Revista "MUNDO e MISSÃO"

Crianças

 

esenhar o futuro da vida: em ambientes saudáveis para as crianças". Este foi o tema do Dia Mundial da Saúde de 2003, dedicado à saúde das crianças e seus ambientes. O mundo da criança encontra-se em torno da casa, da escola e da comunidade local. Estes devem ser lugares em que as crianças podem crescer saudáveis e serem protegidas de doenças e da violência. Infelizmente, esses ambientes, com freqüência, são insalubres, tornando-se a causa de milhares de mortes prematuras.

Na mensagem alusiva a esse importante evento, a diretora geral da Organização Mundial da Saúde (OMS), a dra. Gro Harlen Brundtland, assim introduziu a temática-desafio: "As maiores ameaças à saúde das crianças estão nos lugares que deveriam ser os mais seguros - casa, escola e comunidade. Cada ano, mais de 5 milhões de crianças de 0-14 anos morrem - principalmente nos países em desenvolvimento - de doenças que se relacionam com os lugares em que elas vivem, aprendem e brincam [..] Estas mortes podem ser evitadas, pois sabemos o que fazer. Já foram elaboradas estratégias para combater essas ameaças, que precisam ser implementadas em escala global e nacional". Os riscos para as crianças em seus ambientes de vida são numerosos. Seis são os que devem ser enfrentados prioritariamente.

1. Água poluída

A mais importante das doenças ligadas à poluição da água é a diarréia, segunda causa de morte infantil no mundo: 1,3 milhão de crianças anualmente, em torno de 12% do total de mortes de crianças menores de 5 anos nos países em desenvolvimento. Entre outras doenças infecciosas com modos de transmissão semelhantes, incluem-se a hepatite A e E, a disenteria, a cólera e a febre tifóide. A falta de segurança no abastecimento de água para a casa também se associa a infecções cutâneas e oculares, incluindo o tracoma, que causa cegueira irreversível, e a esquistossomose, adquirida ao se coletar água em lugares infectados.

2. Falta de higiene e saneamento

A ausência de saneamento básico pode transmitir várias doenças graves pela contaminação fecal do ambiente familiar e do entorno da comunidade. Entre as doenças graves, temos a diarréia, a esquistossomose, a hepatite A e E, a disenteria, a cólera e a febre tifóide. A falta de saneamento também se relaciona com a helmintíase e o tracoma. Hoje, em torno de 6 milhões de pessoas sofrem deficiências visuais causadas por essa enfermidade. Globalmente, 2,4 milhões de pessoas, a maioria vivendo em regiões de periferia das grandes cidades ou em áreas rurais de países em desenvolvimento, não têm acesso a saneamento. Na Ásia e África, respectivamente 31% e 48% da população rural não têm acesso a saneamento.

3. Poluição do ar

É um fator de risco para as doenças respiratórias agudas, bem como doenças respiratórias crônicas, além de outras enfermidades. Cerca de 2 milhões de crianças menores de 5 anos morrem anualmente de infecções respiratórias agudas. A poluição do ar em ambientes interiores é um dos principais fatores associados às infecções respiratórias agudas, tanto em zonas urbanas como nas rurais dos países em desenvolvimento.

Nos países industrializados, os espaços interiores de muitos ambientes familiares e de trabalho se caracterizam pela escassa ventilação, umidade elevada, com presença de agentes biológicos maléficos à saúde humana. A contaminação do ar exterior, principalmente pelo trânsito e indústrias, continua a ser um problema grave em todas as cidades do mundo, sobretudo nas megalópoles em contínua expansão. Estima-se que um quarto da população mundial está exposto a agentes poluidores do ar.

4. Doenças causadas por vetores biológicos

Em principio, todas as doenças transmitidas por vetores biológicos constituem uma grave ameaça à saúde infantil. Temos, entre outras doenças, a malária que, transmitida por determinados mosquitos, pode causar a morte. A grande maioria dos casos de malária - 90% registrados na África subsaariana - causam mais de 1 milhão de mortes por ano, em sua maioria de crianças com menos de 5 anos.

Duzentos milhões de pessoas estão infectadas em todo o mundo pela esquistossomose. A encefalite japonesa é encontrada nos sistemas de produção de arroz por irrigação, principalmente na Ásia. A dengue, muito presente em terras brasileiras, na sua forma letal, a hemorrágica, mata, em média, mais de dez mil crianças por ano no mundo.

5. Perigos de origem química

Cerca de 50 mil crianças de 0-14 anos morrem a cada ano, vítimas de intoxicação por produtos químicos. Os praguicidas, guardados sob condições pouco seguras, podem ser prejudiciais para as crianças. Produtos de limpeza doméstica, querosene, dissolventes, fármacos e outros produtos químicos podem ser extremamente perigosos, quando deixados em recipientes inadequados ou em lugares de fácil acesso para as crianças.

6. Acidentes

Entre os mais comuns, temos os acidentes de trânsito, as intoxicações, as quedas, as queimaduras e os afogamentos. Calcula-se que, em 2002, 685 mil crianças menores de 15 anos perderam a vida por causa de acidentes. Cerca de 20% de todas as mortes por traumatismo não intencional, no mundo, ocorrem em crianças menores de 15 anos e são provocadas sobretudo por acidentes de trânsito (21%) e afogamentos (19%). A grande maioria desses acidentes ocorre em países com baixa renda per capita: África, Ásia Oriental, e o Pacífico ocidental, que somam 80% dos casos.

7. Violência urbana

Cerca de 34% das mortes, no ano passado, no Brasil, de crianças e adolescentes entre 12 a 17 anos foram causadas pela violência urbana: ligação com o narcotráfico ou simplesmente mortas pela polícia.

Aliança

É preciso afirmar que existem soluções para o problema de saúde pública. Dispomos de toda uma gama de intervenções na área da política, educação, conscientização, desenvolvimento tecnológico e mudanças de comportamento. Não são necessários grandes investimentos para implementar essas medidas que são responsabilidade dos governos, dos responsáveis por políticas públicas de saúde, dos educadores e da população no seu conjunto.

Muitas experiências mostram que é possível deter as doenças ligadas ao ambiente, também nos países mais pobres. No mundo todo, governos e comunidades mobilizaram suas forças para executar estratégias hoje aplicadas em diversos contextos. Numerosos países, instituições do sistema das Nações Unidas e ONGs expressaram o desejo de instaurar uma aliança muito ampla, que se aproveitaria das capacidades particulares e complementares de múltiplos atores.

Essa aliança visa a um movimento que faz intervir diversos setores do Estado (em nível local e nacional), das associações da sociedade civil e das ONGs, o setor privado e as Nações Unidas, assim como fundações, institutos de pesquisa e grupos universitários e, enfim, as crianças e suas famílias. Trabalhando em conjunto, os membros da aliança estarão mais preparados a responder às necessidades das comunidades e países e de ajudá-los a elaborar e pôr em obra programas e políticas realmente eficazes. Além disso, através dessa ação comum, poderão realizar tarefas e atingir objetivos cuja realização seria impossível ou, pelo menos, muito mais demorada.

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