Revista "MUNDO e MISSÃO"

Drogas

VIDA SIM, DROGAS NÃO!

Costanzo Donegana

A Igreja, na CAMPANHA DA FRATERNIDADE deste ano, enfrenta corajosamente o problema das drogas

Entrei em um shopping imediatamente antes e depois do Natal. Pareceu-me encontrar muitas pessoas "drogadas" (eu também?). Grande pena me deram sobretudo as crianças: os olhos cheios de "drogas" exibidas nas vitrinas e a voz reclamando o que os desejos mandavam.

Fala-se de "drogados" como de um grupo dentro da sociedade, como os leprosos dos tempos antigos, que deviam viver fora da convivência humana, para não contaminar os sãos. Talvez, porém, deveríamos encará-los não como tumores do corpo social, mas como expressão da sociedade doente. É a sociedade que é drogada e, como conseqüência, produz frutos que a ela se assemelham.

Droga e drogas

É esta a leitura que a Campanha da Fraternidade 2001 (CF-2001) propõe no Texto-Base, ao enfrentar o problema das drogas, tema do ano: "Uma sociedade como a nossa, cada vez mais pragmática, insensível, competitiva, consumista e individualista, é uma sociedade que favorece o uso de drogas" (34). Usando o termo ao plural, o Texto-Base abre o leque das substâncias que geram dependência nos usuários e produzem conseqüências muitas vezes graves no nível físico e psíquico (ver quadro).

Domina, na sociedade, uma grande mentira, em parte favorecida pelas políticas públicas e sustentada sutilmente pela publicidade, que apresenta algumas drogas (álcool, fumo) como pouco perigosas ou até associadas a símbolos de força, sucesso, poder, bom gosto e emancipação. O problema, além de cultural, é fundamentalmente econômico: atrás do mundo das drogas, existe uma gigantesca movimentação de dinheiro que se organiza para induzir os consumidores com as argumentações mais convincentes e, aparentemente, inócuas. Comumente, acha-se que os grandes interesses financeiros alimentam só o narcotráfico, que movimenta no mundo, anualmente, valores estimados em torno de 400 bilhões de dólares. Mas também os produtores de álcool e tabaco lucram, muitas vezes, sobre a pele das vítimas.

Problema complexo

Não é possível reduzir a raiz do problema das drogas a um só aspecto: "estamos diante de um conjunto de fatores que, combinados, formam o pano de fundo para se entender esse complexo campo das drogas" (Texto-Base, 48). O mesmo texto nos guia numa aproximação deste quadro: "Há motivações individuais, que vão da busca de prazeres intensos e imediatos (o que pode significar ausência de perspectivas ou descrença num futuro satisfatório), à dificuldade de encarar o mundo com seu próprio potencial (o que pode revelar a existência de problemas psicológicos)" (Ib. 50).

A fragilidade e desequilíbrio psicológico agem de maneira determinante entre os jovens, que experimentam em idade cada vez menor as drogas, tornando-se sempre mais vítimas delas. Pesquisas recentes demonstram que o uso das drogas aumenta de maneira assustadora entre crianças e adolescentes.

A crise da família é também uma incubadeira em que nascem e se desenvolvem as bactérias da droga: vazio afetivo, relacionamentos difíceis ou fracassados entre seus membros provocam fugas sem retorno no álcool e em outras drogas. De outro lado, a família é uma das vítimas mais freqüentes deste fenômeno: violência, destruição do patrimônio econômico, medo... são algumas das graves feridas que ela sofre.

A sociedade atual apresenta-se violenta, anônima, marginalizante; muitas vezes, os valores da liberdade, do amor, da responsabilidade, da fidelidade, da solidariedade são trocados por atitudes fáceis, imediatas, do prazer conseguido logo e sem esforço. O vazio e o comportamento anti-social abrem as portas ao consumo das drogas. Há mais: a ideologia neoliberal com o consumismo tornado filosofia de massa e o dinheiro, considerado o ídolo diante do qual todos devem se prostrar, levaram à subversão dos valores: "a qualidade de vida é confundida com o nível de consumo e com a quantidade de coisas a possuir" (Id., 76). É uma sociedade que perdeu o sentido verdadeiro da vida, com um vazio que nenhum produto sabe preencher. E as drogas se apresentam como oferta de "viagens" para um mundo diferente, ideal.

Luta pela vida

Esse quadro, porém, não pode desanimar quem, cristão ou não, acredita na vida. "Vida sim, drogas não!" é o grito de esperança e de coragem da CF-2001. A prioridade está na escolha da vida que, como conseqüência, acarreta o repúdio às drogas. Para lutar contra grandes males, é preciso possuir grandes ideais. Também porque, na luta contra as drogas, não se trata de sarar doentes, mas de refazer pessoas.

A proposta concreta da CF-2001 "se enquadra num contexto mais amplo e tem por objetivo último colaborar na realização de um novo projeto de vida e sociedade, que, além de questionar a estrutura social, econômica e política[...], deseja mobilizar a todos para ações concretas, que coloquem as bases de uma sociedade justa e solidária" (Id., 127).

A primeira ação - pode parecer estranho - é o convite a uma reflexão ampla, que inclua mudanças de posturas pessoais, gerando gestos de resistência à cultura consumista, até a transformação das estruturas marcadas por uma economia e política que priorizam o lucro e os privilégios, penalizando o homem, sobretudo o pobre.

As indicações concretas, na terceira parte do Texto-Base, são muitas e detalhadas e referem-se às políticas públicas, entre as quais vale a pena lembrar a possibilidade de criar os Conselhos Municipais de Entorpecentes; ressaltam a importância dos grupos de ajuda, que apresentam uma grande experiência positiva, como os Alcoólicos Anônimos (AA) e os Narcóticos Anônimos (NA); valorizam o trabalho de recuperação das comunidades terapêuticas, em expansão em todo o Brasil.

Cada Campanha da Fraternidade é um sonho muito sério. A CF-2001 o é ainda mais. Do compromisso de todos depende que muitos possam voltar à vida.

No que diz respeito ao termo "droga", convém [....] assinalar sua ambigüidade. Embora se deva incluir entre as drogas tanto as substâncias "leves" quanto as "pesadas", as legais e as proibidas por lei, o uso corrente associou a palavra àquelas que são objeto de tráfico ilegal. Ao falarmos de drogas, no plural e sem especificação, queremos nos referir às substâncias capazes de provocar alterações da percepção, do humor e das sensações. Incluem-se, portanto, entre as drogas também o álcool, o tabaco, certos produtos naturais (cogumelos), inalantes (cola, éter) e vários medicamentos (anfetaminas, morfina).

Texto-Base, 16

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