Revista "MUNDO e MISSÃO"
Drogas
Deus conhecia a boa vontade e a ansiedade que o jovem Nelson demonstrava para viver como os primeiros cristãos. Ele já tinha presenciado as tentativas de Nelson para viver em comunidade, junto a outros jovens. A vários amigos Nelson já havia feito a proposta de viverem juntos, colocando tudo em comum. Ninguém abraçava a idéia. Quando ele me confessava aquele desejo, eu lhe dizia: “Calma, Nelson! Deus vai se manifestar na hora certa”. A hora chegou quando Nelson foi conviver com os jovens da esquina Deus escolheu este moço para fazer brotar o Amor no ambiente onde o egoísmo era, até então, a única lei. O amor gratuito motivou Nelson a emprestar aos rapazes sua bicicleta, único meio de que dispunha para se locomover. Seu amor desinteressado ocupou o lugar do medo que poderia demonstrar, se perdesse seu meio de transporte; mas, pelo contrário, despertou nos rapazes o desejo da reciprocidade: eles lavaram e devolveram a bicicleta. O amor que Nelson praticava diariamente, conversando com tais jovens, sem mencionar o nome de Deus, apenas se interessando por eles, foi a semente da Fazenda da Esperança. O INÍCIO Na reunião de grupo, à noite, Antonio expressou publicamente a alegria nunca antes experimentada: ele colocara em prática a frase do Evangelho: “Tudo o que fizerem ao menor dos meus irmãos, é a mim que o farão”. Foi assim: um dia a sua vizinha, grávida, manifestou-lhe um simples desejo: comer abacate. Ele não pensou duas vezes: - percorreu todas as quitandas da cidade até encontrar a fruta desejada. Quando lhe entregou, sentiu no coração uma felicidade indescritível, nunca antes experimentada. Sua alegria contagiou os amigos da esquina, de tal forma, que lhe pediram ajuda. Também eles queriam ser felizes. E assim, um depois do outro, foram abandonando aquele lugar e se juntando ao pequeno grupo, para viver o Evangelho e participar da Missa diariamente. A Fazenda da Esperança tinha nascido, sem que soubéssemos o que Deus tinha planejado. Sentíamos que havia algo especial, porque nossos encontros foram sempre iluminados pela presença de Jesus entre nós. Aquela presença deu o impulso inicial, para que todos aqueles jovens deixassem a casa de seus pais para realizarem o sonho de Nelson: o de viver como os primeiros cristãos, “tendo tudo em comum”. A CAMINHADA Não esqueço o dia em que, meses depois, Nelson foi à sacristia, à noite. Estava derrotado.
– E aí, como estão as coisas?, perguntei-lhe.
Eu quis saber: – Jesus também foi? Fiquei na casa paroquial, pensando: “O que significa isto? Todos foram embora?”. Talvez mais do que nos outros dias, naquela noite, escolhi Deus. Entendi que, na realidade, havíamos alugado a primeira casa por causa de Jesus. De Jesus que sofre no pobre, no drogado, em todos os encarcerados. No dia seguinte, visitando a comunidade, vi que o Beto tinha ficado. Continuamos com ele. Não demorou muito e outros, muitos outros, chegaram. Até hoje não param mais. Jesus nasceu entre nós! Jesus cresceu, as comunidades cresceram, cresceram muito. De uma fazenda surgiram duas, quatro, oito, dez. Hoje são vinte e nove no Brasil e muitas no exterior. Jesus entre nós também nascera na realidade feminina. Quatro anos depois, duas jovens, Iraci e Luci, tomam a decisão de deixar a família, carreira, noivado, empresa, para fazer Jesus nascer também no meio das jovens que começavam a nos procurar para a vida nova, longe de drogas e da prostituição. O mesmo Jesus que nasceu entre nós, cresceu e foi às Filipinas, México, Guatemala, Argentina, Paraguai, Rússia, Alemanha. É sempre o mesmo Jesus, a mesma palavra que transforma os jovens. É Natal! Um Natal que se repete em tantas e tantas esquinas! É SEMPRE NATAL!
A palavra que esse Jesus trouxe, e ainda hoje traz a tantos jovens, é novidade, é a vida nova, é o primeiro contato com Deus. Sem que as pessoas percebam, ela é a tábua da salvação. É bonito ver tanta gente se recuperar, tantas famílias, que estavam destruídas, recomeçarem. É claro que uma árvore frondosa, que tem raízes profundas e que cresceu sem parar, não deixa de dar frutos. Enquanto ela estiver com saúde, dará muitos frutos. Por isso, nós, que estávamos juntos quando nasceu esta árvore, precisamos nos lembrar sempre que foi Jesus que nasceu entre nós. Ele nos fez entender os passos que deveriam ser dados para recuperar a juventude no caminho espiritual, mas também para entender como é importante o trabalho com seus pais. Sem Ele, as coisas se tornam muito mais difíceis. Também Ele nos fez entender que os jovens, egressos da Fazenda, não podiam ficar órfãos. Daí nasceram os grupos de apoio, que reúnem todos os que querem viver o Evangelho no mundo. São os grupos Esperança Viva, hoje mais de 40 no Brasil e em outros países. Enfim, estava no seu divino pensamento, no seu plano e na sua vontade, a Família da Esperança, de consagrados a Deus, que são a alma de toda a Obra. Alguns assumiram votos; outros, promessas. Todos dizem a Deus: queremos Te amar em todos esses drogados. Que família bonita Deus fez nascer! Por isso, o Natal se repete todos os dias da nossa história, na história da humanidade, também na história da Fazenda da Esperança. Uma divina inspiração, cuja aventura nos leva a caminhos ainda por nós desconhecidos. Porém, Deus, no seu amor infinito, já sabe. Nós todos podemos colaborar com Ele; podemos nos colocar à Sua disposição e, assim, com maior facilidade Ele realizará seu Plano de Salvação. É possível que não tenham nascido outras Fazendas da Esperança, por falta de pessoas com suficiente generosidade a doar alguma coisa de seus bens ou o seu tempo. Ou porque alguns jovens, mesmo ouvindo o chamado, ainda não tiveram coragem de dizer seu “sim”. Para Jesus nascer, ele precisa da nossa ajuda.
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