Revista "MUNDO e MISSÃO"
Cultura - Culturas
por Giorgio Paleari
Nos relativamente poucos anos de sua vida missionária, atuou na Índia (1542-1545), em Malacca e no arquipélago indonésio (até 1549) e, por fim, no Japão e nas portas da China (até 1552). Após os estudos em Paris, encontra Inácio de Loyola, o fundador dos Jesuítas, e sente-se atraído pelo caminho da missão. Deixa Roma e seus companheiros em 15 de março de 1540 e nunca mais os encontrará. Escreve Hugues Didier (Francisco Xavier, São Paulo: Paulinas, 1996): "Antes de deixar a Europa, ele quis receber instruções escritas de Inácio sobre a maneira de proceder para converter os infiéis... assunto sobre o qual este último não tem a mínima experiência". Se os objetivos eram precisos, os métodos e as práticas missionárias não eram tão claros, mesmo nesta época. Francisco leva consigo somente "um pequeno breviário, um catecismo e uma antologia patrística e três pequenos livros em latim". O Santiago, nome do barco, alcança Goa em 6 de maio de 1542, um ano e um mês após a saída de Lisboa. Cinco meses depois lhe é expressamente pedido de prestar assistência e socorro aos "pescadores de pérolas". Ele escreve: "Passamos por aldeias de cristãos; deve ter oito anos que tornaram-se cristãos. Não há portugueses habitando essas aldeias, pois é uma região extremamente estéril e muito pobre. Por não haver ninguém para instrui-los sobre nossa fé, os cristãos dessas aldeias não sabem nada além de dizer que são cristãos; não possuem ninguém para lhes dizer a missa, e menos ainda para lhes ensinar o credo, o pai-nosso, a ave-maria ou os mandamentos". O contato com o mundo hinduísta o deixa desconcertado e, acompanhando a mentalidade da época, expressa-se desta maneira: "Fostes vós, meu Deus, que me fizestes à vossa semelhança, e não esses ídolos, deuses dos gentios que possuem cabeças de besta e de animais do diabo". Ele nota que os "pescadores de pérolas, mesmo se tornando cristãos, continuam recitando os mantras em sânscrito, sem entender nada. Com os brâmanes, sacerdotes hinduístas, sua agressividade é muito maior: "Neste país, há entre os gentios, uma corja que chamam de brâmanes... é a gente mais perversa do mundo". Francisco Xavier estava constantemente preocupado com as formas idolátricas das religiões orientais. Quando deixa definitivamente a Índia e Malacca em 23 de junho de 1549, a bordo de um junco chinês, fica irritado pelo capitão e pela tripulação: "O que mais nos afligia durante nossa viagem eram duas coisas: a primeira, ver que não aproveitávamos o bom tempo e o bom vento (...). A segunda, eram as numerosas e contínuas idolatrias, assim como os sacrifícios, realizados pelo capitão e os gentios". Tentativas de aproximação à cultura do outro e preconceitos etnocêntricos não permitem uma clara visão daquele que é o mundo oriental. A visão absolutamente negativa do Hinduísmo não o leva a ter estima por ele e, mais ainda, detecta a necessidade de fazer "tábula rasa" do passado. É importante destacar, neste período, a percepção que Francisco Xavier teve do processo de tradução dos termos e dos conceitos. Conserva-se uma carta de Francisco a Mansilhas na qual é discutida a tradução em tamil de algumas expressões do "Creio". Ainda relevante, neste tempo, foi a construção de comunidades cristãs com uma forte caracterização "leiga". Não tendo a disposição missionários sacerdotes, serão os leigos que assumirão um grande papel na evangelização, pelo menos no começo do século XVI. O caminho da missão, neste primeiro período, continua sendo revestido, para Francisco Xavier, de encanto, mas também de muitos preconceitos.
por Giorgio Paleari
Os japoneses possuem algo que nenhum país cristão me parece ter: eles estimam mais a honra que as riquezas. São pessoas corteses umas com as outras. Uma parte considerável do povo sabe ler e escrever, o que é uma forma poderosa de aprenderem rapidamente as orações e as coisas de Deus". O que impressiona mais, no entanto, é a religiosidade japo-nesa, particularmente, indecifrável. Os monges budistas parecem-lhe estranhos, assim como seu comportamento. Além disso, Francisco vê que o universo religioso dos japoneses não comporta a noção de Criador, de criação, de uma lei religiosa e, menos ainda, de pecado. Com sua equipe tenta estudar o japonês, mas incorreu em alguns erros de tradução e interpretação. A tradução, por exemplo, do termo Deus por Dainichi, não é correta porque Dainichi, segundo os japoneses, é cada coisa e o mundo inteiro ao mesmo tempo. Não tem valor de um ser pessoal. Mais complexa ainda é a visão de Francisco a respeito da vida após a morte: somente os batizados podem alcançar a salvação. Assim, defuntos japoneses, tão venerados pelos "pagãos", estariam todos no inferno, uma realidade permanente. A única alternativa era fazer parte da Igreja, único caminho para alcançar o céu. Esta visão chocava-se com o retorno dos espíritos para se purificarem. Francisco escreve: "É uma desolação para os cristãos do Japão, quando dizemos que o inferno é sem remédio para aqueles que lá vão. (...) Muitos choram os mortos e perguntam-me se estes podem ser beneficiados por meio de esmolas e preces. Eu, no entanto, digo-lhes que não há remédio para eles. Sentem-se desolados, o que não me desagrada: dessa forma, não serão negligentes e não irão danar-se como seus ancestrais". O impacto com a cultura e as religiões dos japoneses continua a desafiar o missionário Francisco. De um lado, sente-se atraído e desafiado e, do outro, deve usar todas as argumentações para derrubar princípios que estão em contradição com o cristianismo. A abundância de seitas budistas desconcerta Francisco. Todas elas apresentam-se como caminhos normais de salvação e assim são consideradas pelos japoneses. A especificidade cristã é de um Deus que cuida do seu povo. A salvação não pode ser oferecida através de tantos caminhos. Tudo isso preocupava Francisco que, nem sempre, entendia exatamente o que os japoneses explicavam. A dificuldade da língua tornava-se um limite insustentável, mesmo com o auxílio dos intérpretes. O sonho de Francisco, porém, continuava sendo a China. Sabendo que os japoneses herdaram a escrita dos chineses e que o grande império chinês era mais monolítico e coeso, pensava que "convertendo o imperador da China", poderia converter boa parte do gênero humano. Francisco escreve: "A China é um país muito vasto, pacífico e governado por grandes leis. Há um só rei que é realmente obedecido. (...) Tenho a grande esperança de que tanto os chineses quanto os japoneses sairão de sua idolatria e adorarão a Deus e a Jesus Cristo, o Salvador de todos". Francisco tentará de tudo para ir à China, aventurando-se, sempre mais, por caminhos não traçados. O que sustenta seu empreendimento é a paixão por Jesus Cristo, o desejo de salvar almas. em 1552, no mês de maio, embarca para a China. Chega à pequena ilha de Sancian (ou Shangchuan), esperando entrar na corte do imperador. A saúde começa a deteriorar-se. Exausto, Francisco morre em 3 de dezembro de 1552. O corpo é enterrado em uma das praias da ilha. Foi beatificado pelo papa Paulo V, em 25 de outubro de 1619, e canonizado por Gregório XV, em 12 de março de 1622. |
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