Revista "MUNDO e MISSÃO"

Atualidades no Mundo - África

A Autodestruição de antigas civilizações

Hélio Pedroso

Um cristianismo inculturado

Nos tempos pré-cristãos, conforme as tradições da Abissínia (do antigo nome que incorporava a Etiópia e a Eritréia), uma parte da população seguia a lei mosaica, enquanto outra tinha uma religião animista, adorando um sem número de espíritos bons e maus associados à natureza. A história de rainha de Sabá que teria tido um filho, Menelik, de rei Salomão e teria introduzido o judaísmo na Abissínia, não tem muito fundamento histórico. O judaísmo com seus ritos como a circuncisão, os tabus alimentares, a pureza ritual, a divisão entre animais puros e impuros e a observância do sábado, penetrou por causa dos contatos comerciais entre os dois povos.
O cristianismo na Abissínia foi introduzido na corte por um leigo, Frumêncio, e logo declarado religião do reino. Frumêncio foi sagrado bispo por Santo Atanásio e ligou-se à Igreja copto-ortodoxa de Alexandria do Egito que, várias vezes, enviara seus bispos para reger a Igreja abissínia. As Igrejas da Eritréia e da Etiópia ficaram unidas até 1929, quando os etíopes conseguiram a nomeação de bispos locais e, em 1959, o primeiro patriarca etíope. Em 1998, foi nomeado também o patriarca da Eritréia que dirige 8 dioceses e 9 bispos. A partir dessa data, existem duas Igrejas autônomas.

Monaquismo: característica da Igreja eritréia

A Igreja da Abissínia - e agora Eritréia - como todas as Igrejas orientais, teve sempre uma tradição monástica com grande número de adeptos. Ainda hoje, apesar de trinta anos de ditadura comunista, existem mais de vinte mosteiros masculinos somente na Eritréia que, com os da Etiópia, são mais que todos das outras Igrejas copto-ortodoxas. Por meio de seus pregadores, teólogos e santos, o monaquismo abissínio exerceu e exerce grande influência sobre todos os aspectos da vida do povo, não somente no campo religioso, mas cultural, social e político. O clero secular, geralmente casado, com pouca formação teológica, mas bem integrado na vida social e econômica do povo rural, é numeroso tendo em vista o número de fiéis: mais de 35 mil. A Igreja católica, atualmente, conta com 126 mil fiéis (3,5% da população), 65 padres diocesanos, 208 religiosos e 328 irmãs.

História e lenda na Igreja da Etiópia

Lalibelá é a cidade sagrada da Etiópia, comparável a Jerusalém, da qual traz até os nomes: um monte chama-se Tabor, um rio é o Jordão e as igrejas têm nomes como Santo Sepulcro e Ressurreição. Dizem ainda que existe também o túmulo de Adão.
A cidade, que foi capital do reino de Lalibelá, é uma mistura de história e mitos, mas uma verdadeira obra-prima de arte monumental. Havia um próspero mercado de sal que era como a moeda corrente do país. Até pouco tempo atrás, era um lugar semi-abandonado onde a vida das tribos vizinhas assemelhava-se à das aldeias da idade de bronze, visto que não conheciam nenhum avanço técnico. Hoje, a redescoberta desse lugar místico e monumental fez com que muita gente viesse em peregrinação e, a cada manhã, os recintos estão cheios de peregrinos vindos até de longe, para venerar e beijar as relíquias, receber a benção dos monges ou simplesmente ficar sentados junto aos centenários muros, rezando, repetindo longas ladainhas ou folheando velhos livros litúrgicos.

