Revista "MUNDO e MISSÃO"

Direitos Humanos

papa Bento XVI visitou, no mês de maio de 2006, o campo de concentração de Auschwitz-Birkenau, na Polônia, onde milhares de judeus foram mortos pelo regime nazista. Ali, tendo diante de si inúmeras cruzes, que lembram mortos de várias nacionalidades, fez perguntas que correram o mundo:

“Num lugar como este faltam as palavras, no fundo pode permanecer apenas um silêncio aterrorizado, um silêncio que é um grito interior a Deus: Senhor, por que silenciaste? Por que toleraste tudo isto? (...) Onde estava Deus naqueles dias? Por que Ele silenciou? Como pôde tolerar este excesso de destruição, este triunfo do mal? Vêm à nossa mente as palavras do Salmo 44, a lamentação de Israel que sofre: ‘...Desperta, Senhor, por que dormes?... Por que escondes a tua face e te esqueces da nossa miséria e tribulação?”.

“Meu Deus, meu Deus, por que me abandonaste?”

(de Cristo, no Calvário)

oltávamos do trabalho uma tarde e vimos três forcas erguidas na praça do apelo: três urubus pretos. A nosso redor, os S.S., com metralhadoras apontadas: a cerimônia tradicional. Três condenados algemados. Um deles, uma criança, anjo dos olhos tristes[...].
Os três condenados subiram em suas cadeiras, juntos. Nos três pescoços foram colocados, ao mesmo tempo, os nós corrediços.
– Viva a liberdade! – gritaram os dois adultos.
O pequeno ficava calado.
– Onde está o Bom Deus? Onde está? – perguntou alguém atrás de mim.

A um aceno do chefe do campo, as cadeiras foram retiradas [...]. Depois começou o desfile. Os dois adultos não viviam mais. A língua pêndula, engrossada, arroxeada. Mas a terceira corda não estava imóvel; embora levemente, a criança ainda vivia...
Mais de meia hora ficou assim, lutando entre a vida e a morte, agonizando sob nossos olhos. Ainda estava vivo quando passei na sua frente. A língua ainda estava vermelha, ainda havia luz em seus olhos. Atrás de mim ouvi o mesmo homem perguntar:
– Onde está Deus, então?
E eu sentia em mim uma voz que lhe respondia:
– Onde está? Ei-lo: está pendurado ali, naquela forca...

(Elie Wiesel: A Noite)

Faces do Mal

s milhares de episódios e dramas que parecem derivar da maldade, advêm da vontade livre dos homens ou das forças do planeta, que se ajustam naturalmente ou respondem às agressões do próprio homem.

Resumindo, dizemos que fazer o mal é desrespeitar, agredir e destruir a si próprio, outras pessoas, a sociedade ou a natureza.

O mal causado pelo homem

1) Quando a vítima é o próprio sujeito da agressão:
• ingestão de drogas ilícitas
• excesso de trabalho
• suicídio

2) Quando as vítimas são os outros:
• homicídios
• latrocínios
• estupros
• agressões
• cárcere privado
• violência psicológica
• extorsão
• seqüestros
• aborto
• escravidão
• imprudência no trânsito

3) Quando a vítima é a sociedade
• genocídio e etnocídio
• guerras (ideológicas, econômicas, religiosas...)
• escravidão
• xenofobia

4) Quando a vítima é a natureza
• desmatamento
• queimadas
• vazamento de substâncias tóxicas e ácidas
• poluição (ar, águas, solo)
• eliminação de espécies animais e vegetais (desequilíbrio ecológico)

 

“Conhecemos a alternativa:
ou não somos livres
e Deus todo-poderoso é responsável pelo mal;
ou somos livres e responsáveis,
mas Deus não é todo-poderoso”.

Albert Camus

O mal causado pela natureza

• tsunames
• abalos sísmicos (terremotos e maremotos)
• furacões e tufões
• tempestades de granizo, areia e água
• secas e inundações
• invasão de insetos, de rãs, de vírus


O Mistério do Mal

mal foi e continua a ser o grande problema humano, a maior indagação do homem, ainda mais quando toca a pele de pessoas inocentes,transformando-as em vítimas da fome, da doença, da violência, de guerras, de catástrofes naturais, etc...

