Revista "MUNDO e MISSÃO"
Atualidades no Mundo - Europa
|
EUROPA ESPIRITUALIDADE A Europa também tornou-se terra de missão, como, por
outro lado, nunca deixou de ser. O continente, berço e centro espiritual
do cristianismo mundial, vive o paradoxo de ser a origem de uma civi-lização
que conquistou o mundo e, ao mesmo tempo, ter sido vítima do vazio
existencial gerado por suas promessas materialistas. PAÍSES: 48 SUPERFÍCIE: 10 349 915 km² POPULAÇÃO: 745.500.000 habitantes POPULAÇÃO URBANA: 74% LÍNGUAS: 225 (3% das línguas do mundo). Os idiomas mais falados pertencem ao ramo latino (espanhol, italiano, francês e português), germânico (alemão, inglês e idiomas escandinavos) e eslavo (russo, búlgaro, servo-croata e ucrania no, entre outros). RELIGIÕES: o cristãos: 571.053.000 (76,6%) EXPECTATIVA DE VIDA: 72,7 anos MORTALIDADE INFANTIL: 10 de cada mil nascidos vivos ANALFABETISMO: 1,3 % PRODUTO INTERNO BRUTO: 9,5 trilhões de dólares RENDA PER CAPITA: 12.813 dólares. A VOLTA POR CIMA Estêvão Raschietti Hoje, o Ocidente, palavra que quer dizer "terra do entardecer", apresenta-se cansado e desencantado, entre as conquistas e os enganos da modernidade. Missão, hoje, significa restituir a esperança e anunciar novamente o Evangelho A idéia de Europa surgiu na Antiguidade da necessidade de organizar
a geografia do mundo conhecido. Era considerada uma das partes da Terra,
juntamente com a Ásia e a África com as quais confinava.
Para os sábios da Grécia antiga, a escolha do nome foi provavelmente
casual: "Europa" era simplesmente o Oeste de um mundo que tinha
como centro Atenas e seus confins sumiam com as neblinas do Norte e com
o mistério do Oceano. Onde está o Ocidente? - A separação originária entre Ocidente e Oriente consome-se numa pequena faixa de mar às margens do Mediterrâneo entre a Grécia atual e a Turquia. Hoje, porém, se olharmos para o mundo inteiro, não sabemos mais onde começa e onde acaba o Ocidente. Esse Ocidente está em todos os lugares e em lugar nenhum. O mundo inteiro foi ocidentalizado por uma Europa moderna que, sobretudo nos últimos dois séculos, estendeu sua rede comercial, seu sistema de produção, suas línguas, suas tecnologias, suas mercadorias e seu universo simbólico por todo canto. Antes, este domínio de controle mundial levava o nome de colonização. Hoje, chama-se de globalização. A outra face - O mundo moderno trouxe conquistas inestimáveis para a humanidade, como a valorização da razão em vez da superstição e da ignorância, o sonho de um mundo melhor de liberdade, igualdade e fraternidade para todos, o princípio da autonomia e da autodeterminação da pessoa humana, emancipada de qualquer pretensão de domínio por parte das forças da natureza e das escravidões da sociedade. Mas são exatamente estas conquistas que mostram também uma outra obscura face. A razão torna-se, soberbamente, todo-poderosa e gerente universal de princípios; a ciência e a técnica chegam com a pretensão de desvendar qualquer mistério e resolver qualquer problema, dispensando Deus e destruindo a fé. O sonho de um mundo melhor constrói sistemas ideológicos opressivos, projetos totalitários de felicidade, caminhos de mão única com uma meta obrigatória a ser alcançada pela qual se justifica qualquer sacrifício humano e ambiental, além da tortura para os opositores, da fogueira para os hereges, do campo de concentração para os dissidentes e da pena de morte para os pobres. A autonomia da pessoa humana torna-se individualismo, friamente indiferente a qualquer dimensão social, plenamente emancipado de qualquer escrúpulo ético, totalmente imerso em seus desejos, emoções e caprichos. Inquietação - Uma sensação de inquietação rodeia a modernidade ocidental. Depois de muitas expectativas, chega a decepção que gera mal-estar, desnorteamento, desencanto. Uma conjuntura marcada pelo relativismo e pela fragmentação que vem chamada de pós-modernidade. O vaso encantado do Ocidente caiu e se quebrou. Depois de ter varrido o fascínio das culturas populares e de ter eliminado todos os