Revista "MUNDO e MISSÃO"

Cultura e Culturas

Piauí quando a evangelização é luta pela vida

Maria Angélica Teixeira e José Roberto de Oliveira

Além dos limites da escola

A Congregação das Irmãs da Imaculada Conceição de Castres, mais conhecida no Brasil como a "Congregação das Irmãs Azuis", vem se destacando por sua atuação na área da educação. Somente na grande São Paulo, existem três colégios acolhendo uma comunidade bastante significativa.
Embora o envolvimento pedagógico não seja o sentido fundamental do carisma concebido pela fundadora - Emilie de Villeneuve - nem a única atividade a que se voltam todas as irmãs, ele passou a ser, no entanto, a porta de entrada para atingir não apenas a população carente que recebeu um lugar especial na vida dessa mulher, causa de suas profundas renúncias, mas também a parcela da sociedade que, apesar de não sofrer carências mate-riais, precisa, ainda assim, de um olhar irmão e de um sentido para as suas vidas. Dessa forma, foi tentando cada vez mais atualizar esse perfil, que as "irmãs azuis" buscaram fomentar, em meio à comunidade educativa, uma cultura de solidariedade e cidadania.
Tudo começou com projetos sociais ligando as comunidades carentes próximas ao colégio Emilie de Villeneuve, aos pais e aos alunos. Foi assim, por exemplo, que surgiram uma creche e um centro social situado dentro da favela da Coréia, zona Sul de São Paulo, atendendo meninos e meninas da comunidade com o objetivo, atravésés de atividades educativas, de torná-los cidadãos conscientes e responsáveis.

Por que o Piauí?

Mas a congregação fez-se presente em uma região que tinha uma realidade muito mais crítica que qualquer realidade de São Paulo. As irmãs foram fundar uma comunidade na paróquia de Oeiras, no Piauí. Nesse ambiente, onde já se encontram há cinco anos, a questão predominante não diz respeito à violência urbana, ao desenvolvimento industrial ou mesmo ao problema de meninos de rua; trata-se, antes, de um problema estrutural, ligado à cultura, às necessidades básicas, ao ambiente semi-árido. E aí, novamente, elas viveram a experiência da fundadora, quando afirmava: "tenho tudo, mas meu coração está inquieto."
Essa inquietação foi o ponto fundamental para mobilizar a comunidade educativa de um dos colégios em São Paulo. As irmãs, em Oeiras, percebiam algumas necessidades e, a partir daí, o colégio passou a agir, através de eventos que pudessem resolvê-las. Então, em 96, aconteceu o envio de bíblias para o projeto de catequese; em 97, foram enviadas sementes para o plantio; em 98, os fundos arrecadados serviram para fazer jorrar água em uma das comunidades; e, em 99, deu-se o início ao trabalho de formação e conscientização da população, através do envio de dois professores. Era o momento de desenvolver um perfil muito mais definido para esse projeto.

O envio

De acordo com a solicitação das irmãs, era preciso a presença de pessoas que realizassem um trabalho na área de saúde e educação popular. O objetivo era também que o próprio grupo da escola testemunhasse de perto o sofrimento daquele povo e se mobilizasse de forma muito mais significativa. A solicitação era clara: "vamos nos unir para minimizar o sofrimento desse povo".
Dois professores, uma biomédica e um filósofo, partiram nas férias de julho para viver essa experiência. Em suas bagagens, encontravam-se alguns projetos a serem desenvolvidos na comunidade local. O que eles não esperavam, no entanto, era uma realidade muito mais cruel do que a que tinham imaginado. Evidentemente, os dados oficiais já tinham informado qual é a situação da maior parcela da população do Estado do Piauí; eles haviam sido informados também, que esse Estado está na primeira posição no ranking dos analfabetos funcionais, que possui um dos maiores índices de mortalidade infantil e que a sua concentração de renda é uma das mais cruéis, mesmo para os padrões brasileiros. Mas os números e a distância mascaram as figuras que sofrem a dura realidade ausente nos dados.

