde também tornou-se alarmante: nenhuma mulher pode ser tratada por um médico. Em Kabul, um médico não conseguiu tratar uma mulher com queimaduras graves porque um guarda proibiu que tirasse sua roupa. “Se não o fizer, ela vai morrer”, disse o médico. “Muitos taleban morrem também nos campos de batalha!” foi a resposta.

Problema tornou-se também a subsistência das viúvas, visto que não podem trabalhar. Há mais de 700 mil delas no país. Outra categoria de pessoas que está sofrendo com a situação que se criou no país são as minorias religiosas. O chefe do governo, Mohammed Omar Akhunzada, decretou, em 1998, que qualquer cidadão afegão que abandonar a religião islâmica convertendo-se a qualquer outra religião será punido com a pena de morte. “Os inimigos do islã, diz o decreto, tentam corromper os muçulmanos oferecendo-lhes incentivos econômicos para que se convertam ao cristianismo ou ao judaísmo”.

As Ongs no Afeganistão

Com o país nessas condições, tornou-se muito importante o trabalho das organizações humanitárias. Em Kabul, um ano atrás, 400 mil pessoas, num total de 1 milhão e meio de habitantes, dependiam exclusivamente da ajuda.

Se os taleban não conseguiram impedir a presença dessas organizações, tentaram, contudo, dificultar seu trabalho. Como, por exemplo, a ordem que foi dada para operarem num velho prédio, sem luz e água, se não quiserem ser expulsas do país. Há cerca de dois meses, as autoridades afegãs prenderam 24 funcionários da Ong alemã “Shelter Now Internacional”, acusados de ter tentado difundir o cristianismo no país. Desses, 16 são afegãos e arriscam a pena de morte, 8 são estrangeiros e não se sabe a que pena poderão ser condenados. Um mês depois, duas agências estrangeiras de inspiração cristã foram fechadas, acusadas de ter tido contatos com os 24 presos da agência alemã.

No mês de dezembro de 2000, o Conselho de segurança da ONU decretou o embargo ao Afeganistão por ter se recusado a entregar o terrorista Ossama Bin Laden aos Estados Unidos. As sanções da Onu proíbem a entrada de armas no país e o fechamento dos escritório que o Afeganistão mantém no exterior.

Uma longa lista de proibições

Perseguindo o objetivo de instaurar no Afeganistão o emirado islâmico mais puro do mundo, os soldados teólogos começaram promulgando a sharia, a lei islâmica: corte da mão para os ladrões, apedrejamento para as adúlteras, fuzilamento ou enforcamento para os homicidas.
Mas, logo aperceberam que não bastava prevenir o mal; era necessário promover a virtude.
Para isso:

  • as mulheres são obrigadas a vestir o burqa, roupa que cobre o corpo inteiro, deixando somente alguns buracos para os olhos, o nariz e a boca;
  • proibição de fazer ou vender qualquer outro tipo de vestido. Proibido aos costureiros de tomar as medidas das mulheres ou de possuir catálogos de
    moda;
  • é proibido às mulheres usar sapatos de salto alto;
  • é proibida a música e o canto. É proibido ter cassetes em carros, lojas ou hotéis. Se isso acontecer, a loja ou o hotel são fechados e o carro é
    seqüestrado;
  • são proibidos, nos casamentos, músicas, bailes e cantos;
  • os homens são obrigados a deixar a barba crescer. Caso contrário, são presos e ficarão na cadeia até a barba ter o comprimento que as autoridades achem satisfatório;
  • os homens são obrigados a participar da oração comunitária. Dez dias de prisão para os transgressores;
  • as crianças são proibidas de empinar pipas, pois são causa de perigos para elas e levam os adultos a apostarem;
  • é proibido o culto à pessoa. Lojas, casas ou hotéis não podem expor fotos de ninguém;
  • são proibidos os jogos de azar;
  • os homens não podem ter cabelo comprido;
  • as mulheres não podem lavar roupa nos rios;
  • é proibido emprestar dinheiro ou pedir dinheiro emprestado;
  • foram fechados todos os cinemas;
  • é proibido ter televisão ou videocassete;
  • é proibido para os homens vestir roupa de estilo ocidental;
  • é proibido fumar e jogar baralho.

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