deuses com a espada da razão e da ciência, o Ocidente restitui muitas vezes à humanidade o vácuo de suas promessas, um mundo globalizado e injusto, uma Babel fracassada e espoliada, onde seus habitantes falam, cada um, a própria língua. Lembrando a queda do muro de Berlim, o papa João Paulo II comentou: "As grandes ideologias mostraram sua falência diante da dura prova dos acontecimentos. Sistemas que se autoproclamavam científicos de renovação social, ou de redenção do homem por si mesmo, mitos da realização do homem através da revolução, revelaram-se, aos olhos de todos, por aquilo que eram: trágicas utopias que provocaram um regresso sem precedentes na história atormentada da humanidade". A mesma crítica pode ser dirigida a todo o mundo moderno ocidental. Retorno ao sagrado - Obviamente, nessa tensão pós-moderna, onde as pessoas sentem-se traídas, sozinhas e perdidas, desiludidas pela civilização do progresso, do mercado e da tecnologia, surge uma tensão espiritual e certo retorno ao sagrado, um desejo de busca do transcendente. Mas, com o quase total desconcerto por parte das Igrejas, isso não significa um retorno às referências tradicionais ou uma migração para outras agências religiosas. É uma experiência intimista vivida mais como espaço de liberdade do indivíduo, livre de qualquer gaiola institucional e de qualquer sistema totalizante, absolutamente independente para construir sua própria comunhão com Deus e seu universo simbólico, utilizando e misturando o que o supermercado religioso propõe entre tradições milenárias e práticas experimentais. Ainda é João Paulo II que diz em sua encíclica missionária: "A época em que vivemos é, ao mesmo tempo, dramática e fascinante. Se por um lado, parece que os homens vão no encalço da prosperidade material, mergulhando cada vez mais no consumismo materialista, por outro lado, manifesta-se a angustiante procura de sentido, a necessidade de vida interior, o desejo de aprender novas formas e meios de concentração e de oração. Não só nas culturas densas de religiosidade, mas também nas sociedades secularizadas, procura-se a dimensão espiritual da vida como antídoto à desumanização. Este fenômeno, denominado "ressurgimento religioso", não está isento de ambigüidade, mas traz com ele também [para a Igreja] um convite" (RM 38). Transformações - Contudo, o cardeal de Milão, Carlo Maria Martini, convida todos a uma visão mais positiva e a não individuar no simples materialismo a causa de toda essa atmosfera pós-moderna. Isto seria, diz ele, "um hino à preguiça, um elogio à fatalidade". Segundo o arcebispo, "as profundas transformações culturais, políticas e ético-espirituais, que marcam o nosso continente e contribuem a conotar uma sociedade muitas vezes descristianizada, são efeito também de difusas e gerais mudanças da vida cotidiana, são o efeito muitas vezes ambivalente (não, portanto, necessariamente caracterizado em sentido material) dos conhecimentos, das técnicas, e dos meios disponíveis". Para Martini, mais que as ideologias, é a explosão dos meios de comunicação, a transformação das condições de trabalho na agricultura e na indústria, as aplicações tecnológicas à biologia, ao conhecimento médico e a todos os campos da vida, que leva a profundas mudanças nos costumes e na mentalidade do povo europeu. Tudo isso cria novos tipos de atitudes na vida de fé e na prática religiosa que necessitam de novas opções pastorais por parte da Igreja. A Europa e a Igreja - Seja como for, uma sociedade complexa, onde as famílias têm poucos filhos, onde cresce o número das pessoas que não se casam, onde a população rural chega a menos de 10%, onde há uma aceleração permanente do ritmo de vida e a necessidade de readaptar-se a mercados, consumos, modas e tecnologias, realmente exige da Igreja uma mudança radical em sua presença e em sua missão. Essa perspectiva gera insegurança e medo na comunidade cristã européia. Está de volta, em alguns setores católicos, o sonho triunfal da cristandade perdida. Há uma crescente resistência contra