O mal sempre desafiou a humanidade. É um mistério angustiante que a maioria das pessoas não entende e, por isso, não aceita. É um problema cruciante a todos: aos que crêem em Deus e aos que não crêem; às religiões, filosofias, ideologias.

Em debate
Apresenta algumas tentativas de soluções que foram surgindo no curso da história humana, especialmente após as grandes catástrofes. São teorias que tentam justificar alguns aspectos do mal; mas que, ao mesmo tempo, suscitam outras dúvidas e interrogações.

O Mal é um problema insolúvel porque a existência humana é um mistério, ou seja, a humanidade sofre porque está ameaçada pela sua limitação, alienação e angústia.

SOLUÇÃO DUALISTA: Ela pressupõe dois princípios em conflito: uma divindade boa, responsável pelo bem no mundo e uma divindade má, ou princípio da maldade, responsável pela existência do mal. Tal tentativa de solução foi aceita por religiões primitivas e até por algumas facções cristãs heréticas. Aquelas crenças não admitiam que, de um deus bom, pudesse proceder o mal e que, por isso, atribuíam-no ao princípio do mal.

O mal não existe em si mesmo, mas é a ausência de uma perfeição devida, de uma propriedade ou de um bem da vida. O mal não se origina em Deus, mas faz parte da essência da criatura, substancialmente incompleta e defeituosa.

“Somos condenados a ser livres”.

Jean-Paul Sartre, filósofo francês

O problema do mal é inescrutável
(inexplicável), porque Deus é inescrutável.

Apóia-se na frase de São Paulo:

“Ó Homem, quem és tu que queres discutir com Deus?” (Rm 9.20s), ou no profeta Isaías: “Pode um vaso de terra disputar com quem o fabricou?” (Is 45,9). Deus permite em seus planos o mal que, porém, não é entidade subsistente em si, mas algo inerente à fraqueza da natureza criada.

SOLUÇÃO OTIMISTA: (Feliz culpa que mereceu tão um grande Redentor) Liturgia Pascal
Deus não poderia ter criado um mundo melhor que este, não por ser incapaz - não seria então Deus – mas, “entre os mundo possíveis, escolheu o melhor de todos, este que, de fato, criou”.

(Leibniz, filósofo judeu)

Alguns adeptos até justificam a presença do mal moral no mundo como algo bom porque, “se no mundo não tivesse acontecido o pecado de Adão, Deus não teria mandado seu Filho, num gesto generoso para a humanidade”. Difícil, nesta teoria, é explicar a presença do mal físico ou as catástrofes naturais....

A DOUTRINA DA QUEDA PRIMORDIAL OU DO PECADO ORIGINAL
Deus criou tudo bom e perfeito (Gn 1, 31).
O mal, tanto o natural como o moral, foi e é provocado pela malícia ou maldade da humanidade.

NÃO EXISTE, PORTANTO, uma resposta satisfatória à angústia provocada pelo grande mistério do mal, tanto que podemos entender o grito do Papa em Auschwitz-Birkenau, ou de Jó, ou de Cristo na cruz. Não foram gritos de revolta contra um Deus ausente, mas tentativas de entender como os homens podem ser tão cruéis quando se afastam de Deus.

“Muitas vezes, não nos é concedido saber o motivo pelo qual Deus retém o seu braço, em vez de intervir. Aliás, Ele não nos impede sequer de gritar, como Jesus na cruz: ‘Meu Deus, meu Deus, por que me abandonaste?’ (Mt 27, 46). [...] O nosso protesto não quer desafiar a Deus, nem insinuar nele a presença de erro, fraqueza ou indiferença. Para o crente, não é possível pensar que Ele seja impotente ou então que ‘esteja dormindo’ (cf. 1Rs 18,27).

