Revista "MUNDO e MISSÃO"
Comunicação
|
O religioso que não usa a mídia Paulo da Rocha Lima O professor José Marques de Melo é o pesquisador brasileiro que mais tem se dedicado à investigação científica sobre Igreja e Meios de Comunicação no Brasil. Com o objetivo inicial de ajudar a Igreja a reconstruir a sua trajetória comunicacional, Marques de Melo acabou por adotar a Comunicação Eclesial como uma linha de reflexão acadêmica. Professor da ECA/USP, diretor da Pós-Graduação em Comunicação Social da Universidade Metodista de São Paulo e assessor de Comunicação da CNBB durante vários anos, considera sua atuação na comunicação da Igreja um serviço motivado pelo compromisso cristão. "Como católico, senti a necessidade e o compromisso de ajudar a Igreja a superar alguns bloqueios comunicacionais". M.M.: Como o senhor explica sua atuação junto ao setor de Comunicação da Igreja Católica? Marques de Melo: Eu me considero extremamente gratificado. Fui um dos primeiros leigos a assessorar os bispos na questão da Comunicação e a intervir na Assembléia Geral da CNBB. Meu trabalho limitou-se muito mais a assessorar, fazer pesquisas e críticas. M.M.: Como a Igreja acolheu sua atuação? Marques de Melo: Vivíamos um momento em que os bispos todos tinham uma postura "apocalíptica", quer dizer, crítica, muito pessimista e negativista em relação à mídia. A tendência era sempre considerar a mídia como um mal que deveria ser combatido e dizimado. Então me propus a sensibilizar os bispos e colocá-los em contato com os meios de comunicação para que pudessem entendê-los por dentro e não simplesmente como alguém que vê aquilo e não quer nem tomar conhecimento. De sorte que me considero extremamente gratificado pelo bom acolhimento que recebi e pelo êxito obtido. M.M.: Como os bispos reagiram às suas propostas? Marques de Melo: Vários bispos demonstraram extremo interesse em compreender aquilo que se passava na mídia, tentando entender o que estava por trás das razões que presidiam as estratégias midiáticas. Eu, depois, reconhecia nesses bispos aqueles que não eram preconceituosos com a comunicação. De alguma maneira eles se sensibilizaram. M.M.: Isto ajudou a equacionar o problema da formação teórica e a atuação prática dos profissionais da comunicação na Igreja católica? Marques de Melo: O problema é que os membros da Igreja
católica que adquirem competência comunicacional são
freqüentemente desviados para outras atividades. Os que, depois do
estudo, vão para a prática, em geral, se tornam mais competentes.
M.M.: Então, a formação dos religiosos tem surtido resultados práticos em termos de atuação no universo das comunicações? Marques de Melo: Sem dúvida. Mas persiste o problema de
desvio de rota. Precisaria haver um pouco mais de persistência das
pessoas que trabalham na comunicação e, ao mesmo tempo,
capacidade de avançar no próprio campo da comunicação
eclesial. M.M.: O que o senhor diz dos documentos católicos sobre comunicação? Marques de Melo: São muito mais ideológicos que operativos. Firmam princípios e doutrinas, mas não avançam muito em relação ao modus faciendi. O mais operativo é o Decreto Conciliar Inter Mirifica. Os outros são muito eivados de ideologia. E o problema é que eles fazem uma análise do valor sem entender a essência, sem entender os processos. É preciso que as congregações e instâncias intermediárias troquem esses documentos em miúdos e passem dos princípios à ação. M.M.: Que perspectivas as novas gerações católicas de comunicadores e de estudiosos da comunicação deveriam tomar? Marques de Melo: Entender melhor os meios de comunicação
para estar presente neles e para orientar melhor os fiéis para
a relação com esses meios. M.M.: Que formação dar então aos futuros operadores da comunicação? Marques de Melo: Uma formação de base. Todo e qualquer
centro de formação eclesial deveria ter uma disciplina ligada
à comunicação e à mídia. Criar uma
mentalidade mais profissional no sentido de entender que essas atividades
não são improvisadas e, portanto, não são
voluntárias. Todos devem contribuir com o trabalho voluntário,
