Revista "MUNDO e MISSÃO"
Crianças
Crianças da noite
por John Baptist Odama, arcebispo de Gulu, Uganda GENOCÍDIO NO NORTE DE UGANDA
Em Uganda se vive da ajuda do Programa Alimentar Mundial. Se ela não chega, morre-se de fome. E se não se morre de fome, há a AIDS. O HIV difunde-se rapidamente pelos campos. Enquanto o percentual de soropositivos no restante do país está em queda, no norte ele se multiplica. Não dispomos de recursos para as drogas antivirais. O Subsecretário Geral para Assuntos Humanitários e Coordenador da Ajuda Emergencial, da ONU, Jan Egeland, visitando a Uganda, disse: “Olhar os olhos de uma criança que foi repentinamente brutalizada, torturada ou estuprada, como eu vi no norte de Uganda, significa não esquecer jamais o que se vê aí dentro. A violência sobre crianças é uma das mais graves do mundo e exige uma ação urgente e organizada”. Ele definiu a situação de Gulu e de Kitgum, os dois distritos do grupo étnico achole, como “a área das mais desconhecidas e esquecidas crises humanitárias do mundo, seguramente pior que a do Iraque”. Impressiona a fileira de crianças que, toda tarde, procuram refúgio seguro onde possam dormir, e se amontoam nas estações de ônibus, nos quintais das missões e dos hospitais. Ao redor, as filas chegam a ter seis mil crianças. Elas têm medo que, ficando na própria casa, possam ser raptadas pela Lord Resistance Army (LRA), um grupo liderado pelo sanguinário Joseph Kony. Desde 1994, ele enfrenta o exército ugandense, usando crianças, raptadas de suas vilas, como tropas. Pelo menos 25.000 meninos já foram raptados desde o início da guerra. Egeland comprometeu-se a se empenhar para que todos os recursos diplomáticos, políticos e econômicos sejam utilizados para dar um fim a esta crise. FANTOCHES A LRA recebe armas do governo sudanês. O exército recebe ajuda principal dos Estados Unidos que, ao mesmo tempo, financiam também a guerrilha no sul do Sudão, particularmente a formação principal da Sudan’s People Liberation Army. Ninguém admite isso oficialmente, mas todos sabem que é assim mesmo. Deste modo, o conflito entre o exército ugandense e a LRA é parte de um conflito maior. Se, de fato, fosse restrito a apenas esses dois rivais, em pouco tempo o exército poderia vencer Kony. Ao invés disso, os combates acontecem com o aniquilamento da população civil. É evidente a falta de vontade política para acabar com o conflito, porque o presidente ugandense Museveni acaba de enviar as próprias tropas para lutar na República Democrática do Congo (ex Zaire) e no Sudão. Significa que se deseja a manutenção da guerra. Observamos também o seguinte: quando os rebeldes atacam, os soldados nunca estão aí, apesar de existirem postos militares e casernas no norte do país. Eles sempre aparecem depois, às vezes só alguns dias depois; e, sempre, completam o “trabalho” dos rebeldes: saqueiam e destroem o pouco que resta. CONSEQÜÊNCIAS DA CRISE HUMANITÁRIA Imagine a vida no matagal e nas lavouras. Para alguns, simplesmente não existe o conceito de lar. Vida digna, estruturada em volta da família, é idéia desconhecida para algumas gerações. Se um menino, dos que dormem na mata, é levado à cidade, a Gulu, para uma casa com luz elétrica, fica inquieto e se revolta, querendo voltar para a sua “casa”, para a mata, onde estão os outros. É isto a vida transcorrida na guerra, na precariedade. Crianças e mulheres são as principais vítimas da guerra. As crianças são o nosso futuro: se elas são mortas física ou moralmente, é a sociedade toda que morre.