as transformações necessárias. Ao mesmo tempo, tem-se a ilusória sensação de que o povo esteja retornando à Igreja depois de décadas de apregoado ateísmo teórico e prático. Porém, o recente jubileu mostrou, em algumas ocasiões, o paradoxo pós-moderno: encontro com Deus sim, mas sem demasiada mediação desta Igreja. Uma pesquisa realizada em Roma por ocasião do Jubileu da Juventude, que contou com uma participação de cerca 2 milhões de jovens, revelou que os romeiros teen adoram o papa sim, mas não estão muito dispostos a segui-lo em matéria de moral sexual. Nova evangelização - Que a Europa e todo o ocidente moderno, de onde partiram muitos missionários para evangelizar o mundo, seja hoje uma terra de missão, não resta a menor dúvida. Mais precisamente, o desafio que a Igreja é chamada a responder é o de uma nova evangelização que reeduque para uma ética, uma gratuidade, uma acolhida e um renovado sentido do transcedente. Essa expressão foi lançada por João Paulo II, em 1986, quando escreveu assim aos bispos europeus: "Às profundas e complexas transformações culturais, políticas, ético-espirituais, que acabaram de dar uma nova configuração ao tecido da sociedade européia, deve corresponder uma nova qualidade de evangelização, que saiba repropor em termos convincentes ao homem de hoje a perene mensagem de salvação". Uma questão de qualidade parece desafiar a presença cristã na Europa mais que uma "re-catolicização" do continente. Está escrito no documento final do Sínodo dos bispos europeus de 1991: "A nova evangelização não é o projeto de uma assim chamada restauração da Europa do passado". O que precisa mesmo é de uma nova Igreja para uma nova Europa, uma Igreja capaz de lidar com as mudanças, com o desânimo pós-moderno e com um Ocidente que parece mesmo voltado ao entardecer, numa coincidência melancólica com sua etimologia levantada pelo filósofo Martin Heiddeger. Um novo tempo do Espírito - Retomar o Evangelho, redescobrir o sentido de Deus e da pessoa humana, reafirmar uma profunda consciência ética e sólidos princípios morais, repropor as raízes do vasto patrimônio humanista e espiritual de sua história, é a agenda para uma Europa e um mundo renovado e reconciliado à altura dos desafios do terceiro milênio. Urge um novo tempo do Espírito, depois de uma época de fé exclusiva e de uma época de fé excluída. É preciso um re-encontro com a Palavra libertadora, necessária para quem a anuncia e quem a vive, possível para quem descobre sua sabedoria e se confronta com ela. Necessita uma injeção de transcendência capaz de restituir a esperança nessa terra do entardecer, onde todos os deuses fugiram. Sociedade plural Ambivalente também é a reação diante de uma das transformações que mais inquieta a sociedade européia: a miscigenação de sua população, prevalentemente branca e cristã, com as ondas migratórias dos países africanos, asiáticos e do leste europeu. Esses povos são portadores de outras culturas e religiões e de outros mundos. Vêm de países pobres, marcados pela exploração, pela miséria e, muitas vezes, pela violência. Vêm de práticas religiosas e universos simbólicos completamente estranhos, para não dizer historicamente concorrentes com a tradição dos povos europeus. Sobretudo, o encontro com o islã parece bastante problemático. Não faltam interessantes e profundos caminhos de solidariedade e de encon-tro intercultural que vêem protagonistas muitas comunidades cristãs. Mas freqüentes são também as reações de racismo, xenofobia e fundamentalismo. Diversos grupos sociais refugiam-se na busca improvável de uma identidade étnica e na defesa in-transigente de uma civilização cristã. Os noticiários pintam e bordam sobre crimes que envolvem "extracomunitários" - assim são chamados os migrantes que chegam de fora da Comunidade Européia - e contribuem para construir uma imagem negativa e ameaçadora do estrangeiro. |
Visite
as outras páginas
[P.I.M.E.] [MUNDO e MISSÃO]
[MISSÃO JOVEM] [P.I.M.E.
- Missio] [Noticias] [Seminários]
[Animação] [Biblioteca]
[Links]