Revista "MUNDO e MISSÃO"

Educação

Jan. e Fev. de 2007 - Edição n.º 6
Em Debate é parte integrante da Revista MUNDO e MISSÃO - n.º 109

Vendo que Moisés tardava em descer do monte, o povo juntou-se contra Aarão e disse: “Levanta-te, faze-nos deuses que vão diante de nós; porque não sabemos o que aconteceu a Moisés, que nos tirou da terra do Egito”.

Aarão disse-lhes: “Tomai os brincos de ouro de vossas mulheres, de vossos filhos e de vossas filhas e trazei-os”. O povo fez o que lhes mandara, trazendo os brincos a Aarão. Ele, tendo-os tomado, mandou-os fundir e formou deles um bezerro fundido; e disseram: “Estes são, ó Israel, os teus deuses que te tiraram da terra do Egito”

(Ex 32, 1-4)

 

"Quando o céu se esvazia de Deus, povoa-se de ídolos"

Karl Barth, teólogo suíço

 

Satanismo como idolatria e os pecados capitais

Os que idolatram o demônio – e são tantos atualmente! –, argumentam que ele não é um adversário de Deus, mas uma força oculta na natureza. Tais pessoas encorajam os pecados capitais, pois “são virtudes que levam à consumação de nossos desejos. Os rituais consistem em uma grosseira terapia psicológica, misturada com altares, gongos, velas, lasers e nudez, acessórios necessários, pois os homens precisam de cerimônias e rituais, fantasia e encantamento que as religiões forneciam no passado”.

O diabo no imaginário cristão, Carlos R. F. Nogueira, Edusc, 2000, pág. n.º 112

s ídolos se colocam na dimensão do “ter”; Deus na do “ser”. São vários os tipos de “ter” com que o homem se ilude realizar-se, construir sua personalidade: os bens econômicos, o poder, o possuir uma mulher (ou um homem), o saber, o pertencer a determinada religião, o ter alcançado alto nível moral, etc. São roupagens que podem esconder a sublime nudez que constitui a pessoa na sua dignidade essencial, ou disfarçar uma falta profunda do ser. É essa armadilha mentirosa da sociedade de consumo, que promete às pessoas fazê-las realizadas e felizes com os bens que lhes oferece, mas as devora por dentro, deixando-as como manequins sem coração.

(Eles, os excluídos, de Costanzo Donegana, Cidade Nova, São Paulo, 1995)

Adorar alguém
é constatar
que ele ou ela se
parece conosco

 

Não é verdade que,
na nossa sociedade,
o sagrado desapareceu,
mas a verdade é que passou
para outras coisas (ídolos)

 

A vaidade em números

O instituto de pesquisa Ipsos entrevistou 43.734 pessoas, de ambos os sexos, em nove capitais brasileiras, entre abril de 2005 a março de 2006, sobre a relação da população com a aparência pessoal.

Chegou aos seguintes resultados:

• 78 % da população preocupam-se muito com a aparência pessoal.
• 31% dos homens e 34% das mulheres gostam que sua aparência seja impecável.
• 38% dos adolescentes entre 13 e 17 anos se preocupam demais com ela, por se tratar de uma fase de crescimento e aceitação no grupo.
• 35% dos jovens entre 18 a 29 anos têm a mesma preocupação, referente, porém, à afirmação pessoal e profissional.
• A maior preocupação é dos cariocas (37%), seguidos pelos bahianos (36%) e paulistas (33%).

mberto Galimberti identifica sete novos vícios, que se agregam aos sete pecados capitais, com uma diferença fundamental: eles não são pessoais (como os capitais), mas são tendências coletivas, às quais o indivíduo não pode opor uma resistência eficaz, pessoal, sob pena de perder a própria liberdade e de exclusão social. São os seguintes: consumismo; conformismo; despudor; sexomania; sociopatia; denegação; vazio. (Os Vícios Capitais e os Novos Vícios, São Paulo, Paulus, 2004) Destes, os quatro primeiros são um convite à idolatria, na medida em que tendem a uma adoração coletiva de algo imposto pela sociedade ou pela mentalidade atual.

O CONSUMISMO cria uma mentalidade a tal ponto niilista que leva o indivíduo a acreditar que somente adotando o princípio do consumo dos objetos, é possível garantir identidade, status social, exercício da liberdade e bem-estar.

O CONFORMISMO elimina a liberdade pessoal, à medida que esta se transforma em uma “consciência conformista”, à qual se pede apenas colaboração, independente dos objetivos que são de competência de outrem.

O DESPUDOR é a “ex-posição”, a publicação do privado, a mercantilização do corpo. A sociedade consumista, em que as mercadorias devem ser expostas, contagia o comportamento humano. Algumas pessoas têm a sensação de existir somente se se colocam à mostra, como mercadoria.