Sobre uma população de 1,4 milhão de acholes, 900.000 são fugitivos e vivem segregados em uns sessenta campos. Juntos à etnia lango, os retirantes somam de 1,5 a 1,6 milhão. A vida no cativeiro está matando-os. A AÇÃO DA IGREJA CATÓLICA Como católicos, temos um elenco de coisas importantes a fazer. Publicamos duas cartas pastorais contundentes. A primeira intitula-se: “Vi a miséria do meu povo e ouvi seus lamentos” (Is 3, 7). Nela, descrevi o sofrimento suportado principalmente pelas crianças e por suas mães. Mas também afirmei que essa situação é causada pelo governo, em âmbito nacional e internacional. A comunidade internacional, em época de aldeia global, não pode ignorar o que acontece ao lado da sua porta. Depois, escrevi uma segunda carta pastoral sobre o tema da reconciliação e da penitência. Disse ao povo que esta guerra já destruiu nossa sociedade, tantas foram as vidas desprezadas, e que precisamos, portanto, tomar consciência, penitenciarmo-nos, convertermo-nos e procurar extirpar estes crimes. O primeiro passo é a reconciliação entre criminosos e vítimas. Naturalmente, dei muitas outras declarações em que falei abertamente, por exemplo, contra as milícias étnicas, incentivadas pelo governo. O governo excita os ânimos, a partir da pertença étnica, jogando um grupo contra outro, sobretudo os tessos e os langos contra os acholes, identificados com a Lord Resistance Army, de Kony. Assim, os acholes são duplamente vítimas, antes de tudo de Kony, ele mesmo um achole, e dos grupos étnicos limítrofes. Eu ouvi, de viva voz, um líder tesso dizer aos seus: “Vocês devem matar todo jovem achole acima de 18 anos, porque ele certamente faz parte da LRA”. Além do mais, sou expressamente contra a militarização da população civil, como se a solução da crise pudesse vir da população civil armada, colocada ao lado do exército. O exército está treinado para combater; os civis, não. Os civis serão os primeiros a morrer. Assim, sua vida é novamente colocada em perigo, ao invés de estar protegida. Às declarações que dei, o próprio presidente Museveni reagiu, protestando: “Qual é o bispo que afasta o povo do caminho?” Além disso, como membros da Igreja, estamos envolvidos no campo assistencial. Antes de tudo, estamos ao lado das crianças da noite. Quando aparecem nas missões ou nos nossos hospitais, aproveitamos para lhes dar um mínimo de instrução, para alimentá-los e curá-los. Nesses centros também trabalham membros de Ongs, especialistas em aconselhamento de crianças. Lá existem unidades preparadas para a recuperação de meninos-soldados.
A RECUPERAÇÃO DOS MENINOS Sua tenra idade permite-lhes a recuperação. Existem programas que, além de ensinar a escrever e a ler, instruem sobre atividades práticas, como costurar, cuidar da casa, cozinhar. A Cáritas nos ajuda nessa tarefa, fornecendo roupas e instrumentos úteis para o início de nova vida. Na recuperação de meninos-soldados, trabalham também a AVSI, Save the Children, a Cruz Vermelha internacional e uma Ong local, chamada Gulu support the children organization, especializada em crianças raptadas pelo LRA, ou que nasceram de meninas raptadas. Antigamente, havia também o socorro da UNICEF, que se retirou alegando motivos de segurança. A INICIATIVA DE PAZ DOS LÍDERES RELIGIOSOS ACHOLI O grupo surgiu em 1997 e, inicialmente, as relações não foram fáceis; hoje, podemos dizer, todavia, que fizemos um bom caminho juntos. Nós, católicos, anglicanos, ortodoxos e muçulmanos, encontramo-nos regularmente para falar sobre a situação. Em 2003, fizemos um gesto simbólico que causou certa repercussão na imprensa: juntos a outros líderes religiosos, dormimos quatro noites na rodoviária de Gulu, depois de andar cinco quilômetros com nosso cobertor e com nossos companheiros, os meninos da noite, alguns deles com cinco anos apenas. Dormir no frio, no chão, às vezes na chuva, famintos, é uma situação comum para 20.000 crianças no norte de Uganda e nós tínhamos vontade de compartilhar com eles, escutar seus medos, suas dúvidas, suas perguntas. Na condição de líderes religiosos, estamos empenhados, em vários níveis, a tentar todo caminho de pacífica mediação para o conflito. Tentamos também alguns contatos com a comunidade anglicana e católica do sul do Sudão; obtivemos algumas respostas, mas não é uma iniciativa regular. Além disso, fizemos uma declaração conjunta à comunidade internacional. Nela, pedimos o fim do conflito, através de negociação presidida por um mediador externo; solicitamos um efetivo empenho da ONU e do Conselho de Segurança; pedimos aos governos influentes sobre a Uganda, para que façam pressão nesse sentido; insistimos que não se vendam armas à LRA; exigimos proteção urgente e prioritária às crianças, antes de qualquer outra iniciativa política; que uma missão de observadores possa vigiar sobre o respeito aos direitos humanos; e, enfim, pedimos que a ajuda para Uganda seja mais generosa. (De uma entrevista concedida a Maria Elisabetta Gandolfi para Il Regno, junho de 2004) |
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