Revista "MUNDO e MISSÃO"

Cultura e Culturas

Filipinas: novos horizontes

Patrizia Bergamaschi

"Mundo e Missão" conversou com uma missionária brasileira que, há três anos, trabalha nas Filipinas, na pequena ilha de Luzon. Sua experiência revela um entusiasmo contagiante pelo outro, um respeito sincero pelas diferenças, mesmo quando elas parecem ser incoerentes

Madalena Grabowski, da Congregação das Irmãs da Imaculada Conceição de Castres, depois de uma longa experiência como professora de inglês, decidiu "praticar" a língua que ensinava junto aos pobres, nas Filipinas. Uma verdadeira imersão cultural, só que guiada por um interesse que ul-trapassa as fronteiras lingüísticas: partilhar a vida por causa do Evangelho. Da conversa franca e aberta sobre suas atividades numa das ilhas filipinas, um aspecto sobressaiu: a vida feminina. A razão é justa: novos horizontes estão se abrindo para a mulher filipina e seu papel social começa a ser visto com outros olhos. O destino e o significado de sua vida não podem ser apenas o tra-balho lucrativo e sem questionamentos.
Na sociedade filipina, a mulher, por paradoxal que possa parecer, é quem tem as iniciativas econômicas da casa e a última palavra nos negócios, além de ficar com o dinheiro da família. Todavia, o homem é o chefe da família, assim como o padre é quem "manda" na paróquia, mesmo se as mulheres são a grande força da Igreja. Aliás, a questão do trabalho feminino é uma realidade complexa nessa sociedade que não se incomoda de ver a mulher sair do país para procurar emprego, mesmo que isso signifique exploração e prostituição. Não são poucos os casos de moças
que vão para o Japão para serem entertainers (acompanhantes) e cantoras e acabam se prostituindo, mas ganhando muito dinheiro e sustentando, literalmente, toda a família, incluindo tios, sobrinhos e avós. O que se percebe é que as famílias que mais compram são, justamente, aquelas que são sustentadas por essas moças...
Para se entender um pouco da situação econômica filipina, basta saber, por exemplo, que um dólar americano equivale a 40 pesos filipinos, soma suficiente para comprar um quilo de peixe ou tomar um lanche. Para fazer em tricycle (taxi bicicleta) o percurso no centro da cidade, o passageiro gasta 3 pesos. Teoricamente, o salário mínimo seria de 5 mil pesos, mas uma pessoa que trabalha doze horas, numa loja do Mac Donald's, ganha 2500 pesos; da mesma forma, uma catequista que trabalha, em período integral, numa escola, recebe 600 pesos por mês. A isso, acrescente-se que, nas províncias, as ruas não dispõem de iluminação elétrica e para sair à noite, é preciso levar a própria lanterna.
A moeda desvalorizada leva, principalmente as mulheres, a buscarem empregos no exterior: as que não têm profissão vão ser empregadas domésticas na Europa; as que possuem alguma habilitação pedem emprego no Canadá e nos Estados Unidos, países que dificultam muito a obtenção dos vistos de entrada e permanência. Outro mercado de trabalho é a Arábia Saudita, mas lá as empregadas domésticas são também objetos sexuais dos homens da casa. Há exceções, mas as dificuldades são enormes. Madalena contou o caso de uma farmacêutica, que conheceu pessoalmente, e que trabalhou na Arábia Saudita durante três anos sem que ninguém soubesse quem era. Na farmácia e na rua, usava sempre o chador, nunca se mostrou, nunca ficou um minuto a mais no emprego, não fez amigos, não demonstrou que era católica. Se descobrissem quem era, seu destino seria a morte.

Contradições e escrúpulos

As Filipinas, maior país católico da Ásia, conhecem também outras contradições, além da exploração do trabalho feminino. Devido à falta de privacidade nas pequenas casas de construção frágil, em que todos dormem juntos, muitas meninas são vítimas de abuso sexual dentro da própria família. Em Daet, onde trabalha Madalena, 90% da população carcerária masculina foi condenada por esse motivo; interessante é que há apenas três mulheres, sendo que duas mataram os próprios maridos.
Um aspecto bastante contraditório é o fato de que o país é um dos poucos que ainda tem a pena de morte, aplicada através de injeção letal. O presidente, que é muçulmano, tem oito mulheres, cada uma em residência própria, e quer a legalização do divórcio e do aborto.
Por causa de seu relacionamento muito aberto e sincero com as mulheres, Madalena conta que elas são muito escrupulosas, deixando de comungar por qualquer motivo, mas também muito supersticiosas, e lembra um fato que ocorreu com uma vizinha. Durante vários dias, ouviam uma criança chorar desesperadamente e foram perguntar qual era o motivo. A mãe explicou que o marido havia cortado uma árvore e que o mal que estava nela entrou na criança. As missionárias foram convidadas a benzer a criança para afastar o mal, mas, por via das dúvidas, aconselharam de levá-la também ao médico. Este diagnosticou fome e seqüelas de meningite...
A White Lady (Dama Branca) é a explicação popular para boa parte das epidemias infantis, como caxumba, catapora, etc. Trata-se de uma espécie de bruxa que passa pelas casas das pessoas, jogando-lhes pragas que se concretizam em doenças. Para evitar os malefícios da dita bruxa, as mulheres fazem novenas católicas, em grupos, seguidas da reza do terço e sempre de uma merienda (lanche). Aliás, na mentalidade religiosa filipina, tufões, tempestades e outros fenômenos naturais que causam sérios danos materiais são considerados castigos de Deus, tendo em vista que eles se julgam pecadores, que não rezam e não ajudam os pobres...

A participação na Igreja e da Igreja

A Igreja filipina conta muito com a atuação feminina, considerada fundamental: são as mulheres as responsáveis pelas capelas, as melhores catequistas, aquelas que, com sua sensibilidade, capacidade de serem sociais e acolhedoras, sabem convidar as pessoas para participar.
Quanto às vocações religiosas femininas, percebeu-se, nos últimos anos, uma sensível diminuição, de certo modo positiva, fruto de uma reflexão mais consciente da nova geração. Mas, ainda há moças que procuram as congregações que adotam o hábito, porque este lhes dá um status específico, com reconhecimento público e segurança. Além disso, há quem se questione se o ingresso na vida religiosa não significaria também a busca de ascensão e de poder por parte de moças provenientes das camadas mais pobres.
Em termos gerais, conclui Madalena, há uma perspectiva de que a mulher ganhe novos espaços, visto que sua luta tem sido constante e corajosa e já existem muitas atuando em organizações, inclusive políticas. A Igreja tem dado grandes passos e é responsável por essa nova revalorização da mulher, principalmente na questão de sua profissionalização. O que se nota com extrema clareza é que, nos lugares em que os padres (que em geral estimam muito as mulheres) são mais abertos, elas são mais livres e ousadas ao exigir e batalhar por sua dignidade. Ficou famoso o caso do padre Peter Jeremias - Pime - que, junto com um grupo de mulheres, esteve preso, durante um mês na ilha de Mindanao: eles reivindicavam direitos femininos.

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