Revista "MUNDO e MISSÃO"

Comunicação


Crucificação de Jesus Cristo de Giorgio de Chirico

Sergio Bradanini

Apesar de toda complexidade, nossa época, sob um certo ponto de vista, é muito interessante porque, além de ser extremamente desafiadora, apresenta uma vasta gama de perspectivas. De um lado, as relações tornaram-se tão complexas que, ao alcançarem a dimensão planetária, podem gerar um sentimento de perplexidade, de instabilidade e de insegurança. O mundo con-temporâneo parece estar fundamentado sobre equilíbrios muito frágeis. Este fato pode levar muita gente a fechar-se dentro das próprias seguranças já alcançadas.

De outro lado, nunca como antes, aparece o desejo e a busca de uma co-operação e de uma solidariedade cada vez mais ampla, que abre novos horizontes. Ora, nesse contexto, aparece, no fundo, uma grande tensão entre a dimensão estreita da individualidade e o horizonte aberto da humanidade toda. Não é por acaso que a nossa missão está inserida exatamente neste ponto: ela se realiza quando consegue construir uma ponte entre o individualismo e o universalismo. Nesse sentido é muito significativo o texto do profeta Isaías: “Eu Yhwh te chamei pela justiça, te tomei pela mão, te modelei, te estabeleci como aliança do povo, como luz das nações” (Is 42,6).

Trata-se da segunda parte do primeiro “canto do Servo” (Is 42,1-4.5-9: Bíblia de Jerusalém). Logo salta aos olhos a iniciativa absolutamente gratuita de Deus. É bom lembrar que a missão, desde sempre, tem sua origem em Deus. Isso, porém, não é suficiente, é preciso lembrar também que sem uma total e incondicional adesão humana, a iniciativa divina permanece estéril.

O texto não frisa só a iniciativa divina, mas evidencia outros aspectos que desempenham um papel importante na missão do Servo. A primeira é a imagem de Deus que, como um pai, segura o seu filho “pela mão”. Trata-se de uma relação importantíssima ao longo de toda missão: Deus não só chama, mas também acompanha, protege e nunca abandona o seu Servo! No entanto, é uma relação extremamente exigente da parte do Servo. De fato, a segunda imagem mostra Deus criador que “modela e estabelece” o Servo, para ser testemunha diante do povo de Israel (“aliança do povo”) e diante das nações (“luz das nações”).

Como o Servo desempenha a missão de ser testemunha qualificada da salvação de Deus? A resposta do texto é claríssima: “pela justiça!”. Naturalmente, o termo justiça não se refere só ao sentido retributivo e distributivo, mas tem um sentido muito mais amplo. Com efeito, neste contexto, justiça coincide com o projeto de Deus e identifica-se com a sua vontade, que “quer que todos os homens sejam salvos” (1Tm 2,4). Portanto, ser testemunha “pela justiça” significa comprometer-se a restabelecer a ordem da criação, através da libertação de tudo aquilo que pode poluir as relações humanas, no âmbito individual (a história particular de Israel) e no âmbito universal (a história de todas as outras nações). Cumprir a missão “pela justiça” significa ser testemunha de que, em cada situação histórica e em cada circunstância, por banal que seja, é possível perceber uma semente destinada a produzir frutos para toda a humanidade. É interessante notar que o próprio Deus, apresentado logo antes como criador do mundo e doador de vida para todos (Is 42,5), é quem assume a responsa-bilidade definitiva de “anunciar coisas novas, antes que elas surjam” (42,9). Através da missão do Servo que constrói uma ponte entre a experiência de Israel e aquela dos outros povos, Deus envolve-se diretamente para oferecer a salvação ao universo inteiro e a todos os seus habitantes.

Por este motivo, os primeiros cristãos não tiveram dificuldade em reconhecer na figura do Servo a missão de Jesus: “Luz para iluminar as nações, e glória do seu povo Israel” (Lc 2,32).

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