Batendo de frente com a realidade

Para se ter uma idéia, a paróquia de Oeiras é composta por cinco municípios que, juntos, formam duzentos e vinte comunidades (é considerada uma comunidade um grupo de famílias onde a pastoral da criança ou a educação popular são atuantes e a palavra de Deus é celebrada aos domingos); dessas comunidades, os professores visitaram apenas duas. Mas o que viram foi o suficiente para sentirem uma mescla de angústia, tristeza e alegria, ao mesmo tempo: a dureza do chão e a hostilidade do clima confundem-se com a miséria e descaso político; a submissão anda junto com o conformismo; mas os traços de esperança deixam-se transparecer na pureza do povo e na atuação de alguns dos seus líderes religiosos.
As duas comunidades visitas pelos professores em companhia das irmãs não possuem mais de 150 famílias. O trabalho consistiu basicamente na visitação às casas, no período da manhã, e palestras e oficinas, no período da tarde. Em nenhuma dessas casas havia banheiro; um feixe de lenha servia como fogão, as panelas eram, em sua maioria, latas de óleo velhas. E os únicos alimentos eram arroz, milho, feijão e mandioca. Foi o pouco que restou da última colheita. Embora o lençol freático do Estado do Piauí seja extenso e com água de boa qualidade, nessas comunidades não há poços adequadamente montados para atender às necessidades mínimas de uma família. A saída que eles encontram, então, é armazenar em barragens e barreiros, as águas de março.
Impossível falar de higiene e prevenção de saúde em um ambiente onde a água usada para beber é compartilhada por toda a criação que, além de bebedouro, também a transforma em reservatório para os seus dejetos. Impossível tampouco não sofrer diante de situações que poderiam ser consideradas "tolas" para quem mora em uma grande metrópole e que quando necessita de água simplesmente abre uma torneira.

O início de um longo trabalho

Diante de tal realidade, o sentimento de impotência tomou conta dos professores. É preciso muito mais: dar a esse povo um mínimo de autonomia - a saída é a educação -, sem esquecer as necessidade de ordem material e imediatas das comunidades, através da conscientização de líderes comunitários, que multipliquem o trabalho. Isso deverá ser desenvolvido antes do retorno em julho do próximo ano.

Para conhecer melhor e participar do projeto, procure:

Projeto Piauí
E-mail: emilie@uol.com.br

Os dados da vergonha

· Os eleitores do Piauí são os mais analfabetos (54,3%) e os mais pobres do País.
· O Piauí é o Estado com a menor renda per capita nacional: 117,24 reais em 1996.
· Apenas 2,4% da população conseguem concluir seus estudos até o Ensino Médio.
· O Piauí ocupa o 110 lugar na escala nacional da mortalidade infantil (em 1994: 49 sobre 1000).
· 42,53% da renda dos piauenses está nas mãos dos 10% mais ricos do Estado, enquanto os 40% mais pobres dividem somente 9,13% da renda.
· Somente 35% da população têm energia elétrica, concentrada na capital.
· Em 1998, 221 municípios dos 222 decretaram estado de emergência em função da seca.

O que acontece no SERTÃO

A saca de arroz em casca de 60 Kg é vendida, pelo pequeno produtor, por 20,00 reais (0,33 centavos o quilo). O preço do beneficiamento por saca é de 1,75 reais e nele, além de pagar, o pequeno produtor perde direito ao arroz quebrado, à casca vendida para fabricar cerveja e ao cuim (pó) altamente protéico e de um certo valor comercial.
Somando a despesa de tudo isso e sem considerar o frete, a passagem de ônibus para quem mora longe das máquinas que beneficiam, o lucro para cada saca de 60 kg é de mais ou menos 9,25 reais.
Se o produtor, ficando sem arroz, quiser recomprar o arroz para consumo, paga mais que em São Paulo, em média, 1,50 real por quilo.

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