mas não se pode apelar prioritariamente para o voluntariado. A
comunicação é uma tarefa para profissionais, religiosos
ou não. M.M.: Mas o problema crônico da comunicação eclesial é circulação e audiência... Marques de Melo: Este problema persistirá enquanto não houver um melhor conhecimento dos processos comunicacionais e melhor interação com o universo cultural da audiência. O problema é que a Igreja, muitas vezes, não quer entender a linguagem do povo e, a partir das motivações da audiência, desencadear processos de comunicação. Há padres que escrevem no jornal diário falando uma linguagem cifrada. Talvez só o bispo ou superior dele entenda. O cidadão comum não. Ora, tem que se falar como o próprio cidadão. M.M.: O que o senhor diz dos novos comunicadores católicos? Marques de Melo: Valorizo muito. Esses padres da televisão
hoje são Anchietas reencarnados. A começar por João
Paulo II, o papa da comunicação. Desde o início de
seu pontificado, tem dado um exemplo de que ele é a própria
comunicação. Ele simboliza no mundo inteiro a fé
cristã. Transformou-se no meio e na mensagem. M.M.: Mas os padres da televisão são muito criticados... Marques de Melo: É um problema ideológico e não
comunicacional. São criticados por pessoas que acham que esses
comunicadores não deveriam evangelizar, mas politizar. Confundem
evangelização com politização. São
partidários de uma determinada ideologia e gostariam de ver a mensagem
deles sendo ali transmitidas. M.M.: A mensagem da Igreja cabe nos meios de comunicação coletiva? Marques de Melo: O que a Igreja tem a dizer cabe em todos os meios e em todos os lugares. O grande problema não é o conteúdo ou a mensagem. É o meio, é a forma, é o formato. Então é preciso adaptar a mensagem ao formato daquele meio, daquela audiência e daquela circunstância histórica. A idéia da propaganda no sentido do convencimento pelos argumentos e pela fé continua válida. Essa é a grande contribuição da Igreja católica: os processos de propaganda. M.M.: Encontra-se muita dificuldade em adaptar a mensagem e os mensageiros cristãos a esses novos modos de comunicar, às novas técnicas, às novas atitudes psicológicas... Marques de Melo: Esses bloqueios se eliminam com a acumulação
de conhecimento. A Igreja não faz acumulação de conhecimento
em comunicação. Ela deixa isso de lado como se fosse um
mal necessário. Mas a comunicação não é
um mal necessário. É inevitável. O mundo moderno
é o mundo da comunicação e quem não evangeliza
através dos meios de comunicação está evangelizando
pouco e é uma pessoa fora do seu tempo. M.M.: A Igreja deve ter meios próprios ou inserir-se nos meios industriais? Marques de Melo: As duas coisas. Os meios próprios são capazes de manter a comunidade já organizada e estruturada abastecida por informações que ela deseja. E as pessoas emblemáticas da Igreja precisam estar presentes nos grandes meios. Por exemplo, um bispo precisa, pelo menos uma vez por semana, comparecer às páginas dos jornais, examinar a conjuntura de acordo com os postulados da Igreja Católica. Não para fazer proselitismo, mas analisar questões da vida cotidiana à luz dos preceitos evangélicos. É a Igreja como intérprete daquilo que está nos grandes meios. Mesmo diante de uma mensagem cujo signo é anti-evangélico, a Igreja, estando presente nos meios, pode fazer uma reinterpretação daquilo que ali está. M.M.: E o problema do financiamento? Marques de Melo: Comunicação é sinônimo de capitalismo. Sem se aproximar da lógica capitalista é impossível fazer comunicação coletiva. O que não se pode fazer é exigir o lucro pelo lucro, mas pode-se perfeitamente manter uma vigilância constante e se organizar administrativamente através de bens materiais e simbólicos que não são contraditórios com a fé cristã. Há inclusive empresas capitalistas que fazem isso. São capazes de dizer: "isso aqui não entra". O que falta na Igreja é vontade política e competência operacional. |
Visite
as outras páginas
[P.I.M.E.] [MUNDO e MISSÃO]
[MISSÃO JOVEM] [P.I.M.E.
- Missio] [Noticias] [Seminários]
[Animação] [Biblioteca]
[Links]