Revista "MUNDO e MISSÃO"
Comunicação
O quarto poder por Pedro Miskalo
Através de mecanismos de concentração, essas empresas tornaram-se os principais atores da globalização, porque tudo vêem, tudo ouvem e decidem sobre tudo. Seu mais democrático veículo é a televisão, uma concessão do próprio Estado, da qual, muitas vezes, torna-se algoz, já que ela decide eleições, derruba presidentes, provoca cortes profundos na sociedade. A televisão no Brasil A Constituição estabelece o prazo de 15 anos de concessão para televisão, porém tais concessões são renovadas “automaticamente”, sem avaliação da sociedade que, afinal, é sua verdadeira “proprietária”. Nascida para informar e formar a opinião pública, ela tem prestado excelente serviço à comunidade.
Graças à ética e à audácia de bons profissionais, tem combatido e rejeitado decisões ilegais, iníquas e injustas. Orienta agricultores e sanitaristas, é uma ferramenta educacional, auxilia na formação da cidadania, oferece um leque de opções de esporte, turismo, moda e lazer. Mas não deixa de ser apenas um veículo, cuja direção depende dos objetivos e interesses do condutor, quase sempre com um olho na concorrência e outro no lucro. Assim, falta espaço para a ética e o compromisso social em seus programas. Elisabete Santana, membro do Fórum Paulista pela Ética na TV, é incisiva: “O respeito à dignidade humana deu lugar a um espetáculo de degradação; crimes e criminosos passaram a ser objeto de glamour, como se isso fosse absolutamente natural”. E continua: “A televisão brasileira tem se prestado a uma papel de exploradora e promotora da miséria humana, com o suporte de alguns patrocinadores, que não atentaram para o que, de fato, estão financiando”. Baixaria O sétimo ranking dos 10 programas mais denunciados ao e-mail eticanatv@camara.gov.br, entre 7 de maio a 11 de outubro, foi mais uma iniciativa da Comissão de Direitos Humanos e Minorias da Câmara dos Deputados, através da Campanha “Quem Financia a Baixaria é Contra a Cidadania”, coordenada pelo deputado Orlando Fantazzini (PT/SP). Os campeões de baixaria na TV são, na ordem, os seguintes: “Tardes Quentes”, da Rede TV, com João Kleber (pela 3.ª vez); “Celebridade”, da Rede Globo; “Programa do Ratinho”, do SBT; “Senhora do Destino”, da Rede Globo; “Pânico na TV”, da Rede TV; “Da Cor do Pecado”, da Rede Globo; “Cidade Alerta”, da Rede Record, com Marcelo Resende; “Casos de Família”, do SBT, com Regina Volpato; “A Casa dos Artistas”, do SBT e “Brasil Urgente”, da Bandeirantes, com José Luís Datena. A Campanha foi criada em novembro de 2002 e já contabilizou mais de 15 mil e-mails, entre manifestações de apoio e denúncias contra os programas que desrespeitam os direitos humanos. Segundo sua coordenação, o povo brasileiro tem presenciado, na maioria dos programas, a incitação ao crime; a discriminação por raça, sexo e orientação sexual; o desrespeito à idade da criança; a prévia condenação de meros suspeitos e a exploração sensacionalista da miséria humana. Elisabete Santana alerta: “Na medida em que isto vira espetáculo, a sociedade tem por obrigação cidadã manifestar-se e fazer valer a prerrogativa de ser a única detentora desse meio de comunicação”. Mecanismos de Resistência Apesar do enorme poder de persuasão da mídia, é possível opor-lhe uma força cidadã. A opção mais simples é virar-lhe as costas, como aconteceu no “Dia Nacional Contra a Baixaria na TV”, 17 de outubro, promovido pela Campanha “Quem Financia a Baixaria é Contra a Cidadania”, quando os telespectadores foram convidados a desligar seus aparelhos durante uma hora. Debates, seminários, compromissos das redes comerciais de televisão foram os primeiros resultados positivos do protesto. Outra opção é criar um “quinto poder”, não apenas o da denúncia ou do desprezo, mas do apoio às iniciativas que têm, como aliadas, a ética e o compromisso social. Reality Show A televisão interage com o público através de auditórios, e-mails, entrevistas, telefone. O reality show arrasta milhões de famintos que sonham com o estrelato. A maioria desses programas expõe jovens sarados, tatuados, ociosos, sem compromissos sociais ou políticos, ao voyeurismo do público. “Big Brother Brasil”, “Sem Saída”, “Casa do Artista” são fetiches que alimentam sonhos efêmeros, mas coloridos. Não dão pão, mas mostram um circo alegre e mambembe: ociosidade alheia, disposição para a humilhação e o ridículo, sexo sem afetividade, linguagem chula. O assunto reúne educadores, psicólogos, pais, adolescentes, cujas opiniões variam conforme a maturidade. Os mais jovens não vêem problema algum. “É legal! Com os micos dos outros, a gente aprende a se virar e a vencer. Quem não convence, deve cair fora logo”, comentou um adolescente. Uma professora opinou: “Isso só serve para afastar a moçada dos compromissos com a política, com a vida. Resta saber se a alienação é apenas episódica ou vai se refletir na construção da consciência crítica e da cidadania”. Big Brother Árabe por Giuseppe Caffulli Há pouco tempo, Mohammed Attia, de 21 anos, desembarcou no aeroporto do Cairo e foi saudado por um mar de adolescentes. Attia venceu o Star Academy, o reality show transmitido pelo canal de televisão libanês LBC, via satélite. Ele venceu 15 concorrentes, entre milhares de rapazes e moças do Líbano, Síria, Tunísia, Marrocos, Egito, Kuwait, Arábia Saudita e Emirados Árabes. O canal transmitiu a convivência de moças e rapazes sob o mesmo teto, desafiando-se no canto, na recitação, no balé. O vencedor ganhou 50 mil dólares e um contrato, por cinco anos, com a gravadora EMI. 80% dos libaneses, entre 15 e 25 anos, acompanharam a transmissão, segundo o instituto Stat-Ipsos. A imprensa egípcia também comentou a verdadeira obsessão entre os jovens egípcios da mesma faixa de idade. O sucesso de Star Academy suscitou, em todo o mundo árabe, uma avalanche de críticas e de polêmicas. Hanzada Fikry, um docente, comentou: “Há de se perguntar se o fato de um jovem se rivalizar contra outro, de outros países, ao invés de favorecer a unidade do mundo árabe, não esteja cultivando um nacionalismo prejudicial”. Embora dentro dos padrões islâmicos (sem sexo, álcool, saunas, duchas, piscinas e palavrões), os reality show são hoje o principal canal, através do qual chega o estilo de vida ocidental, com seus desvios consumistas. O chefe máximo do Islã Saudita manifesta-se: “Eles convidam ao pecado. Os muçulmanos não devem segui-los”. Khaldoun Solh, cientista político, interpreta o fato como estratégia: eles “afastam os jovens árabes dos atuais conflitos, enquanto o Iraque é ocupado pelos imperialistas americanos e a Palestina é um banho de sangue”. Os jovens divergem: “Os jovens árabes têm os mesmos sonhos e desejos dos demais”. “Dançar e cantar, até sem véu no rosto, não é mais negativo”. “Pela primeira vez, o jovem árabe pode votar livremente, e não nos habituais dinossauros do governo”. Avvenire Denuncie
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