Revista "MUNDO e MISSÃO"

Cultura - Culturas

Em maio de 2002, foi realizado o IV Encontro Continental da Teologia Índia, em Assunção - Paraguai, com a participação de representantes de várias Igrejas e dos povos indígenas. Deste encontro saiu o livro "A Terra sem Males em Construção", editado pelo CIMI - Conselho Indigenista Missionário - e AELAPI - Articulação Ecumênica Latino- Americana de Pastoral Indígena -, que apresenta os temas, reflexões e os desafios da teologia índia. Teologia índia é de fato um tema controvertido e, às vezes, olhado com desconfiança até pelos membros das várias Igrejas que trabalham com os povos indígenas.

A DESCOBERTA DA TEOLOGIA ÍNDIA

azer teologia é falar, expressar comunicar a experiência de Deus a partir da vida, da cultura da pessoa. Teologia índia deve expressar esse encontro com o divino na vida dos índios, sua cultura, mitos e ritos. A teologia índia é uma realidade tão antiga quanto os povos indígenas, mas só recentemente, quando se começou a dar o merecido valor à diversidade das culturas, componentes fundamentais dos povos e das pessoas, foi descoberta e investigada pelas Igrejas cristãs.

Até alguns anos atrás, a evangelização dos povos indígenas da América Latina e dos outros continentes era a imposição da cultura ocidental proveniente do mundo greco-romano, formulada por teólogos europeus, ao longo de muitos séculos. Ela sufocava valores e tradições fundamentais dos povos indígenas, criando pessoas convertidas mas deslocadas do seu contexto histórico e cultural. Em geral, negava-se concretamente que essas culturas religiosas indígenas pudessem contribuir para a compreensão do Deus cristão, da natureza e do relacionamento entre os povos.

Hoje, com o princípio da inculturação, embora e ainda com muitas suspeitas e desconfiança, tornou-se mais fácil a aceitação dos valores indígenas que começam a ser considerados nos ambientes teológicos mundiais. Justamente, começa-se a entender que Deus não é somente o Deus da cultura ocidental e não há uma única maneira dele se revelar, mas pode chegar aos homens por múltiplos caminhos.

A Igreja, embora seja um ponto de referência privilegiado da ação de Deus, deve respeitar os valores fundamentais dos povos e extrair deles a presença divina, evidenciando logicamente os pontos positivos. No caminho da inculturação, portanto, a teologia índia cristã não deve ser criada fora do contexto indígena e, em seguida, ser imposta, mas descoberta no contexto das culturas dos diferentes povos e valorizada para que seja uma das vozes humanas "no concerto que bendizem o Senhor" (Dom Geraldo Flores, Guatemala, 1996).

TEOLOGIA E CULTURAS

A teologia (discurso sobre Deus) é a compreensão e a experiência de Deus que se realiza dentro da história e da cultura de cada povo. A Bíblia dá exemplos práticos de inculturação, especialmente no começo da Igreja, quando ela começou a se defrontar com culturas diferentes da hebraica e, nesses encontros, as tradições que pareciam fundamentais para os judeus foram deixadas de lado e ignoradas, como a circuncisão e o conceito de pureza legal. Os vários povos convertidos ao cristianismo, expressavam-se em suas línguas e novas tradições foram introduzidas na nova Igreja.

E assim deve ser hoje, quando o cristianismo se aproxima de povos diferentes, de tradição e valores, que têm uma religiosidade, às vezes simplesmente esboçada, mas suficiente para o povo que a pratica. Esses valores, às vezes centenários, são os que formam a riqueza da humanidade como um todo, mas muitos deles, superficialmente tachados de superstições e paganismo, foram destruídos durante a ocupação colonial. Hoje, ao redescobrirmos essas tradições religiosas e culturais dos povos indígenas, não podemos repetir os erros do passado, quando a evangelização se confundia com ocidentalização.

Tornou-se inaceitável que os povos africanos, asiáticos ou indígenas das Américas tenham que renunciar às próprias raízes culturais se quiserem ser cristãos. O sacerdote católico e índio zapoteca, Eleazar Lopes, assim descreve esse drama e faz um apelo: "Nós, religiosos indígenas, estamos interiormente divididos por um duplo amor: amamos o nosso povo e acreditamos em seu projeto de vida, porém, amamos a Igreja e cremos no projeto da salvação...

Estamos convencidos de que é possível e vale a pena reconciliar estes dois amores, porque sabemos que não existe contradição insuperável entre as propostas fundamentais da Igreja, que são as mesmas de Cristo, e os pressupostos teológicos dos nossos povos... as diferenças são somente de forma e não de conteúdo. Aliás, boa parte dessas propostas é mais bem expressa na cultura dos nossos povos pela pureza de coração dos simples e, nesse sentido, cremos que o diálogo teológico reverterá não só em benefício para os povos indígenas, mas será enriquecedor para a Igreja que, por meio dos índios, se reencontrará com o mais puro da mensagem evangélica e da tradição cristã" (Lopes Eleazar, 1992).

COMO SE ELABORA A TEOLOGIA ÍNDIA CRISTÃ

O ponto de partida é livrar-se dos preconceitos de ambas as partes. Por parte dos povos indígenas, não pode nascer do rancor ou da condenação e repúdio da evangelização forçada de 500 anos porque, já anteriormente, eles tinham a sua teologia, sua expressão. Seu contato com Deus é parte do passado, vive o presente e olha com esperança para o futuro desses povos que foram "reduzidos, mas não vencidos".


Curso de catequistas indígenas Saterê - Maué - Parintins - AM

Portanto, o desafio atual é mostrar que, com a nova evangelização, é possível superar a intolerância da primeira evangelização, aquela da colonização que predominou contra as culturas religiosas indígenas. Outra condição é, de outro lado, não querer condicionar a manifestação de Deus a uma cultura - a ocidental - ou limitar a ela a porta de acesso a Deus, mas aceitar que cada povo possa comungar e relacionar-se com Ele na sua própria maneira.

A religiosidade índia cria uma teologia mais prática, fruto da experiência vivida que se encontra refletida nos mitos e ritos, no trabalho e na vida social do povo, fundamentada, muito mais que a cultura ocidental, na reciprocidade e compartilhamento, na gratuidade do relacionamento com Deus (Ele dá, Ele tira) e com os outros (ninguém é abandonado quando precisa, mesmo quando não merece).

A teologia índia ainda tem diante de si um longo percurso para encontrar a formulação que seja cristã, que recolha e purifique todas as contribuições da experiência religiosa dos povos indígenas e faça sua reflexão de fé sobre essas experiências. Está, porém, na hora de reconhecer a sua legitimidade e identidade cultural, sua experiência de Deus para resgatar os grandes valores religiosos contidos nessas culturas.

Tudo isso poderá enriquecer a todos, até outras teologias. As culturas são os tesouros da humanidade que ficaria mais pobre se fossem perdidas em um nivelamento cultural de uma falsa globalização.

Do primeiro capítulo do livro
"A Terra Sem Males em Construção",
de Nello Rufaldi. Adaptação Ernesto Arosio.

Visite as outras páginas

[P.I.M.E.] [MUNDO e MISSÃO] [MISSÃO JOVEM] [P.I.M.E. - Missio] [Noticias] [Seminários] [Animação] [Biblioteca] [Links]

Voltar