Revista "MUNDO e MISSÃO"
Economia
Libertando-se
do por Sabrina Magnani
Padre Gino Fazzini, um dos idealizadores e animadores espirituais desta campanha, conta como nasceu a idéia deste gesto: “Estávamos celebrando a Palavra do Senhor e a idéia de lavar-nos os olhos uns aos outros com a água do mar, dom gratuito de Deus, nasceu espontaneamente por parte de alguns. E, depois, estimulados por padre Alex Zanotelli, que nos leu um trecho do Apocalipse que diz que na cidade de Deus nascerão árvores cujas folhas curarão os doentes (Ap 22, 2), trocamo-nos folhas, uns aos outros, para testemunhar a nossa vontade de contribuir na construção desta cidade”. Um dos aspectos mais extraordinários, conforme o relato de padre Gino, é que participaram, não só pessoas religiosas, católicas, mas sobretudo muitos não-praticantes. MAIS QUALIDADE DE VIDA Enquanto a atenção da mídia estava focalizada em Riva del Garda, norte da Itália, onde se realizava, nos dias 5 e 6 de setembro, a reunião dos Ministros de Relações Exteriores da União Européia (UE), que se confrontavam com os jovens que pediam uma Europa mais social, solidária e realmente construtora da paz, na bela Igea Marina se discutia como prosseguir um caminho de testemunho sobre a real possibilidade de construir uma sociedade diferente, baseada no respeito ao meio ambiente, na convivência pacífica, na solidariedade, a partir dos gestos mais simples, que a cotidianidade impõe. “Do consumo de guerra ao consumo de paz” foi o título do encontro do qual participaram cerca de 400 pessoas provenientes de toda a Itália, articulados sobretudo em grupos de trabalho, mais do que em debates, para melhor aprofundar os diversos aspectos envolvidos na mudança do estilo de vida. São integrantes da campanha “Balanços de justiça”, que se caracteriza pela intenção de refletir, a cada ano, a respeito dos aspectos cruciais do nosso viver, propondo uma conscientização sobre uma forma diferente de usar os bens e o dinheiro. Na mesa redonda e na assembléia plenária desse último encontro, em Igea Marina, foi salientado o significado da campanha para uma sociedade onde a palavra de ordem é “consumir, consumir, consumir” e onde, a cada dia, os bens são consumidos indevidamente, porque a todos é divulgado que eles trazem a felicidade. Esta campanha, que começou em 1993, já alcançou a adesão de mais de 600 famílias na Itália. O perfil dos participantes corresponde a pessoa entre 25 e 40 anos, com família e um ou mais filhos, consideravelmente aculturado, escolaridade superior, proprietário de imóvel onde reside (para 86%). Os relatórios, referentes ao levantamento estatístico dos resultados da campanha em 2001, evidenciam uma diminuição de 25% de gastos por parte dos adeptos em relação à média de um cidadão italiano. Ainda mais significativo é o percentual de mudanças de consumo observando critérios de justiça: as famílias comprometidas com a campanha efetuaram substituições em 27%, ou seja mais de ¼, do total do seu consumo, tais como aquisição de: produtos eqüo-solidários, alimentos da estação e produtos ecológicos, produtos de baixa transformação, produtos no-profit (que não visam lucros), vestuário com fibras naturais, auto-produção de alimentos, presentes, objetos de decoração, além da importância dada à reciclagem de objetos e roupas e aos meios de transporte alternativos ao automóvel. Os relatórios referentes ao monitoramento de 2002 evidenciam que 26% dos adeptos investem eticamente a totalidade, ou quase, das próprias economias e que a proporção abrangente de capital investido, em base a esses critérios de justiça, chega a 60%. Tais mudanças dos próprios consumos, além da sua diminuição, permitem uma maior qualidade de vida. UMA OUTRA ORDEM FINANCEIRA O interesse sobre o tema das finanças foi o mais visado nesse encontro. À questão “uma outra ordem financeira é possível?” foram