Revista "MUNDO e MISSÃO"
Comunicação
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Para além do mal-estar gerado, da condenação do ato, das dúvidas sobre a educação e as companhias, talvez possamos, destacar alguns aspectos que contribuam para uma análise cuidadosa e uma reflexão sobre nossas relações cotidianas. E podemos começar pelo próprio cotidiano: que repercussão e questões surgiram com a divulgação do ocorrido e dos pormenores? Comentários a respeito da relação entre a filha e os pais, a crueldade, a influência das drogas, a importância extremada do namoro, de um lado e de outro, a proibição que foi vista como inaceitável, uma relação sem limites na própria família, um quadro doentio ou falta de caráter... e tantos outros. Tanto os comentários como a situação em si oferecem elementos para nossa reflexão. Primeiramente, é fundamental reconhecermos a complexidade do que vivenciamos, envolvendo inúmeros elementos que se articulam e se interdependem, não nos permitindo análises e conclusões superficiais e frágeis. Assim, cada aspecto tem um papel específico na trama que se construiu, as atuações revelam alguns sentidos, mas há outros que não são expostos, nem mesmo percebidos, mas contribuíram para o desfecho da situação. Podemos, assim, lançar três pontos para nossas reflexões: o contexto em que vivemos, as relações que vivenciamos, e a constituição de nossa história pessoal, ou se quisermos, de nossa personalidade. Como afirmamos acima, é impossível pensar um desses aspectos sem necessariamente associá-lo aos demais. Não há como ignorarmos que o mundo atual apresenta delineamentos e características inéditas com implicações positivas e outras questionáveis: a lógica da globalização, o imperativo do mercado e do consumo, ignorando vidas reais e suas necessidades mais básicas, produzindo exclusão e/ou mantendo privilégios; o avanço tecnológico e científico, trazendo-nos benefícios inegáveis sem, no entanto, importar-se com o acesso de parcelas cada vez mais amplas da população. E, então, de um lado, o consumo, e de outro, a privação, numa sociedade que parece "abrir mão" de valores fundamentais para sutilmente implantar que para ter valor é importante "ter valores". Como escapar a essa lógica? E não percebemos que já estamos tão envolvidos nessa trama, que nem mesmo perguntamos como vivem e se sentem os que não têm. Nem nos indagamos se, numa situação qualquer, uma das raízes é o processo real de privação de sonhos e de caminhos para um acesso efetivo aos bens da sociedade contemporânea. AS RELAÇÕES FUNDAMENTAIS E, ao falarmos em privação, não podemos esquecer uma dimensão ainda mais ampla, também vinculada ao acesso a bens, mas àqueles essenciais ao bem-estar e à convivência. Um olhar atento às condições de vida que nos são impostas atualmente revela o quanto temos nos distanciado de relações fundamentais dos encontros em família, do olhar no olho do outro, da conversa descontraída que aproxima, que permite a partilha e a descoberta de si e do outro. Desde as relações de trabalho, entre os vizinhos, também as relações comerciais, e, principalmente, as que são vivenciadas em família, todas estão cada vez mais frágeis e a família, que é a mais fundamental, tem sido a mais comprometida. O tempo escasso, o estresse, a falta de diálogo, paradoxalmente associada ao desejo de falar e nem sempre de escutar, não propiciam espaço para o acolhimento e a partilha, para encarar as tensões e delinear com clareza (ou mesmo para refletir, estabelecer e assumir) procedimentos básicos do que é bom e do que é ruim, do que é certo e do que é errado. Aqui, a privação é de valores em seu sentido mais clássico, daquilo que sustenta e norteia a vida pessoal e com os demais. E então nos perguntamos que possíveis efeitos tais aspectos podem provocar na constituição da vida de uma pessoa? Com certeza, não é adequado estabelecer aqui uma relação de causalidade entre os fatores e resultados "previstos". A trama da vida é mais complexa e nos impede tal reducionismo. No entanto, podemos considerar que há a necessidade inegavelmente humana de relações básicas, por onde circulem os afetos, em sua diversidade de expressão, e onde sejam vivenciadas e incorporadas concepções e modos de viver interpessoais e sociais. A percepção de pertença a um grupo, a partir do qual se destaquem aspectos comuns, mas onde também cada um seja reconhecido em sua diferença, são elementos fundamentais para a subjetividade, em especial, porque é o espaço em que ocorre a vivência de realizações e de frustrações, que são sustentadas internamente pela vinculação ao grupo. PERGUNTAS E outra pergunta se apresenta: atualmente, onde nossos jovens buscam e encontram tais referências? Onde se estabelecem tais vínculos afetivos com maior ou menor significação? E os adultos, com a escassez de tempo, com a exigência infinda de tarefas e atividades, onde encontram um espaço para respirar? Onde ou em que nos apegamos (bebida, trabalho, consumo...)? E o que temos ensinado às nossas crianças nas vivências mais cotidianas? Será que não encontramos aqui possíveis pistas para compreendermos o processo intrincado das dependências? Dos grupos e gangues? Das drogas e dos infratores? Talvez, e repito, talvez alguns desses aspectos contribuam para compreendermos as tramas que resultaram na perda real de tantas vidas, do caso Suzane e dos demais. Mas cremos que podem ser pistas iniciais para refletirmos a respeito de nossas condições de sobrevivência, do sentido que damos às nossas vidas e às pessoas com as quais convivemos e, principalmente, como queremos viver, a partir de hoje. O contexto atual não nos permite mero saudosismo, nem desesperança: precisamos recuperar e fortalecer, em nossas relações mais próximas, em família e com amigos, a intensidade do amor e do afeto, do acolhimento, do diálogo e da orientação que, bem sabemos, sustentam nossas vidas. |
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