Revista "MUNDO e MISSÃO"

Atualidades no Mundo - Ásia

A ilha da luz nas trevas da guerra

Alberto Garuti

Nos últimos anos, os conflitos étnicos multiplicaram-se, espalhados praticamente por todos os continentes. De alguns deles a mídia fala amplamente, outros quase passam despercebidos, dependendo da localização do país e das implicações que o conflito pode ter no mundo ocidental.
Dos conflitos que se travam há mais de dezessete anos no Sri Lanka, quase ninguém fala. A ilha tem pouco a oferecer ao mundo, a não ser um turismo exótico, misteriosas ruínas de templos e elefantes a serviço do homem.

A guerrilha esquecida na ilha do paraíso

O Sri Lanka (antigo Ceilão) é uma ilha a 50 km da costa leste da Índia, considerada, desde sempre, o paraíso dos turistas mas que, há dezoito anos, está sendo dilacerada por um conflito entre as duas etnias que povoam o país. E nada indica que vai parar tão cedo.
Proveniente do norte da Índia, 74% da população é cingalesa, tendo ocupado, no século 5 a.C., a parte central e meridional da ilha e se convertido ao budismo no século 3 a.C. Falam o sinhala. Os tâmeis formam 16% da população: provenientes do sul da Índia, do estado de Tamil Nadu, professam o hinduísmo, falam o tâmil e ocupam a parte norte da ilha.
Os 10% restantes são árabes, europeus e pequenos grupos de outras minorias asiáticas. Os portugueses foram os primeiros ocidentais a chegarem à ilha, no século 16, onde estabeleceram logo relações comerciais com o ocidente. Foram eles também que trouxeram os primeiros missionários. A colonização portuguesa durou até meados do século 17.
O Sri Lanka foi sucessivamente colonizado pelos holandeses (até o fim do século XVIII) e pelos ingleses, até o fim da Segunda Guerra Mundial. Os holandeses levaram à ilha o calvinismo e perseguiram a Igreja católica. Os ingleses deram grande incremento à escola, às plantações (café, chá, coco, bananas) e modernizaram o país, construindo estradas e unificando a administração. Eles difundiram a língua inglesa em toda a ilha, abrindo assim o país ao comércio com o exterior. Mas, unificando o país através da língua e da administração, os ingleses puseram as duas comunidades, até então separadas, em contato uma com a outra, criando as condições para o conflito étnico que agora está ensangüentando a ilha.

A língua inglesa, uma das causas do conflito

Os cingaleses, muito agarrados a sua cultura budista, sempre recusaram a colonização e a língua inglesa: sua luta contra a dominação estrangeira se baseou na defesa da língua sinhala e da religião budista. Os tâmeis, mais práticos e concretos, viram no conhecimento do inglês a possibilidade de garantir os melhores empregos, trabalhando na administração da colônia. Os ingleses, em contrapartida, favoreceram a criação de escolas e de centros de formação profissionais entre os tâmeis. O resultado foi que a administração da colônia passou a empregar mais tâmeis, que são minoria.
A independência do Sri Lanka, em 1948, colocou o país na mão da maioria cingalesa que começou a redistribuição dos postos de trabalho, de acordo com a consistência numérica dos vários grupos étnicos. Em poucas palavras, para cada vaga dada aos tâmeis, cinco eram reservadas aos cingaleses. Como conseqüência, muitos tâmeis, que antes tinham lugar garantido na administração inglesa, viram-se sem trabalho.
Outro grave erro da nova administração cingalesa foi o fato de ter declarado o sinhala como única língua nacional, o que praticamente cortou os tâmeis da possibilidade de assumir os principais cargos. Nos primeiros trinta anos depois da independência, os tâmeis opuseram resistência pacífica à dominação cingalesa e faziam manifestações não violentas para exigir seus direitos e uma maior autonomia para sua região. Os políticos da maioria cingalesa nunca deram atenção a esses pedidos e, em julho de 1983, o exército reprimiu com muita violência uma manifestação de tâmeis no sul da ilha. Foi o estopim para que os tâmeis começassem a se organizar num movimento de resistência armada, os Tigres, ou melhor, Liberation Tigers of Tamil Eelam, dando início a uma guerrilha que já fez mais de 60 mil mortos.
Em 1987, a Índia tentou ajudar o governo cingalês a restabelecer a paz na ilha e enviou uma força de 50 mil homens. A presença indiana durou somente quatro anos e, em 1991, deixou o país, após ter perdido mais de mil homens, sem ter conseguido algum resultado.

Sri Lanka hoje

O território tâmil está totalmente controlado pelos Tigres que têm o apoio integral da população. Eles recebem ajuda do estado indiano do Tâmil Nadu (sul da Índia), que lhes envia dinheiro e armas. Outros armamentos são obtidos nas incursões e emboscadas contra o desanimado exército do governo cingalês. O mundo inteiro já ouviu falar desses guerrilheiros místicos e ferozes que reagem violentamente em caso de serem capturados pelos cingaleses. A guerrilha treina adolescentes e mulheres, dispostos até o martírio, para ataques suicidas. Cada guerreiro leva, pendurada no pescoço, uma corrente com uma pílula de cianureto, um veneno entre os mais letais, que deve engolir para escapar das torturas e da prisão. São preparados e adestrados para a guerrilha na floresta - que para eles é uma forte aliada - e estão bem armados. Ao norte da ilha, cinco mil Tigres conseguem manter isolados do resto do país mais de trinta mil soldados do exército regular, completamente desmotivados pelas derrotas, pela falta de soldo, no meio de corrupção e deserções. O governo tenta esconder a situação, censurando e escondendo as notícias da guerra, mas ela existe e é violenta. Nas cidades onde convivem cingaleses e tâmeis, até então pacificamente, há possibilidades de explodir a violência de uma etnia contra outra.
A situação está tensa e é premonitora de alguma tragédia próxima que seria fatal para o Sri Lanka, já depauperado por dezessete anos de guerrilha.
As grandes potências e a Onu não querem se meter em brigas étnicas, em vista do fracasso das forças de paz na ex-Iugoslávia. De outro lado, nas guerras étnicas é difícil definir quem é quem: para os tâmeis, os Tigres são heróis da liberdade; para os cingaleses, são terroristas. Se, como tentativa de solucionar a guerrilha, for criado um estado ao norte para os tâmeis, haverá êxodo em massa das duas etnias e, certamente, novos rumos para a violência.
Esta é mais uma guerra suja que está longe de ser resolvida, trazendo trágicas conseqüências para o povo, arruinando o turismo, sua única fonte de renda, criando ódios que, dificilmente, serão superados nas próximas gerações.
Aliás, confirmando as previsões de prolongamento dos conflitos, no dia 7 de junho, um atentado suicida a bomba, em Colombo, causou a morte do ministro do desenvolvimento industrial e de mais 20 pessoas.

Visite as outras páginas

[P.I.M.E.] [MUNDO e MISSÃO] [MISSÃO JOVEM] [P.I.M.E. - Missio] [Noticias] [Seminários] [Animação] [Biblioteca] [Links]

Voltar