Revista "MUNDO e MISSÃO"

Cultura - Culturas

 

O significado desta festa religiosa é tão rico de mensagens que encantou todas as culturas

por Hélio Pedroso

áscoa vem do hebraico pessach e para os cristãos lembra a ressurreição de Cristo, a passagem da morte para a vida. Para os judeus, também significava a vida salva pelo anjo exterminador que passava além de suas casas, marcadas com o sangue do cordeiro, enquanto, misteriosamente, matava todos os primogênitos, homens e animais, dos egípcios.

A pessach judaica lembra também a passagem do Mar Vermelho que salvou definitivamente o povo da perseguição do faraó, portanto, uma festa que faz memória de vida e de vitória. Para os cristãos, a festa da Páscoa encerra vários significados fundamentais para a vida religiosa. Cristo ressurgiu para a vida eterna, venceu a morte, mas antes precisou passar por acontecimentos como a entrada triunfal em Jerusalém, a última ceia em que instituiu a Eucaristia, a oração no Horto das Oliveiras, a captura, a flagelação, a condenação e a morte na cruz.

Enquanto, no sentido religioso e litúrgico da Igreja oficial, todas essas passagens têm um significado preciso dentro da história da salvação, a dramaticidade dos acontecimentos da "Semana Santa" impressionou profundamente o povo que, de muitas maneiras, incorporou-a ligando-a à própria cultura, tentando reconstruir todos aqueles fatos e, até onde era possível, imitar e participar dos sofrimentos de Cristo em expiação dos próprios pecados.

Isso, talvez, porque todo o drama de Cristo encerre símbolos que se transformam em profundos desejos da humanidade, como a sublimação da dor como expiação, a alegria da vitória sobre a morte, o relacionamento familiar que vai além da separação da morte. Assim, penitência, luz, fogo, vida, água, fraternidade são expressos em tradições seculares próprias de cada cultura.

PROCISSÕES, FLAGELAÇÕES,
AUTOCRUCIFICAÇÃO E TEATRO

A dramaticidade da Semana Santa, já pintada com cores fortes pelos pregadores até um passado recente, sempre comoveu o povo. Este tinha, em geral, uma vida dura, em que vida e morte se alternavam com naturalidade, mesmo que a pobreza extremada fosse a causa de muitos males. Epidemias dizimavam e assustavam as populações sem explicações, e eram associadas a sentimentos de culpa e de pecado. Também por isso, a Semana Santa se tornou um momento de expiação, purificação e catarse popular, como se as pessoas participassem, realmente, dos mesmos sofrimentos do Cristo.


Nas Filipinas, na ilha de Luzon, um homem se faz flagelar em sinal de penitência

Em muitas culturas, desde o Brasil até as Filipinas, ainda subsistem rituais populares de penitência, como procissões em que se carregam enormes imagens de Cristo com a cruz, coberto das chagas da flagelação, e de Maria, na sua dor de mãe diante do sofrimento do Filho. Com grande esforço, geralmente descalças, as pessoas percorrem trajetos íngremes, durante longas horas, de noite ou de madrugada; às vezes, escondidas sob capuzes ou se flagelando, para pagar os pecados individuais, participando das dores do Redentor.

No Nordeste brasileiro, ainda existe a confraria de autoflageladores, como existem em muitos outros países. Nas Filipinas, os fiéis chegam ao extremo de ficar pregados na cruz, durante algum tempo, diante dos olhares comovidos ou de espanto dos participantes e dos turistas. Em todas as culturas, o povo participa com pesar dessas procissões, sendo para muitos a única cerimônia religiosa de que participam durante todo um ano. Um participante de uma dessas procissões, carregando uma enorme estátua, diz que "participando desses ritos, o fiel é induzido ao respeito e à reflexão e, durante a procissão, cada um é quase obrigado a fazer um exame de consciência e rever os aspectos negativos de sua vida.

É como uma confissão diretamente para Deus". Um filipino, praticante da autoflagelação, diz que "é uma maneira de se humilhar diante de Deus, que sofreu para nós, e pedir perdão dos pecados através da penitência". Em outros lugares, a tradição requer que se viva a Semana Santa numa completa tristeza: cobrem se os quadros e as pinturas dentro de casa, ficam proibidos cantos que não sejam religiosos, jejua-se e evita-se, ao máximo, até conversar. Fica abolido qualquer tipo de som e até a música dos sinos da igreja é substituída pelo barulho da matraca e se cantam longas cantilenas que contam os sofrimentos de Cristo; além disso, participa-se também das cerimônias da Igreja e se venera Cristo morto.

PÁSCOA, A FESTA DA VIDA

O dia de Páscoa, ao contrário, é a explosão da alegria, da certeza da vida que, em Cristo, adquire novo significado e dimensão. Para os fiéis, tudo isso é expresso por meio de símbolos ligados à vida, à luz e à alegria de viver. As velas, os trajes mais luxuosos, a procissão alegre, cheia de cantos, e, em algumas culturas, até com danças; os ovos e coelhos, símbolos da fertilidade e da multiplicação da vida.

O povo liberta-se da tristeza da semana anterior, cumprimenta-se nas ruas, sente-se participante e manifesta sua fé na renovação da vida, centrada na ressurreição de Cristo vitorioso sobre a morte. Em certos lugares, durante as procissões festivas, carros alegóricos desfilam enaltecendo a abundância da vida em seus componentes e distribuem-se pães especiais.

A ANTIGA E A NOVA PÁSCOA

Hoje, em muita igrejas e lugares, a representação plástica ou teatral tomou o lugar das tradicionais manifestações populares, criando verdadeiros espetáculos, como em Nova Jerusalém, em Pernambuco, que lança mão até de atores profissionais e de recursos técnicos muito modernos. Milhares de turistas são atraídos, mas não mais os peregrinos. Estamos perdendo a catarse popular da Semana Santa transformada em eventos turísticos e lucrativos.

Todas as celebrações da Semana Santa, realizadas fora do âmbito jurídico da Igreja, eram cerimônias paralelas nem sempre apoiadas pela Igreja oficial, porém, eram expressão da verdadeira e vivida liturgia popular. O que devemos fazer para readaptar aos nossos tempos essas tradições religiosas que eram um catecismo vivido e dramatizado? Não é o caso de voltar ao passado, mas de recuperar o gosto do simbólico que pode levar ao divino. O ser humano de hoje sente falta dos valores que o progresso acabou engolindo, mas continua insatisfeito, sem nada para preencher seu enorme desejo de infinito.

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