apresentadas diversas propostas que delinearam um percurso para o próximo ano. Nesta época, em que os ataques à situação social são gravíssimos, os partidários da campanha se empenharam em elaborar uma espécie de “Código dos Direitos”. Confirmada, depois, a validade de investir as próprias economias como um Banco ético, ou de sustentar as atividades de tantas realidades produtivas no Sul do mundo, pensou-se em fazer um salto de qualidade, buscando alcançar a divisão não só do supérfluo (neste caso, as economias), mas também do necessário: somente assim se poderá construir uma verdadeira ordem fundada sobre a partilha com o outro. Um passo adiante foi enfrentar a questão que parece ser contracorrente, numa sociedade dominada pelo lema do “lucro”: a de reduzir o próprio consumo partindo da redução da própria renda. Padre Gino Fazzini salienta: “Não é suficiente gastar e consumir menos; é preciso também ponderar que, ganhando-se menos, pode-se ter mais tempo para os relacionamentos, para ler, estudar, fazer atividades de voluntariado. Sei que pode parecer um absurdo, sobretudo neste momento de crise econômica, mas é uma forma de tomarmos consciência de que o desenvolvimento, também econômico, que devemos buscar é aquele que coloca no centro a pessoa e não os objetos”. LIBERTAR-SE DO “MERCADO”
Repensar, portanto, o uso do dinheiro e dos bens é o tema principal da campanha para o ano de 2004. Padre Gino continua: “Seria interessante que os participantes renunciassem a ganhar mais e aceitassem consumir menos, não como um sacrifício, mas como um ato voluntário, feito com alegria, porque capaz de dar um verdadeiro sentido às coisas”. O outro grande desafio é o de buscar um outro meio de locomoção. Se a sociedade estimula o uso de recursos energéticos necessários aos sistemas de produção e de transporte, o “balancista” pretende ser um sinal claro e determinado privilegiando os meios de transporte públicos ou a bicicleta, que permitem também um maior contato com as pessoas e um melhor aproveitamento do tempo. Padre Gino conclui: “Pudemos sentir a alegria de estarmos libertos, dentro de nós, deste domínio obsessivo do mercado que continua a nos impor o consumo. Este ‘imperativo’ cultural, antes que político e econômico, é hoje o verdadeiro titereiro (= operador de fantoches, de títeres). A nossa escolha é aceitar de ser fantoche ou pessoa. Nisso, a Igreja tem uma grande responsabilidade: deveria manifestar-se, lançar um verdadeiro grito para dizer que os filhos de Deus não podem ser manipulados. Freqüentemente, esquecemos que nossos pais se negaram a incensar o imperador. Hoje nós não queremos adular este império. Nesta exigência de um estilo de vida mais sóbrio e justo sentimo-nos um só corpo, unidos espiritualmente, com uma grande consciência desta exigência. Jesus é quem nos ajuda a libertar-nos de tudo que nos torna escravos. Repensar, portanto, sobre o uso dos bens e do dinheiro significa, hoje, retomar a nossa posição de pessoas, livres e determinadas, não aceitando a condição de sermos tratados como coisas”. Fonte: Jornal Settimana Os dez mandamentos para consumos sustentáveis 1.º) Comprar “menos” B.E.S.O.S. • É uma proposta solidária individual e coletiva para transformar nossos hábitos de consumo em busca de uma maior austeridade, justiça, respeito pelo meio ambiente e uma economia sustentável para todo nosso planeta. • Site: www.nodo50.org/besos ARGE • Objetivo: As instituições da Igreja devem se tornar modelo para um agir que respeite toda a Criação. Um empenho ecológico nas esferas da liturgia, das pregações e da diaconia faz parte da fé cristã vivida. Por isso, é preciso aperfeiçoar a consciência. É, também, incumbência da Igreja dar assistência ao trabalho ambiental em nível paroquial e diocesano. • Site: http://web.utanet.at/argeschoepfung |
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