A SEXOMANIA é a saturação de manifestações sexuais, em busca do próprio prazer, através da pornografia em revistas, no cinema, na televisão, na internet e na solidão onanista dos chats, em que o princípio da distribuição maciça de sexo torna normal o que está difundido em todo lugar.

“Todo ser humano
se torna imagem do
deus que adora.
Quem ama a
corrupção, apodrece”

Thomas Merton

“A única adoração
que agrada a Deus
é a que procede
do coração”

Jean Gibleti

A morte
da liberdade

ão jogar por terra o ídolo, mas livrar-se da idolatria. Esta será a tua coragem!”, exclamou Nietzsche. O filósofo alemão explicitou que a idolatria distorce o sentido da existência, porque aprisiona a liberdade, à medida que ela, idolatria, exige um número crescente de objetos para a satisfação dos desejos humanos. Quem adora o ídolo, paga um preço muito alto: é o preço da liberdade interior, à qual renuncia.

Você tem a coragem de ser livre?

m outubro de 2005, Bento XVI declarou que a falsa forma de vivenciar a religião baseia-se na idolatria, na tentação de buscar a salvação por meio de bens materiais, do poder e do sucesso.

E observou:

“O ídolo nada mais é que uma obra nas mãos do homem, um produto dos desejos humanos, e impotente para superar a limitação da criatura. Ele tem sim, uma forma humana, com boca, olhos, orelhas e garganta, mas é inerte, sem vida, como uma estátua triste”.

Portanto, o pano de fundo das idolatrias é o egoísmo:

- a busca do poder, do prazer, do sucesso e a busca do dinheiro, para que tais sensações aumentem, sem a preocupação com o bem dos outros. Ora, o cristianismo ensina que o próximo deve ser tratado com o mesmo carinho com que o Cristo nos tratou. “Tudo o que fizerdes ao menor dos meus irmãos é a mim que o fizestes”. Assim,compreende-se que a busca de ídolos é uma total alienação da pessoa em relação aos seus reais objetivos. Nessa alienação e fuga talvez os cristãos tenham sua parte de culpa, por não terem sabido apresentar o cristianismo como a religião da vida, da alegria verdadeira, do amor.

Por se terem apresentado como pessoas tristes, fechadas, unicamente preocupadas em não pecar. Por terem seguido praticamente um outro ídolo, o farisaísmo, isto é, a preocupação com a observância das leis e da pureza interior e por terem esquecido a busca e o seguimento autênticos de Jesus Cristo. O preço a pagar pela renúncia ao ídolo é enorme, porque implica vencer uma tendência coletiva, superior ao indivíduo e, muitas vezes, contra a pessoa de cada um. Portanto, a defesa da própria liberdade exige um preço muito alto. Mas é um preço ao qual cada um precisa se dispor.

Os jovens e a idolatria

“Jovens, não cedam às falsas ilusões e modas efêmeras que comumente deixam um trágico vazio espiritual! Rejeitem as seduções do dinheiro, do consumismo e da violência que por vezes praticam os meios de comunicação. [...] Pelo contrário, façam escolhas corajosas, se necessário heróicas, para seguir Cristo rumo à santidade, porque a Igreja precisa de testemunhas do amor contemplado em Cristo, que saibam mostrá-Lo a quem ainda O troca por coisas insignificantes”.

(João Paulo II, Mensagem para o 20.º Dia Mundial da Juventude, Colônia, na Alemanha, de 16 a 21 de agosto de 2005).

“A diferença não é mais entre
pessoas religiosas e atéias, mas
entre idólatras e não-idólatras”

Enzo Bianchi, monge

NOSSO CONVITE!

MUNDO e MISSÃO propõe aos seus leitores que se reúnam EM DEBATE nas escolas, paróquias, grupos de jovens, seminários, conventos, centros de formação... Depois, encaminhem, por favor, para nós, questionamentos, reflexões, opiniões, dúvidas, para que possamos compartilhar com os outros leitores. Participem!

Enviem as conclusões (pessoais ou de grupo) para:
Editora MUNDO e MISSÃO
Rua Joaquim Távora n.º 686 – Vila Mariana
São Paulo – SP – 04015-011
E-mail: mundomissao@terra.com.br

Apresentamos abaixo os links de vários artigos publicados sobre o tema Idolatria x Liberdade com objetivo de favorecer a você uma reflexão ampla sobre ao assunto:

- A Idolatria do Dinheiro – Raiz de Todos os Males

- Bento XVI critica Idolatria do poder e do Dinheiro

- Ídolos e mercadorias na vitrine

- Idolatria

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