Revista "MUNDO E MISSÃO"

Bíblia e Missão

por Sérgio Bradanini

esus, de novo, falava-lhes dizendo: 'Eu sou a luz do mundo. Quem me segue não andará na treva, mas terá a luz da vida'". Esta é uma expressão de São João que, mesmo desvinculada do seu contexto mais amplo (8,12-20), desempenha uma função essencial: faz pensar. Faz pensar, antes de tudo, nos adversários imediatos que, logo em seguida, tentam neutralizá-la, mas também questiona os leitores do Evangelho. O evangelista utiliza o verbo grego "lalein/falar" que tem profundas ressonâncias proféticas para apresentar a atividade de Jesus.

Em seguida, com uma clássica fórmula de revelação: "Eu sou...", ele quer mostrar a seus leitores a importância decisiva da pessoa de Jesus para o mundo inteiro. É bom lembrar que o lugar onde Jesus pronuncia solenemente esta auto-afirmação é a sala do Tesouro do Templo (8,20). Lá, durante as Festas, eram acesos os grandes candelabros, cuja luz chegava a iluminar toda a cidade de Jerusalém.

Esse ambiente, densamente repleto de ressonâncias messiânicas, é o lugar em que Jesus se declara "luz do mundo". De fato, o motivo da luz, de acordo com as profecias messiânicas, indica felicidade, libertação, alegria: "Levanta, resplandece porque a tua luz vem vindo, a glória de Yhwh brilha sobre ti" (Is 60,1).


Este ícone, baseado nas características do povos indígenas de América, revela Jesus Cristo com as crianças

Além disso, por trás dessa afirmação de Jesus, é possível vislumbrar os textos proféticos que se referem ao "Servo de Yhwh" (Is 49,6: Sim, diz Yhwh:

"Pouca coisa é que sejas o meu servo, para restaurares as tribos de Jacó e reconduzires os sobreviventes de Israel. Também te estabeleci como luz das nações, a fim de que a minha salvação chegue até as extremidades da terra"; cfr. Is 42,6).

Esses textos que exprimem a missão do "servo" convidam a percorrer o caminho de um novo êxodo que liberta da treva e da opressão. Por isso eles ajudam a compreender que também a missão de Jesus não se reduz ao povo de Israel, mas está totalmente aberta para o mundo das nações.

Por esse motivo, Jesus convida a percorrer o mesmo caminho e acrescenta, logo em seguida, uma expressão não menos significativa do que a primeira:
"Quem me segue não andará na treva, mas terá a luz da vida". A dimensão universal da "luz" tem sua incidência concreta na experiência humana, também universal (a expressão quem me segue é singular, mas indica totalidade), revelando a necessidade de uma decisão pessoal.

Está em jogo o sentido da história: quem acolhe a luz encontra efetivamente o caminho da vida, e o caminho certo é aquele do "seguimento". Vale lembrar que seja a "luz" seja a "treva" possuem dimensões universais (cfr 1,5) bem como muitos outros contrastes do evangelho de João (vida-morte, verdade-mentira, espírito-carne, etc.).

No entanto, esses contrastes não são fruto da fantasia, mas surgem da experiência humana, porque é lá que é preciso decidir se enveredar pelo caminho da luz, do projeto de Deus e da vida, ou se percorrer o caminho dos projetos humanos auto-referenciais. Não há outra escolha senão entre dois caminhos: auto-suficiência humana e gratuidade divina.

Para o evangelista, todo ser humano realiza suas escolhas dentro do horizonte da história humana, assim como Jesus se manifesta como "luz do mundo" em sua própria humanidade. De fato, é muito significativo observar que o símbolo da luz ocorre só nos primeiros 12 capítulos e é quase sempre aplicado a Jesus em sua realidade histórica.

Portanto, ainda hoje, numa história repleta de ambigüidades, a decisão do "seguimento" não só obtém a luz da vida, mas revela ao mesmo tempo uma formidável dose de otimismo: a luz e a treva continuam se opondo como outrora, mas a Luz, no fim das contas, acaba resplandecendo gratuitamente para todos. Isso faz pensar e muito!

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