Revista "MUNDO e MISSÃO"

Atualidades no Mundo - Ásia

Timor Leste

A ilha que ainda não encontrou a paz

Alberto Garuti

Timor Leste, metade de uma ilha do arquipélago indonésio, foi colônia de Portugal até 1975, ano em que recebeu a independência. Desde então, tem vivido momentos dramáticos. Agora chegou a um ponto crítico: autonomia, independência ou anexação pura e simples à Indonésia?

Timor é uma das 17.500 ilhas que formam o arquipélago da Indonésia.
A parte oeste da ilha, ex-província holandesa, tornou-se parte desse país em 1950. A metade leste foi colônia portuguesa até 1974, quando Portugal renunciou a sua posse. Começou então uma guerra civil entre três partidos que disputavam o poder, da qual saiu vitoriosa a Frente Revolucionária do Timor Leste Independente (Fretilin), de tendência socialista, que proclamou a independência do país, que passou a ser chamado de República Democrática do Timor Leste. Mas a Indonésia não aceitou a separação: invadiu a ilha com suas tropas em 1976 e a declarou parte integrante de seu território. Isso aconteceu com requintes de crueldade, porque os militares entraram massacrando todos que tinham mostrado simpatia aos guerrilheiros separatistas. Calcula-se que, na ocasião, 200 a 300 mil pessoas morreram, numa população de 800 mil. Por sua vez, os Estados Unidos, pensando no avanço do socialismo naquela região da Ásia, não quiseram se indispor com seu precioso aliado (a Indonésia) e, praticamente, deram seu aval à situação que se criou, limitando-se a declarações sobre o direito de autodeterminação dos povos que ficaram sem efeito.
Os habitantes de Timor Leste nunca aceitaram a dominação do governo de Jacarta. Nesses 25 anos foram freqüentes as manifestações populares pedindo independência ou, pelo menos, a possibilidade de o povo decidir sobre seu futuro, através de um referendo.
Nessa luta destacaram-se Carlos Felipe Ximenes Belo, bispo de Dili, a capital, e José Alexandre "Xanana" Gusmão, chefe do Fretilin, acusado de insurreição armada, ambos agraciados com o Prêmio Nobel da Paz em 1996.
Aparentemente, a situação parece caminhar em direção a uma solução. Em 27 de janeiro deste ano, o governo indonésio anunciou a disponibilidade, ou melhor, a intenção de reconhecer, dentro em breve, a independência ao território que ele anexou em 1976.
Essa declaração, feita pelo ministro do exterior, causou muita surpresa, pois a mesma pessoa, durante muitos anos, defendeu com muita força os direitos da Indonésia sobre a ilha. Aí se aplica o caso clássico da oferta muito grande, que faz até o santo desconfiar. E a desconfiança aumenta pelo fato de o governo estar distribuindo armas a grupos para-militares contrários à independência, enquanto anuncia a intenção de dialogar sobre o futuro da ilha.
"O governo, dizem os que defendem a autonomia da ilha, quer mostrar ao mundo que Timor se encontra à beira da guerra civil", o que justificaria qualquer intervenção armada e a suspensão de toda consulta popular.
Em nível internacional, as tratativas continuam. Trata-se de estabelecer um acordo entre Indonésia e Portugal sobre o destino de Timor Leste. Os dois governos devem apresentar um projeto que prevê uma larga autonomia para o território. A proposta deverá agradar tanto aos habitantes da ilha como aos dois governos e às Nações Unidas. Mas, perguntam-se os timorenses, como saber se a proposta nos agrada, se o governo continua recusando-se a convocar um referendo para conhecer o que nós pensamos?
Porque uma solução não é fácil: a ilha é muito pobre, não tem indústrias, escolas, infra-estruturas: como poderá sobreviver, se conseguir a independência?
Dom Ximenes Bello, como outras pessoas, questiona por que, em lugar de tomar soluções precipitadas, não permitir à população que experimente uma certa autonomia, sem separação da Indonésia, por um certo período de tempo, para depois decidir se optar ou não pela independência?
Outro motivo de preocupação é a possibilidade de uma guerra civil entre os timorenses favoráveis à independência e os que não querem a separação de Jacarta. Esses últimos já anunciaram que, caso isso aconteça, pegarão em armas (fornecidas desde já gratuita e fartamente pelo governo).
Esse governo faz tudo para suscitar a impressão de que está bem intencionado e disposto a respeitar as aspirações para a autodeterminação dos povos: mandou inclusive que Alexandre Xanana Gusmão, uma espécie de Nelson Mandela timorense, tivesse sua pena de prisão perpétua transformada em prisão domiciliar.
O governo indonésio quer anexar Timor Leste e quer que o mundo reconheça que essa é a única solução possível. Dom Ximenes Bello compreendeu bem em que delicada situação encontra-se Timor, com inimigos internos e externos, e estimula a população a não oferecer nenhuma chance ao governo para intervir com força, pedindo ao povo para que, não queime bandeiras da Indonésia e, não ostente nas ruas os símbolos da Fretilin, tão odiada e temida por Jacarta. Ele já rezou na mesquita de An-Niur, em Dili, e os muçulmanos, que são a grande maioria da população da Indonésia, apreciaram muito seu gesto.
Ninguém consegue saber como terminará o problema de Timor. Muitos pensam que o governo, apesar de certas aparências, armou mesmo um plano de desestabilização e que tudo fará para que se realize.

ÁREA TOTAL: 30.724 km2
Timor Leste: 14.874 km2
Timor Oeste:15.850 km2

POPULAÇÃO TOTAL: 1.400.000 hab
Timor Leste: 800 mil hab
Timor Oeste: 600 mil hab

CAPITAL:
Timor Leste: Dili
Timor Oeste: Kupang

CATÓLICOS:
Timor Leste: 500 mil - 62,5% da pop.
Indonésia: 3,5%

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