Revista "MUNDO e MISSÃO"

Cultura - Culturas

OS INDÍGENAS EXISTEM!

Walter Perrini

A marcha de duas semanas do EZLN abre os olhos do México e do mundo sobre a questão indígena

O jornalista e escritor mexicano, Carlos Monsivais, declarou nestes dias que, a partir de 1994, "se escreveu mais sobre a questão indígena do que em todo o século vinte. Antes, podiam passar anos sem que se escrevesse um só artigo". Foi no dia 1º de janeiro de 1994 que estourou no estado mexicano do Chiapas a insurreição do EZNL (Exército zapatista de libertação nacional): era o dia da entrada em vigor do acordo do NAFTA, que abria para o livre intercâmbio da América do Norte, considerado, porém, pelos indígenas uma maneira para dividir o México em duas classes sociais: os ricos e os pobres.

Marcos

A intuição genial do subcomandante Marcos, líder carismático dos zapatistas, foi de se despir de qualquer conotação ideológica, diferenciando-se de todas as guerrilhas latino-americanas anteriores, de Che Guevara aos sandinistas. Quando ele e seus primeiros companheiros chegaram ao Chiapas (estado a maioria indígena) no final dos anos Setenta, pensavam em fazer nascer na Selva Lecandona o clássico "foco" guerrilheiro. Perceberam, porém, que as comunidades não estavam dispostas a aderir a seu experimento: queriam ser protagonistas da luta. Não deve ser esquecido o trabalho feito entre os indígenas pela Igreja, liderada por dom Samuel Ruiz, que formou oito mil comunidades de base, que lhes devolveram a consciência de sua dignidade e seus direitos.

Três componentes formam a base do zapatismo: indígenas maya, camponeses e lavradores, com prevalência dos maya. Não é seu objetivo a conquista do poder (pelo menos nas declarações de Marcos) e o uso da violência não representa uma escolha privilegiada, mas uma necessidade. De fato, há anos que o EZLN não faz ações de guerra, a diferença da violência dos grupos paramilitares com a conivência do exército. Usa outras armas, pacíficas: os meios de comunicação, em particular a internet, conseguindo uma enorme popularidade no mundo todo.

Rumo a capital

Por três semanas a atenção do mundo ficou concentrada sobre uma caravana de ônibus e carros, que, saindo do Chiapas em 25 de fevereiro, chegaram à capital em 12 de março: foi a maior vitória de Marcos e dos indígenas, aplaudidos ao longo dos 3.000 km da marcha e acolhidos por mais de 150.000 pessoas no Zócalo, a praça central da Cidade do México.

A caminhada zapatista fez uma etapa importante na pequena cidade de Nurio; aqui, de
3 a 5 de março, estava reunido o 3º Congresso Nacional Indígena, recolhendo 5 mil delegados das 42 etnias indígenas que aderem às causas zapatistas. Na declaração final, os congressistas pediram o reconhecimento constitucional dos direitos dos povos indígenas através da atuação dos acordos de San Andrés, firmados entre o governo e o EZNL em 1996. Pediam também o reconhecimento nas Constituição da sua autonomia, de seus sistemas jurídicos indígenas e de seus territórios ancestrais. Por isso, exigiam "a moratória a todos os projetos de prospecção, exploração sobre a biodiversidade (isto é, recursos biológicos, minérios, água, etc.) e a todos as atividades de biopirataria que se realizam em todos os nossos territórios e em nosso país".

Marcos levou ao coração político do México estas reivindicações, que ele resumia nos "três sinais": "desativação dos sete quartéis do exército no Chiapas, libertação dos prisioneiros do movimento, aprovação dos acordos de San Andrés. As duas primeiras condições estão já em fase de realização; a terceira- que envolve mudanças na Constituição - depende da decisão do Parlamento, no qual, porém, as forças conservadoras e reacionárias são fortes.

Centenas de intelectuais, como a viúva de Fançois Mitterrand, Danielle, o prêmio Nobel da Literatura, José Saramago e o sociólogo francês, Alain Touraine com centenas de ativistas internacionais, participaram e apoiaram a marcha, que, também por isso, teve uma ressonância mundial.

O presidente Fox

O presidente Vicente Fox mostrou abertura para com o movimento zapatista e suas reivindicações, mas Marcos desconfia. Quando Fox o convidou a uma conversa no palácio presidencial, recusou: "É uma armadilha". Os comentaristas estão divididos: alguns concordam com Marcos, outros acham que a vontade de paz do presidente é sincera.
Agora começou a fase delicada das negociações. A esperança é que a vontade de diálogo prevaleça. Mas, embora o movimento indígena não consiga alcançar logo todos os objetivos da sua luta, obteve, porém, a vitória maior: os mexicanos descobriram que os indígenas existem.

CARLOS MONSIVAIS é o intelectual de referência da esquerda mexicana. Ele deu uma entrevista a Alain Abellard do jornal francês Le Monde, da qual reproduzimos alguns trechos.

Le Monde: Como o senhor julga a marcha de mais de duas semanas do EZLN?

Monsivais: É uma vitória cultural enorme, sem precedentes, do EZLN e de Marcos. Esta marcha provocou a abertura da nação e a tomada de consciência que a questão indígena deve ser resolvida. Nós vivemos um momento em que a maioria da população descobre o que foi o passado racista do país. O EZLN encarna a reconciliação do México com sua componente indígena.

Le Monde: O que o senhor entende exatamente, quando fala em vitória cultural?

Monsivais: Politicamente, a pressão que a marcha exerce sobre o Congresso é um sucesso. Mas o mais importante é que Marcos mostrou que, falar em paz no Chiapas, leva a tomar em conta a dimensão racista do México e, de maneira mais ampla, seu desprezo para com os pobres.

Le Monde: É verdade o que se diz, que toda a história do México é uma história de miscigenação?

Monsivais: Dizer que não há racismo significa inventar-se um país que não é o nosso. Sim, houve um processo de miscigenação, mas nossa sociedade é desmedidamente racista. Não há nenhum indígena no gabinete do presidente Fox, fora a mulher que se ocupa justamente da questão indígena. Não há nenhum governador indígena. Na televisão, você não vê um só indígena, nem por acaso. Em 2001, só 6% das crianças indígenas vão terminar a escola primária.

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