Revista "MUNDO e MISSÃO"

Cultura - Culturas

por Giorgio Paleari

rancisco Xavier nasceu a 7 de abril de 1506 na Espanha e morreu no dia 3 de dezembro de 1552 na ilha de Sancian, nos arredores de Cantão, China. É, junto com Santa Terezinha de Jesus, o protetor de todos os missionários e missionárias.

Nos relativamente poucos anos de sua vida missionária, atuou na Índia (1542-1545), em Malacca e no arquipélago indonésio (até 1549) e, por fim, no Japão e nas portas da China (até 1552). Após os estudos em Paris, encontra Inácio de Loyola, o fundador dos Jesuítas, e sente-se atraído pelo caminho da missão. Deixa Roma e seus companheiros em 15 de março de 1540 e nunca mais os encontrará. Escreve Hugues Didier (Francisco Xavier, São Paulo: Paulinas, 1996):

"Antes de deixar a Europa, ele quis receber instruções escritas de Inácio sobre a maneira de proceder para converter os infiéis... assunto sobre o qual este último não tem a mínima experiência". Se os objetivos eram precisos, os métodos e as práticas missionárias não eram tão claros, mesmo nesta época. Francisco leva consigo somente "um pequeno breviário, um catecismo e uma antologia patrística e três pequenos livros em latim".

O Santiago, nome do barco, alcança Goa em 6 de maio de 1542, um ano e um mês após a saída de Lisboa. Cinco meses depois lhe é expressamente pedido de prestar assistência e socorro aos "pescadores de pérolas". Ele escreve: "Passamos por aldeias de cristãos; deve ter oito anos que tornaram-se cristãos. Não há portugueses habitando essas aldeias, pois é uma região extremamente estéril e muito pobre.

Por não haver ninguém para instrui-los sobre nossa fé, os cristãos dessas aldeias não sabem nada além de dizer que são cristãos; não possuem ninguém para lhes dizer a missa, e menos ainda para lhes ensinar o credo, o pai-nosso, a ave-maria ou os mandamentos". O contato com o mundo hinduísta o deixa desconcertado e, acompanhando a mentalidade da época, expressa-se desta maneira:

"Fostes vós, meu Deus, que me fizestes à vossa semelhança, e não esses ídolos, deuses dos gentios que possuem cabeças de besta e de animais do diabo". Ele nota que os "pescadores de pérolas, mesmo se tornando cristãos, continuam recitando os mantras em sânscrito, sem entender nada. Com os brâmanes, sacerdotes hinduístas, sua agressividade é muito maior:

"Neste país, há entre os gentios, uma corja que chamam de brâmanes... é a gente mais perversa do mundo". Francisco Xavier estava constantemente preocupado com as formas idolátricas das religiões orientais. Quando deixa definitivamente a Índia e Malacca em 23 de junho de 1549, a bordo de um junco chinês, fica irritado pelo capitão e pela tripulação:

"O que mais nos afligia durante nossa viagem eram duas coisas: a primeira, ver que não aproveitávamos o bom tempo e o bom vento (...). A segunda, eram as numerosas e contínuas idolatrias, assim como os sacrifícios, realizados pelo capitão e os gentios". Tentativas de aproximação à cultura do outro e preconceitos etnocêntricos não permitem uma clara visão daquele que é o mundo oriental.

A visão absolutamente negativa do Hinduísmo não o leva a ter estima por ele e, mais ainda, detecta a necessidade de fazer "tábula rasa" do passado. É importante destacar, neste período, a percepção que Francisco Xavier teve do processo de tradução dos termos e dos conceitos. Conserva-se uma carta de Francisco a Mansilhas na qual é discutida a tradução em tamil de algumas expressões do "Creio".

