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Missão entre os inuit
Wielaw T. Trotki
Quem disse que o tempo dos missionários acabou? Uma carta de um
missionário dos Oblatos de Maria Imaculada, padre Wielaw T. Trotki,
33 anos, que vive além do Círculo polar ártico, demonstra
o contrário
"Há mais de cinco anos sou missionário no gelo e,
há três, estou em Gjöa Haven, mais ou menos no centro
do Canadá ártico. Passei os dois primeiros anos de aprendizado
em Igloolik com outro padre, agora estou só". Gjöa Haven
é um centro de produção e comércio de pele
para os inuit, que se encontra na ilha King William, muito além
do Círculo polar ártico. Durante os meses de inverno, a
ilha está unida à terra pelo gelo. "Fazem parte de
meu território outras duas missões: Spence Bay, a 150 km
a nordeste, e Pelly Bay, a 250 km a leste. Uma ou duas vezes ao ano vou
encontrar meu coirmão mais próximo, pe. Luis Fournier, 75
anos. Para a viagem, que dura dois ou três dias, uso o trenó
motorizado.
Para me preparar para esta missão, li muito, mas a idéia
que tive correspondia apenas a 40% da realidade. Nunca pensei que as condições
de vida fossem tão duras e que a língua inuit fosse tão
complicada. Pensei que em pouco tempo estaria familiarizado com a mentalidade
deles... A única coisa segura é que, hoje, eu os amo mais
do que antes.
Os inuit são abertos aos estrangeiros, quando percebem que não
têm nada a ver com turistas ou pesquisadores, quando percebem que
alguém quer partilhar a vida com eles: então eles se "descongelam".
Comecei a aprender a língua com um missionário mais velho,
que me ajudou também a entender a mentalidade do povo. Ele me disse
claramente: "Para aprender a língua e as tradições
dos inuit, você precisa ficar no meio deles, sem reservas ou medos".
Resolvi começar imediatamente, passando dois meses e meio com um
grupo de caçadores de focas. Vivíamos juntos numa tenda,
me levantava cedo com eles; como eles, às vezes, me lavava, outras
não; comia o que eles comiam. Não foi fácil: nas
primeiras semanas, passei fome porque não tinha pão e os
inuit comem carne de foca crua, o que para mim era terrível. Quando
paravam um pouco, eu cozinhava alguma coisa. A bebida era chá.
Aos domingos, celebrava a missa".
Padre Krotki fala da língua usada (o inuit e o inglês, quando
necessário), da noite polar e do frio (entre 40º e 50º
negativos, isso quando o vento não faz cair ainda mais a temperatura)
e da falta de horário: "Você é mesmo um homem
branco - diziam-lhe os nativos - porque vive perguntando as horas".
"Faz 50 anos que o cristianismo chegou aqui, o que não é
muito tempo, e é difícil dizer a profundidade da penetração
da fé. Sem dúvida, há muita gente que vive profundamente
a fé e que a transmite e me refiro, particularmente aos catequistas
que mantêm viva a comunidade. Entretanto, há muitos indícios
de superstição e dificuldades de cumprir o mandamento do
amor, o que, aliás, não é particularidade dos inuit.
Pessoalmente, sinto que eles me aceitam como sacerdote, mas também
que estão agradecidos por minha presença, porque quero ficar
com eles. Quando vou visitar as famílias, as crianças me
chamam "o padre Branco", mas os pais logo corrigem, dizendo:
"Não é um branco, é um dos nossos".
Ameríndios em peregrinação
Uma tradicional festa religiosa entre os ameríndios canadenses
é a de Santa Ana, em Edmonton, capital da província de Alberta.
O ponto de encontro é o magnífico lago que leva o nome da
mãe de Maria, de quem os ameríndios pouco sabem, mas de
quem se sentem próximos, ainda que tais questões teóricas
pouco lhes interessem.
Para esse encontro em pleno verão, chegam peregrinos de todos os
cantos do país e de todos os grupos étnicos, após
dias de viagem. Desde 1889, a festa faz parte integrante da cultura dos
índios, que nela vêem a ligação entre sua antiga
religiosidade e a nova fé, um ponto de referência para todo
o ano, mas também para a própria vida espiritual.
No dia da festa, há missas pela manhã e um incontável
número de pessoas que se confessam e, pela tarde, todos os peregrinos
se dirigem em procissão ao lago Santa Ana, à beira do qual
se reúnem para ouvir as leituras da Bíblia. Em seguida,
explica-se o significado bíblico da água, no batismo e nos
sacramentos, e a água do lago é abençoada com orações
e com a imersão da cruz. A procissão recomeça em
volta do lago. Muitas pessoas entram na água se aspergindo, fazendo
o sinal da cruz e abençoando umas às outras. Tudo é
feito com muito respeito e solenidade. Depois de algum tempo, os primeiros
saem as água e entram os que aguardavam fora. A alegria e o recolhimento
imperam; todos se sentem felizes e satisfeitos.
Nota-se que, na peregrinação, há uma continuidade
com as tradições da vida nômade que os índios
levavam até pouco tempo atrás. Assim, o deslocar-se de longe,
a vida na tenda, o contato com outras pessoas e com a natureza fazem parte
de sua cultura. Do mesmo modo, sua religiosidade sempre encontrou inspiração
na natureza, nos lagos e no céu estrelado, no silêncio ao
contemplar as imensas paisagens. Interessante é ver que os índios
que não gostam da rigidez dos horários, por ocasião
da festa, passam horas e horas dentro da igreja.
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