Revista "MUNDO e MISSÃO"
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Auto de Natal em Treze Tílias Walkyria Gandra Niro Treze Tílias é uma pequena cidade, localizada no meio oeste catarinense, que foi fundada aos 13 de outubro de 1933, pelo ministro da Agricultura da Áustria, Andreas Thaler. Essa colonização foi um projeto do governo austríaco para resolver o problema dos habitantes da Áustria, que passavam por dificuldades, como a maioria dos europeus do período pós-guerra. A jornada dos primeiros imigrantes, a maioria do Tirol, foi longa. Saindo da Áustria, foram a Gênova, Itália, onde embarcaram no navio Principessa Maria. Chegaram ao porto do Rio de Janeiro num dia ensolarado e bem cedo. Como só seguiriam viagem após alguns dias, tiveram oportunidade de conhecer a cidade maravilhosa. Nessa ocasião um dos imigrantes, Jacob Heiter conseguiu que seu enxame de abelhas levasse, para as duas colmeias que trazia consigo, o pólen das flores daquela cidade, podendo com isso iniciar a produção de mel, assim que chegou a seu destino.
Do Rio de Janeiro seguiram para o porto de Santos, indo finalmente desembarcar em São Francisco do Sul. Mas a viagem ainda não terminara. De São Francisco do Sul seguiram de trem até Ibicaré e de lá, por meio de carroças, dirigiram-se até a localidade que hoje é conhecida como Treze Tílias. Mesmo possuindo uma colônia italiana e alemã bem numerosa, que contribuíram para a formação da cidade, Treze Tílias é, hoje, conhecida como o Tirol brasileiro, não só por ter sido fundada pelos tiroleses, mas principalmente, por preservar a arte, a cultura e a tradição do Tirol. Os pioneiros trouxeram com eles não só objetos pessoais e de trabalho, mas toda uma bagagem cultural. Já no navio, Johann Mitterer fundou um conjunto musical, A Banda dos Tiroleses, que até hoje participa dos eventos da cidade. Nessa ocasião, também foi formado um grupo de danças folclóricas, o Schuhuplatter; além disso, trouxeram também a arte de esculpir madeira, sendo seus escultores conhecidos mundialmente. Podemos notar em Treze Tílias, a influência tirolesa também na arquitetura, uma vez que a maioria das casas possui a forma arquitetônica dos Alpes (telhados bem inclinados, torres com o sino e o galo, sacadas e jardins floridos. Essa influência ocorre também na culinária, nas danças e nos festejos. Uma das tradições que permanece é o Auto de Natal. Os festejos natalinos iniciam-se com o Advento. Na principal praça da cidade é instalada a Feira de Natal, que funciona todos os finais de semana, até o Dia de Reis. No centro, monta-se um palco, ao redor são colocadas casinhas de madeira, no estilo tirolês. Nessas casinhas, tanto os habitantes da cidade, como os turistas encontram produtos da terra e artesanato local. No palco, são realizadas apresentações folclóricas e o famoso Auto de Natal. No Tirol austríaco, o Auto de Natal inicia-se no dia 5 de dezembro, à noite, na véspera do dia de São Nicolau. Já no início do mês, vários grupos se preparam para essa encenação, fazem suas vestes, que se assemelham às da época do nascimento de Jesus, trazem os animais, ensaiam os cantos. Do dia 5 até a véspera de Natal esses grupos visitam as famílias da região, levando-lhes paz e amor. Entre os dias 5 e 8 de dezembro, as famílias são visitadas por São Nicolau, que chega às casas acompanhado pelos anjinhos e pelos diabinhos, sendo que estes aguardam fora, esperando serem chamados por São Nicolau.
São Nicolau era um bispo que se preocupava com as crianças e não admitia que elas não tivessem pelo menos uma guloseima, um docinho no Natal. São Nicolau é muito venerado na Áustria. Ele entra na casa, conversa com as crianças, quer saber se foram obedientes, se brigaram com os irmãos, se sabem rezar (geralmente faz as crianças rezarem com ele), que notas tiraram na escola, etc. Se as crianças responderem que se comportaram, que tiveram boas notas, foram obedientes, o santo lhes dá doces, mas se disserem que brigaram com os irmãos, que não foram obedientes, ele chama os diabinhos que fazem caretas e barulho com as correntes: isso representa uma ameaça para as crianças que sabem que serão castigadas. Atualmente, a parte dos diabinhos é feita de forma branda, para não traumatizar as crianças. Nesse período, os grupos procuram visitar o maior número possível de famílias. A partir dessa data começa o An Klöpfen, que é o Auto de Natal, e é a partir daí que, na verdade, se começa a festejar intensamente o Natal. A primeira pessoa a entrar na casa é a bruxa, figura que para nós, brasileiros, é estranha às festas de Natal, pois nos lembra Idade Média, feitiçaria. Mas para os tiroleses, seu significado é bem outro. A bruxa entra nas casas, varre os cantos, as paredes, faz uma inspeção, simbolizando a limpeza que devemos fazer para receber Aquele que está para nascer. Essa limpeza não é só física, mas sobretudo espiritual. Na maioria das casas trezetilienses, encontramos na entrada uma bruxinha pendurada. No mês de dezembro, toda a cidade de Treze Tílias se prepara para o Natal, limpando suas casas e seu espírito. An Klöpfen quer dizer bater, bater na porta, que é o que aconteceu com José e Maria, quando chegaram a Belém: batiam de porta em porta, pedindo abrigo, pois Maria estava prestes a dar à luz e não tinham lugar para ficar. Essa conversa de José e Maria com o hospedeiro, é feita por um grupo de cantores.
Em Treze Tílias, essa tradição foi introduzida pela família Moser. Infelizmente, apenas um grupo faz essa encenação, motivo pelo qual é impossível visitar todas as famílias. Mas o problema foi resolvido: na praça, o palco que foi erguido para as apresentações, serve também para o Auto de Natal. Inicia-se a apresentação com a bruxa passeando com a vassoura pela praça, logo após, vem Papai Noel, com os anjinhos e diabinhos, distribuindo doces. As crianças vibram e tentam adivinhar quem está por trás das máscaras de diabo. Quando todos pensam que tudo terminou, surge lá longe um homem, barbudo, com vestes antigas, tendo em uma das mãos um cajado esculpido e na outra, a corda que puxa o burrinho. Montada no burrinho, vem uma adolescente, vestida de branco e azul. Trata-se de Nossa Senhora, acompanhada de São José. Enquanto eles vão se aproximando, o palco é tomado por cantores, pastores vestidos com pelego, carneiros, cabrinhas. Maria e José sobem ao palco e começa a encenação. José bate à porta. Alguém pergunta: Quem bate? Esse diálogo prossegue, todo cantado em alemão. José vai em busca de outras pousadas. Bate às portas em vão, até que, finalmente, consegue um estábulo. Lá é que nasce Jesus, normalmente representado pelo bebê mais novo da cidade. Os anjos, pastores e o coral entoam canções natalinas. Para encerrar, convidam a todos os espectadores a cantarem Noite Feliz- Stille Nacht, composta nos Alpes, por Franz Gruber. |
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