Terra da rainha de Sabá

Era por volta do ano 1200.
Lalibelá era o segundo filho e, portanto, não era o herdeiro do trono da dinastia dos Zague que tinham derrubado a dinastia dos descendentes de Salomão e da rainha de Sabá.
A lenda conta que, ainda criança, enquanto dormia no berço, um enxame de abelhas pousara sobre sua boca e a mãe viu nisso um sinal profético de que ele seria rei: Lalibelá significa "as abelha reconhecem a sua realeza".Adolescente, Lalibelá, para evitar intrigas com o irmão rei, casou-se e retirou-se na floresta. Aí teria tido um sonho em que Cristo o convidada a construir uma estranha cidade de edifícios sacros, onde os pecadores encontrariam o perdão, e indicava-lhe o lugar. Ele também teria visitado, sempre em sonho e guiado por um anjo, a cidade de Jerusalém. Tempos depois, seu irmão renunciou - a lenda diz que por ordem de Cristo - e Lalibelá foi ungido rei da Abissínia com o nome de Gabra Masql ou Servo da Cruz mas, continuou sua vida de penitência e humildade e começou a realizar seu sonho.

Homens e anjos constróem Lalibelá

A construção da cidade sagrada era um loucura para qualquer pessoa, especialmente porque estava a 2660 metros de altura, numa paisagem de altiplanos e vales de encostas íngremes. Mas Lalibelá não desistiu e começou a cavar, porque os monumentos, naquele lugar, não se construíam de baixo para cima sobrepondo pedras e tijolos, mas cavando a pedra de cima para baixo, criando muros, janelas, portas, pátios, canais de escoamentos das águas dos enormes poços e escadarias para os devotos descerem e fazer suas devoções. As 12 igrejas estão divididas em dois grupos e separadas por uma distância de cerca de 250 metros. O trabalho - dizem os estudiosos desse tesouro - consistia, primeiramente, em construir uma trincheira profunda da mesma altura da igreja (há igrejas de 15 metros) e depois os entalhadores de pedra iniciariam novamente do alto, moldando teto, paredes, janelas, arcos, molduras, colunas e enfeites, até chegarem ao piso térreo. Deslocaram-se mais de 150 mil metros cúbicos de pedra e uma média de 200 operários teria trabalhado por cerca de vinte anos. Outros estudiosos, porém, sustentam que a obra teria sido construída no espaço de duzentos anos, tendo em vista as pequenas mudanças do estilos nas várias construções.
Uma obra desse porte, naturalmente, deu origem a lendas como aquela que conta que, durante o dia, trabalhavam os pedreiros e, à noite, continuavam os anjos, de forma que a obra nunca teria parado. A realidade é que a obra durou muitos anos e levou à falência o rei Lalibelá e sua dinastia que, cinqüenta anos depois da morte do rei, foi destituída; a cidade de Lalibelá ficou sendo apenas um centro religioso.
A Igreja etíope proclamou santo o rei Lalibelá e a cidade tornou-se a Jerusalém da Igreja copto-ortodoxa da Abissínia, com todas as prerrogativas, privilégios e benefícios espirituais da Jerusalém judaica. Quem fazia ou faz uma peregrinação à Jerusalém etíope adquire as mesmas indulgências dos peregrinos que vão para a cidade em que Jesus morreu.

A guerra

O fim da guerra entre a Eritréia e a Etiópia, que é a prolongação de outra adormecida desde janeiro de 1998, continua sem previsão.
Depois de terem se libertado do ditador Menghistu, em 1991, os dois países começaram a brigar entre si por causa dos confins que tinham sido estabelecidos com o acordo do imperador etíope Menelik e dos ministros da Itália e da Inglaterra, em 1902. Hoje, esses limites são contestados por ambos os países e, no meio de acusações e invasões recíprocas, fica difícil reconhecer quem começou as hostilidades que reacenderam a guerra. Outros fatores que turvam as relações são o expansionismo etíope e a rivalidade entre as etnias. Essa guerra inútil que, forçosamente, será resolvida somente na mesa de negociações, já deslocou milhares de prófugos, forçados a deixar os locais onde construíram suas casas e a voltar ao seu país de origem. As previsões falam que a guerra ainda pode durar anos, o que resultaria numa perda mundial de duas ricas e antigas culturas.

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