Antes, a verdade é que até mesmo o nosso clamor constitui, como na boca de Jesus na cruz, o modo extremo e mais profundo de afirmar a nossa fé no seu poder soberano. Na realidade, os cristãos continuam a crer, não obstante todas as incompreensões e confusões do mundo circunstante, ‘na bondade de Deus e no seu amor pelos homens’ (Tt 3,4). [...]

A esperança manifesta-se, praticamente, nas virtudes da paciência, que não esmorece no bem, nem sequer diante de um aparente insucesso, e da humildade, que aceita o mistério de Deus e confia nele mesmo na escuridão. A fé mostra-nos o Deus que entregou o seu Filho por nós e, assim, gera em nós a certeza vitoriosa de que isto é mesmo verdade: Deus é amor! Desse modo, ela transforma a nossa impaciência e as nossas dúvidas em esperança segura de que Deus tem o mundo em suas mãos e que, não obstante todas as trevas, Ele vence [...] ”.

(Encíclica “Deus caritas est”, 38 Papa Bento XVI – 25/12/2005).

Basta-nos que nos vejamos semelhantes a Ti, ao menos um pouco, e que unamos nossa dor à tua e a ofereçamos ao Pai.

 

Para que tivéssemos a Luz, veio-te a faltar a vista.
Para que tivéssemos a união, sentiste a separação do Pai.
Para que possuíssemos a Sabedoria, fizeste-te “ignorância”.
Para que nos revestíssemos da inocência, fizeste-te “pecado”.
Para que Deus estivesse em nós, sentiste-o longe de ti.

(Ideal e Luz – Chiara Lubich)

 

“Nem o sofrimento, nem a angústia humana são desejados por Deus. Ele não se impõe. Deixa-nos livres para amar ou não amar, para perdoar ou rejeitar o perdão. Mas Deus nunca assiste passivamente ao sofrimento dos seres humanos. Ele sofre com o inocente, vítima da incompreensível provação; Ele sofre com cada um. Existe uma dor de Deus, um sofrimento do Cristo”.

(Amor de todo amor As fontes de Taizé Irmão Roger de Taizé).

“Onde estava e está Deus nas grandes tragédias humanas? Por que Ele está tão ausente e mudo? Jon Sobrino responde:

‘O fato de Deus deixar as vítimas morrerem é um escândalo irrecuperável, e a fé em Deus tem que passar através deste escândalo. Nessa situação, a única coisa que o crente pode fazer é aceitar que Deus está na cruz, impotente como as vítimas, e interpretar essa impotência como o máximo de solidariedade com elas’. O anúncio missionário, entre a misericórdia e a cruz, revela que o nosso Deus é vulnerável, sofredor e compassivo porque morre com os crucificados da história”.

(Pe. Giorgio Paleari – Mundo e Missão/abril/2001)

Para refletir
“Nem a morte, nem a vida, nem os anjos, nem os poderes celestiais, nem o presente, nem o futuro, nem as forças cósmicas, nem a altura, nem a profundeza, nenhuma outra criatura pode separar-nos do amor de Deus manifestado em Jesus Cristo, nosso Senhor”.

(Rom 8,38 – trecho completo Rom 8,18-39)

“Deus está morto, e foi a sua compaixão pelos homens que o matou”.

(“Assim falou Zaratustra” – Nietzsche)

“Se consideramos só a perfeição de Deus, caímos no desespero, e se consideramos só o homem, caímos no orgulho. Enquanto que, somente considerando Cristo, ao mesmo tempo Deus e Homem, podemos enfrentar lealmente toda a nossa fraqueza e a nossa miséria, no horizonte de um amor misericordioso e pleno de esperança”.

(“Pensamentos” – Pascal)

Envie para a redação a síntese das discussões e/ou dos estudos realizados a partir da leitura de “Em debates”.

Envie para a redação a síntese das discussões e/ou dos estudos realizados a partir da leitura de “Em debate”.
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Apresentamos abaixo os links de vários artigos publicados sobre o tema “O Mal” com objetivo de favorecer a você uma reflexão ampla sobre ao assunto:

- História do Holocausto

- Corrupção Política

- A Droga

“Não te deixes vencer pelo mal, vence antes o mal com o bem”
João Paulo II

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