Revista "MUNDO e MISSÃO"

Cultura - Culturas

 

Dentro da tribo,
O perto do coração

por Patrizia Bergamaschi

omo se aproximar do índio e de sua cultura, com respeito e sem imposições? A pergunta é inquietante, mas as respostas existem e exigem uma postura aberta, um olhar límpido e um espírito atento. É possível aprender com eles e beber da fecundidade de sua cultura e, acima de tudo, é urgente preservar a memória de suas tradições. Neste número, sugerimos duas propostas de leitura: uma fotográfica e outra literária.

A primeira apresenta fotos feitas, há 50 anos, de índios de Guajará-Mirim, na Amazônia, revelando momentos de sua vida. Há de se notar o espírito comunitário, o trabalho partilhado, o olhar misto de curiosidade e receio diante do aparelho nas mãos do branco. A segunda é uma história do povo orouari, preciosamente recolhida pela comunidade de Sagarana, na mesma Diocese de Guajará- Mirim.

Esse conto e muitos outros foram anotados em língua nativa e depois traduzidos para o português, constituindo um material atual e ímpar “para melhor ajudar os índios na sua caminhada, sobretudo nos caminhos da fé ou de uma evangelização realmente inculturada e libertadora, porque portadora de mais vida para esse povo tão sofrido e, ao mesmo tempo, pacífico, dedicado, trabalhador e merecedor do maior respeito dos que se dizem e se julgam civilizados”.


O caçador de gavião real
CA PIJIM' NUCUN WARI 'CO "PARAM TAMANA TON WUWUO" NA

avia, em uma aldeia orouari, um homem que, a todo custo, queria pegar um gavião real que aninhava em uma árvore não longe da aldeia. Para isso, durante muito tempo, ele voltava constantemente ao local... E ainda mais outra vez, lá ia atrás do gavião. Mas sempre sem resultado. Um dia, ele disse aos companheiros: – Já sei o que vou fazer. Volto lá, espero chegar a noite, subo na árvore, entro no ninho, surpreendo o animal já dormindo e, então, pego e seguro meu gavião real.

De fato, lá se foi ele. Já com a noite, subiu e entrou no ninho. Mas, ao chegar, topou com o animal já de prontidão. Porém, não o gavião, mas uma enorme onça pintada que pulou logo sobre ele e o agarrou. Pois esse gavião também é onça. Ele é, ao mesmo tempo, gavião e onça. É o mesmo que nós chamamos de cao´ hu taran taran. Essa onça mora dentro da água e toma a forma de gavião e voa, quando sai para caçar.

Então a onça pegou o homem e o matou. Na manhã seguinte, o pessoal da aldeia, preocupado, começou a se perguntar: “Por que será que ele ainda não voltou?”. Alguns diziam: “Com certeza, ele feriu o gavião e agora está correndo atrás, para pegá-lo”. “Vamos lá, disseram ainda outros, vamos ver o que está acontecendo com ele!”. Chegando ao local, procuraram, mas nada encontraram.

E concluíram que o gavião o matou e o carregou para muito longe. Foi assim que terminou aquele teimoso caçador de gavião real. Por isso que a gente nunca deve ir, à noite, procurar um gavião. Aquele homem foi e nunca mais voltou.

Ensinamentos dos nossos antepassados, copilados por Wao Arapit.
Cadernos da Diocese de Guajará-Mirim, RO, 1994

 

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