Sem TRABALHO, por quê?
Tentativas de uma resposta
Marcos Peixoto Mello Gonçalves
Sem trabalho, por quê?
Por várias razões entrelaçadas. A primeira delas
é a prevalência de um sistema de produção de
bens e serviços que privilegia o desejo de propriedade e posse
das riquezas materiais e coloca este desejo acima da consideração
da vida e da dignidade dos seres humanos; um sistema que dá mais
importância à capacidade de ganhar dinheiro do que à
capacidade de trabalhar pelo bem comum dos irmãos; um sistema que
estimula os mais espertos a especular em cima de alguns fatos econômicos,
tirando vantagens enormes destes fatos, mesmo que seja à custa
do empobrecimento dos demais. Um sistema em que a coisa, o ter, tem precedência
em relação ao ser, ou seja, à formação
espiritual do seres humanos.
Esse sistema é, atualmente, conhecido como capitalismo financeiro
neoliberal. E apesar de representar uma evolução sobre o
antigo sistema feudal de produção de bens e serviços,
ainda corresponde a um estágio da evolução da espécie
humana em que o egoísmo predominam sobre o sentimento de solidariedade,
de cooperação e de partilha. O atual sistema capitalista
é, então, a primeira e mais importante razão que
hoje desemprega, marginaliza e exclui da vida social, do trabalho e do
emprego, nada menos do que aproximadamente treze por cento da população
brasileira com capacidade de participar da produção de bens
e serviços, aproximadamente dez milhões de cidadãos.
Ao apontarmos o sistema capitalista financeiro neoliberal global como
uma das raízes do desemprego precisamos ressalvar, entretanto,
o benefício da competição para a eficiência
de qualquer sistema econômico, e como conseqüência, o
prêmio para a competição mais eficaz, o lucro, tomado
como medida da eficiência competitiva. Caso contrário, estaríamos
deixando de reconhecer os méritos dos mais aplicados, o que seria
uma injustiça. O que é preciso é condenar a competição
e a concorrência predatórias, selvagens, abusivas. Por isso
é que as legislações vêm se preocupando em
proteger a competição e a concorrência saudável
ao desempenho dos sistemas econômicos.
Mas há uma segunda razão, tão forte quanto a primeira:
é o avanço da ciência, da técnica, do computador,
da informatização, do raio laser, da fibra ótica,
das comunicações, da televisão via cabo e via satélite,
da Internet, da automação. Enfim, da chamada terceira revolução
tecnológica. Ora, todas essas novas invenções e inovações
são muito boas e são muito bem vindas, porque elas permitem
produzir uma quantidade de bens e serviços cada vez maior, de forma
cada vez mais rápida, a um custo cada vez menor, melhorando constantemente
a qualidade dos produtos, ao mesmo tempo em que cria novas facilidades
para enfrentarmos a vida.
Ocorre, entretanto, que a revolução tecnológica,
representada pela aliança entre a informática, a comunicação
e a televisão, está mudando as bases da civilização
atual. O que está ocorrendo hoje em dia é que a revolução
tecnológica está formando a terceira grande onda da civilização.
É a civilização baseada na economia de serviços
que a revolução tecnológica possibilita. Primeiro
foi a agricultura, depois a indústria e agora é o serviço.
Os índices estatísticos mostram, há bastante tempo,
uma contínua diminuição dos empregos industriais
em todo o mundo e uma contínua expansão dos empregos no
setor dos serviços. E no Brasil vem acontecendo a mesma coisa e,
de maneira geral, não é ruim, porque o trabalho no setor
de serviços é freqüentemente mais confortável
e leve do que o trabalho no setor industrial. Além do mais, o trabalho
no setor de serviços é mais flexível quanto aos horários,
uma vez que não depende da máquina.
A explicação da segunda razão da crise do emprego,
a revolução tecnológica que funda a economia de serviços,
já nos mostra a terceira razão do desemprego: a falta de
educação, de boa escolaridade básica, média
e superior para todos os cidadãos do país, a falta de preparação
profissional para um tipo de economia baseada na prestação
de serviços. Há sim, nos dias que correm, muitas áreas
carentes de trabalhadores bem qualificados. Tomemos, por exemplo, a área
de turismo, para não falarmos da área da informática,
da comunicação, do comércio internacional, dos negócios
agrícolas, da capacidade de criar e manter microempresas ou do
chamado terceiro setor, responsável pelos trabalhos. Um leitor
menos avisado poderia pensar que o exemplo é inadequado, porque
o turismo seria uma atividade econômica marginal. Ledo engano. O
turismo sustenta a Espanha e é um dos setores mais dinâmicos
da economia mundial. E nessa área o Brasil encontra quase tudo
por fazer, podendo criar milhares de microempresas e empregos.
A quarta causa do desemprego é a invasão ou ameaça
de invasão dos novos bárbaros. São aqueles que manipulam
mais de dez trilhões de dólares por dia. Para se avaliar
a força deles, basta lembrar que a soma do valor de todos os produtos
e serviços produzidos durante um ano inteiro no Brasil não
chega a um trilhão. Também em razão da revolução
tecnológica eles são capazes de entrar em um país
pela manhã e de sair à noite. Derrubam moedas nacionais
e são capazes de empobrecer um país da noite para o dia.
Mas há uma quinta causa que, se não existisse no Brasil,
provavelmente nem os novos bárbaros conseguiriam invadir o nosso
território e empobrecer o nosso povo. E é uma causa que
todos podem entender com muita facilidade. O fato é o seguinte:
os governos da união, dos estados membros da federação
e dos mais de cinco mil municípios gastam mais do que podem arrecadar
em tributos, fazem empréstimos sem poder pagá-los e permitem
que a sociedade gaste mais com compras no estrangeiro do que ela pode
ganhar vendendo os produtos brasileiros lá fora do país.
De modo que os políticos que governam deveriam aprender com o bom
pai de família que não se gasta mais do que se ganha, não
se pede emprestado, se já se sabe que não se vai conseguir
pagar o empréstimo, nem se deve gastar com compras mais do que
se ganha. Agora, quando o país vai mal das pernas, já não
tem mais como pagar as contas e não sabe fazer dinheiro vendendo
seus produtos no estrangeiro, aí os novos bárbaros, que
a mídia chama de especuladores, vêm, arrasam e não
adianta nada ficarmos chorando.
Melhor então será lutarmos para participar da elaboração
dos orçamentos dos governos, garantindo a desconcentração
da renda e exigindo a aplicação dos recursos necessários
à preparação dos cidadãos para a economia
baseada nos serviços.
Não é uma utopia possível?
Marcos Peixoto M. Gonçalves é professor. da Faculdade de
Direito da Universidade Mackenzie
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