Revista "MUNDO e MISSÃO"
Cultura - Culturas
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Eles vivem na aldeia de Kumaruman, no Amapá, muito próximos à divisa com a Guiana Francesa. Há um século, o que existia na região era uma dezena de famílias de negros guianenses, caboclos brasileiros, refugiados por motivos diversos e remanescentes de vários grupos indígenas. Sua condição era o resultado direto da ação do Estado (tanto o francês como o brasileiro), de comerciantes, missões religiosas e forças militares. O fato de estarem em uma região de fronteira foi um agravante para as mais variadas formas de violência. Essa situação fez com que muitos pesquisadores de peso, como Kurt Nimuendajú e Darcy Ribeiro, considerassem estes povos como descaracterizados, culturalmente dizimados ou simplesmente aculturados. O fato de não terem uma raiz cultural preservada, incorporarem alguns elementos da sociedade ocidental e nem sempre terem uma aparência indígena foi decisivo para esse estigma que os condenou, estatisticamente, à dizimação. Essa condenação trouxe o abandono do Estado e o desinteresse da sociedade nacional, o que, curiosamente, foi muito oportuno para garantir a este povo a possibilidade de se reproduzir culturalmente. Precisamos ter cuidado com afirmações definitivas, formalmente lógicas e mecânicas, quando falamos de cultura e sociedade. Ambas estão inseridas na história e são dimensões essencialmente humanas, o que as faz imprevisíveis, ricas e potencialmente vivas, capazes de se reerguerem por caminhos inimagináveis. Essas famílias culturalmente arruinadas assumiram o paradoxo de reconhecer que havia entre elas uma forte identidade: a de povos sem identidade. Seja pela necessidade de dar um sentido às suas vidas ou simplesmente por desejarem sobreviver, passaram a se aproximar uns dos outros e a construir uma vida comum. Essa vida comum estabeleceu-se fortemente, como ocorre até hoje, na estrutura familiar, com o estímulo ao casamento entre pessoas de diferentes origens. A lógica formal, mais uma vez, sofreria para qualificar o povo que estava sendo gestado. Difícil explicar certas misturas. Como classificar os filhos de índios tupis com negros guianenses; de caboclos oriundos da Cabanagem com filhos bastardos de militares com índias palikures, por exemplo?
A construção de uma nova sociabilidade passou também pelo fator econômico e político, tais como a realização de mutirões para o plantio da mandioca, o compartilhar de fornos de farinha e a organização para a defesa do território contra exploradores e saqueadores, fossem do Estado ou particulares. Além do fato de compartilharem um mesmo território e os laços familiares, políticos e econômicos, foi vital a construção de laços culturais. A diversidade cultural daquelas famílias ao invés de enfraquecer raízes, como acreditam muitos, revitalizou-as por novos mosaicos significativos e composições culturais, dando origem a uma nova etnia. Essa dinâmica complexa (território-história-economia-política-cultura) facilitou também uma considerável recuperação demográfica, levando-os a ocupar uma quantidade cada vez maior de ilhas ao longo do leito médio do rio Uaçá. Nos anos 30, receberam o reconhecimento do Estado brasileiro que lhes
deu alguma assistência, sob a forma de tutela. Deu-lhes também
o nome
Não há registro de nenhum povo indígena ancestral com este nome; acabara de ser batizada uma nova etnia indígena, em pleno Estado Novo, e esta nomeação foi bem aceita pelos novos índios, que passaram a se constituir enquanto alguém para a sociedade nacional. Aceitar um nome que lhes era estranho é um fato que define muito da prática destes índios para garantir sua reprodução e presença na sociedade brasileira. Os galibi-marwornos sempre optaram por dialogar com agentes brancos que contribuíssem com sua reprodução social e cultural, bem como suas condições gerais de vida. Souberam dialogar com o outro, sem negar a si mesmos, fazendo do diálogo que leva à autonomia uma forma de identidade. Esta atitude permitiu, nos anos 70, o contato com outras agências como a Fundação Nacional do Índio (Funai), algumas Ongs e o Conselho Indigenista Missionário (CIMI). Este último, através da figura do pe. Nello Ruffaldi, foi vital na luta pela terra (hoje demarcada e homologada), educação, e saúde. Em 1994, fundaram a Associação dos Povos Indígenas do Oiapoque (Apio), o que lhes permitiu força política e econômica na sociedade nacional, agora sem a tutela do Estado. Isso ocorre porque essa associação funciona como negociadora política nas diferentes esferas de governo e também como uma cooperativa, evitando que sua produção seja vendida a preços ínfimos no comércio de Oiapoque. Atualmente, a população é de duas mil pessoas; eles elegeram o prefeito de Oiapoque, a maioria da Câmara e possuem uma interlocução direta com diversas instituições, o que lhes têm garantido surpreendentes resultados demográficos e dinamismo cultural, elementos fundamentais para o reconhecimento social em um sentido mais amplo.
O líder João Neves, por exemplo, já discursou no parlamento francês; sua interlocução com personalidades francesas, como Danielle Miterrand, é freqüente. Essas interlocuções são, hoje, sua maior defesa contra o próprio Estado brasileiro: os galibi-marwornos sabem muito bem o mal que podem provocar à imagem do governo brasileiro com uma simples denúncia feita a algum político ou jornalista europeu a respeito de ofensas aos direitos dos povos da floresta. Talvez esta seja a senha, a lição galibi-marworno: aprender a dialogar com o outro, aprendendo seus códigos para poder aliar-se a ele ou defender-se, quando necessário. Apesar de passado aproximadamente um século desde o início da trajetória galibi-marworno, nada os caracteriza melhor do que a figura de suas crianças. Como os pequenos, eles mantêm acesa a alegria da vida presente, percebem a importância da ousadia e o aprendizado de cada queda, não têm medo do novo. Cultivam a certeza de que brincar com muita gente é mais divertido, intenso e edificante, uma lição de gente grande aos que temem o contato, seja por preconceito, seja por purismo. |
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