| As dificuldades "POR CAUSA DO NOME"
Sergio Bradanini
A missão de proclamar a Paz do Reino não é trabalho
para quem busca a realização de sonhos triunfalistas, mas
é tarefa para quem encara as dificuldades com profundo realismo.
Por esta razão, após ter apresentado aos discípulos
as possibilidades de uma rejeição da Paz oferecida (Mt 10,13-14),
Jesus com um realismo impressionante, mostra que a missão apostólica
é uma realidade terrivelmente perturbadora.
Em poucas palavras, o evangelista (Mt 10,17-23) mostra que se trata de
algo que incomoda a todos, desde o âmbito público (10,17-18:
tribunais e sinagogas dos judeus; governadores e reis dos pagãos),
até o âmbito familiar mais íntimo (10,21: irmão
contra irmão, pai contra filho, pais contra filhos). As perspectivas,
as dificuldades e os perigos que Jesus apresenta a seus discípulos
parecem formar um quadro um tanto tenebroso e sombrio: processos, flagelações
e muito ódio... é preciso ter efetivamente motivações
bem profundas e, naturalmente, muita coragem para enfrentar uma situação
dessas! No entanto, para a comunidade de Mateus, todas essas dificuldades
e problemas inerentes à missão, são considerados
como uma realidade normal e cotidiana. Ninguém deve cair na ilusão
de que a missão apostólica seja fácil nem deve se
deixar levar por passageiros entusiasmos. Por isso, o discípulo
deve considerar a própria vida à luz da vida e da missão
de Jesus. O dia em que ele se esquecer disso, vai ter que lidar com amargas
decepções.
No entanto, ao se dar conta de que as dificuldades e perseguições
acontecem não por qualquer motivo, mas "por causa do nome
de Jesus", ele acaba percebendo que tudo isso não é
sinal de fracasso, mas é a condição fundamental da
verdade e da autenticidade de sua missão.
O mundo em geral (judeus e pagãos) sente-se radicalmente questionado
pela proclamação da Paz do Reino e reage violentamente contra
seus mensageiros, para salvar suas leis e privilégios religiosos
(tribunais e sinagogas judaicas) ou o seu poder social e político
(governadores e reis pagãos).
Dentro da perspectiva de Mateus e de sua comunidade, a questão
das perseguições não apenas é uma realidade
normal que não deve deixar ninguém escandalizado, mas, positivamente,
é considerada como sinal de autenticidade evangélica que
se transforma em preciosa ocasião de testemunho.
Com efeito, não há nenhum motivo para entrar em pânico
ou em desespero: não há espaço nem para o triunfalismo
nem para o derrotismo! O que é realmente necessário ter
é uma atitude de profunda fidelidade ao Mestre pelos seguintes
motivos: em primeiro lugar, as perseguições "por minha
causa" estão orientadas para o testemunho (10,18); em segundo
lugar, não deve haver nenhuma preocupação do mensageiro
em se autodefender: o "Espírito do vosso Pai falará
em vós" (10,20); em terceiro lugar, é necessária
a "perseverança" para, enfim, "ser salvo" (10,22).
Qualquer atitude que leve a um falso heroísmo não é
permitida de jeito nenhum (10,23): a fuga de uma cidade para outra não
é interpretada por Jesus como um ato de covardia, mas como uma
forma de prudência e nova ocasião de testemunho. Há
sempre outras cidades que esperam a proclamação do Reino!
A idéia global desse texto de Mateus mostra que a missão
exige, em qualquer circunstância, mesmo a mais difícil, que
a mensagem do Reino ocupe sempre o primeiro lugar (está acima da
vida do mensageiro) e que a proclamação do Evangelho seja
mais importante que o "martírio" (está acima da
morte do mensageiro). Os missionários devem, portanto, continuar
sua vida itinerante, não podendo parar numa cidade nem sequer para
sofrer "uma morte gloriosa"...
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