Revista "MUNDO E MISSÃO"
Bíblia e Missão
“Não escondi a tua justiça...” (Sl 40, 7-12) por Sérgio Bradanini
Nenhuma ciência, por mais complexa ou sofisticada que seja, consegue ocupar inteiramente “o centro” do ser humano, negando ou até mesmo extirpando dele a dimensão espiritual. A oração é a maior e mais significativa resposta a essa necessidade fundamental. Necessidade de compreender e de se fazer compreender, de falar e de comunicar, de recordar e de cantar, de desabafar e de agradecer, de ter a sensação de poder participar de um projeto maior do que o próprio; necessidade de se encontrar novamente íntegro e perdoado, de encontrar algum motivo que dê sentido à alegria e ao sofrimento presente, de cantar a própria dor e de chorar por isso, enfim, necessidade de partilhar, de viver, de esperar.
Tudo isso, e muito mais, está formulado de maneira esplêndida no Sl 40, sobretudo nos vv. 7-12, onde o autor evidência o conteúdo e o “sabor” de sua existência e de sua missão pessoal. Ele deixa transparecer a presença necessária de duas atitudes fundamentais: em primeiro lugar, a disponibilidade radical para cumprir a vontade divina expressa na Torah; e em segundo lugar, a missão de proclamar a plenitude das ações salvíficas de Yhwh. Para indicar a ‘plenitude’ da presença divina na história, o salmista usa sete substantivos (direito/justiça – justiça – fidelidade – salvação – benevolência – verdade – misericórdia/compaixão). É preciso notar, porém, que só o primeiro “direito/justiça”, não tem o pronome possessivo “teu/tua”, porque se refere ao projeto de Deus em sentido universal. Nesse contexto, o autor deixa bem claro que, nas relações com Deus, o que importa não é o sacrifício ou a oferta como tal, mas a atitude de quem oferece. Deus não está interessado nos dons, está interessado no doador. Portanto, a atitude humana diante da soberania divina, não se expressa principalmente nos ou pelos dons e oferendas (não quiseste sacrifícios e ofertas – não pediste holocausto nem expiação) mas na e pela docilidade e assimilação da Palavra da Torah/Lei (abriste meu ouvido – eis que vim). Sacrifício e oferta, holocausto e expiação não são e nem devem ser eliminados, mas relativizados, porque acima de tudo está o direito/justiça nas relações humanas. Com efeito, fazer a vontade de Deus significa escutar intensamente a sua Palavra, a ponto de assimilá-la e integrá-la na própria vida (dentro das minhas entranhas; cfr Ez 3,3). Se, em seguida, a missão consiste em proclamar a salvação de Yhwh, o conteúdo deve ser previamente conhecido e assimilado. Só assim a proclamação não se identifica pura e simplesmente com um sistema de informações, mas se torna testemunho da experiência pessoal. A missão não se realiza repetindo coisas sabidas, mas testemunhando algo vivido, cujo significado ultrapassa as fronteiras pessoais para alcançar povos e nações. Passar pelo sofrimento pessoal, realçado por três negações (não fechei – não escondi – não ocultei), assimilar profundamente a Palavra para ser “mensageiro” de Yhwh, é uma missão que está acima de todos os sacrifícios/ofertas do templo. A docilidade radical na escuta e no cumprimento da Palavra, sob o impulso da iniciativa divina que abre o ouvido e põe na boca um canto novo, leva a proclamar a todas as nações que “Grande é o Senhor” (v.17). É experiência e caminho no Espírito. |
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