Ainda relevante, neste tempo, foi a construção de comunidades cristãs com uma forte caracterização "leiga". Não tendo a disposição missionários sacerdotes, serão os leigos que assumirão um grande papel na evangelização, pelo menos no começo do século XVI. O caminho da missão, neste primeiro período, continua sendo revestido, para Francisco Xavier, de encanto, mas também de muitos preconceitos.

por Giorgio Paleari

o mês de agosto de 1549, Francisco Xavier chega a Kagoshima, capital da província de Satsuma. O Japão introduz Francisco num outro mundo e numa outra cultura. Ele percebe que está diante de um país encantador: "As pessoas com as quais conversamos até agora - escreve - são as melhores entre todas as que já conhecemos. (...)

Os japoneses possuem algo que nenhum país cristão me parece ter: eles estimam mais a honra que as riquezas. São pessoas corteses umas com as outras. Uma parte considerável do povo sabe ler e escrever, o que é uma forma poderosa de aprenderem rapidamente as orações e as coisas de Deus". O que impressiona mais, no entanto, é a religiosidade japo-nesa, particularmente, indecifrável. Os monges budistas parecem-lhe estranhos, assim como seu comportamento.

Além disso, Francisco vê que o universo religioso dos japoneses não comporta a noção de Criador, de criação, de uma lei religiosa e, menos ainda, de pecado. Com sua equipe tenta estudar o japonês, mas incorreu em alguns erros de tradução e interpretação. A tradução, por exemplo, do termo Deus por Dainichi, não é correta porque Dainichi, segundo os japoneses, é cada coisa e o mundo inteiro ao mesmo tempo.

Não tem valor de um ser pessoal. Mais complexa ainda é a visão de Francisco a respeito da vida após a morte: somente os batizados podem alcançar a salvação. Assim, defuntos japoneses, tão venerados pelos "pagãos", estariam todos no inferno, uma realidade permanente. A única alternativa era fazer parte da Igreja, único caminho para alcançar o céu.

Esta visão chocava-se com o retorno dos espíritos para se purificarem. Francisco escreve: "É uma desolação para os cristãos do Japão, quando dizemos que o inferno é sem remédio para aqueles que lá vão. (...) Muitos choram os mortos e perguntam-me se estes podem ser beneficiados por meio de esmolas e preces. Eu, no entanto, digo-lhes que não há remédio para eles.

Sentem-se desolados, o que não me desagrada: dessa forma, não serão negligentes e não irão danar-se como seus ancestrais". O impacto com a cultura e as religiões dos japoneses continua a desafiar o missionário Francisco. De um lado, sente-se atraído e desafiado e, do outro, deve usar todas as argumentações para derrubar princípios que estão em contradição com o cristianismo.

A abundância de seitas budistas desconcerta Francisco. Todas elas apresentam-se como caminhos normais de salvação e assim são consideradas pelos japoneses. A especificidade cristã é de um Deus que cuida do seu povo. A salvação não pode ser oferecida através de tantos caminhos. Tudo isso preocupava Francisco que, nem sempre, entendia exatamente o que os japoneses explicavam. A dificuldade da língua tornava-se um limite insustentável, mesmo com o auxílio dos intérpretes.

O sonho de Francisco, porém, continuava sendo a China. Sabendo que os japoneses herdaram a escrita dos chineses e que o grande império chinês era mais monolítico e coeso, pensava que "convertendo o imperador da China", poderia converter boa parte do gênero humano. Francisco escreve: "A China é um país muito vasto, pacífico e governado por grandes leis. Há um só rei que é realmente obedecido. (...) Tenho a grande esperança de que tanto os chineses quanto os japoneses sairão de sua idolatria e adorarão a Deus e a Jesus Cristo, o Salvador de todos".

Francisco tentará de tudo para ir à China, aventurando-se, sempre mais, por caminhos não traçados. O que sustenta seu empreendimento é a paixão por Jesus Cristo, o desejo de salvar almas. em 1552, no mês de maio, embarca para a China. Chega à pequena ilha de Sancian (ou Shangchuan), esperando entrar na corte do imperador. A saúde começa a deteriorar-se. Exausto, Francisco morre em 3 de dezembro de 1552. O corpo é enterrado em uma das praias da ilha. Foi beatificado pelo papa Paulo V, em 25 de outubro de 1619, e canonizado por Gregório XV, em 12 de março de 1622.

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