Revista "MUNDO E MISSÃO"
Bíblia e Missão
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'Foi-me dada toda a autoridade no céu e na terra. Ide, pois, fazer discípulos entre todas as nações, batizai-os em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo. Ensinai-lhes a observar tudo o que vos tenho ordenado. Eis que estou convosco todos os dias, até o fim dos tempos". O primeiro evangelho é essencialmente um texto missionário. Mateus escreve não tanto para contar a vida de Jesus, mas para apresentar um itinerário para uma comunidade em crise e para aprofundar seu chamado à missão. A comunidade de Mateus, uma comunidade proveniente do judaísmo situada num ambiente de pagãos, está passando por momentos de crises de identidade: o que vai acontecer no futuro? A comunidade pode continuar no judaísmo? Jesus é mais que um profeta? Alguns membros dão ênfase à lei e outros ao Espírito. Quem está certo? Mateus acha que todos têm uma certa verdade e falhas. Desta maneira, ele prepara o caminho para a reconciliação, o perdão, o amor mútuo na comunidade. E parece que todas essas tensões podem ser superadas, se todas as forças pudessem ser dirigidas para a missão no meio dos pagãos. Mateus afirma claramente que a identidade da comunidade é "a comunidade em missão". Afirma isso quando escreve que todo o caminho de Jesus se endereçava aos judeus e aos pagãos e termina com o grande envio final. Há três verbos no "grande envio" que destacam o caminho da missão. A expressão "fazer discípulos" é a mais central. O "fazer discípulos" é a expressão chave para o caminho da missão. A expressão "fazer discípulos" aparece somente quatro vezes no Novo Testamento: três vezes em Mateus (13,52; 27,57; 28,19) e uma vez nos Atos (14,21). Para Mateus, o termo "discípulo" não se refere somente aos doze apóstolos (como aparece em Marcos e Lucas). Discípulo é o protótipo da Igreja e inclui, também, todos os "discípulos". "Fazer discípulos" significa convidar outros a serem o que eles mesmos são: os que esperam o Reino de Deus (5,20) e são o sal e a luz do mundo (5,13). Para Mateus, o que se aplica a Jesus diz-se também em relação aos discípulos. Em Mt 10,24, "O discípulo não está acima do mestre, nem o servo acima do seu senhor. Para o discípulo basta ser como o seu mestre, e para o servo, ser como o seu senhor", no sofrimento e na autoridade missionária. Há, porém, diferenças entre um e outros. Ele, Jesus, é o Senhor. Os discípulos não são perfeitos e experimentam a fraqueza e as contradições. Muitas vezes são classificados como pessoas de "pouca fé", cheios de dúvidas e receios. A fragilidade e a vulnerabilidade dos discípulos é experimentada em sua própria identidade: eles estão vivendo à beira da hostilidade dos judeus e pagãos. Assim aconteceu com Jesus. A missão nem sempre é vivida na certeza; muitas vezes se abastece da fraqueza. Há sempre uma tensão dialética entre adoração e dúvida, entre fé e medo. Mateus é o único evangelista que põe na boca de Jesus o termo "Igreja" (Ekklesia) (Mt 16,18 e 18,17). Não se trata aqui da conotação de uma instituição ou denominação. Quando Mateus identifica a missão como "fazer discípulos", não está pensando em aumentar o número de adeptos de uma ou outra denominação. Ser discípulo não significa necessariamente ser parte de uma denominação local ou ajuntar membros para o próprio grupo. A perspectiva de Mateus é de um discipulado exigente. Existe tensão, em Mateus, entre o termo Igreja e o fato de fazer discípulos. De outro lado, os dois termos não estão separados. Em si, todos os membros da Igreja deveriam ser verdadeiros discípulos, mas nem sempre é assim. Há joio no meio do trigo, como há peixes maus na rede com bons peixes. A presença contínua de Jesus está ligada ao engajamento dos discípulos na missão. É no fato de "fazer discípulos", "ensinar" e "batizar" que Jesus estará com os missionários. Exatamente porque Jesus está presente no meio dos discípulos é que eles vão para a missão. |
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