Revista "MUNDO e MISSÃO"

Educação

Outubro de 2007 - Edição n.º 13
Em Debate é parte integrante da Revista MUNDO e MISSÃO - n.º 116

ão tempos em que os que cuidam, não são cuidados; os que educam, não são valorizados; os que amam, sofrem com o deboche dos que não acreditam mais no amor. Assim, apatias e desencantos tornam mais difícil a arte de educar. Feridos em sua dignidade, os professores resistem bravamente.

Uma pesquisa, recentemente divulgada pela UNESCO, em parceria com a CNTE (Confederação Nacional dos Trabalhadores em Educação), comprova, a partir de seis capitais brasileiras (São Paulo, Rio de Janeiro, Salvador, Porto Alegre, Belém e Brasília) que a violência é uma penosa realidade dos trabalhadores em educação:


- 30% dos entrevistados admitiram já terem visto uma arma de fogo na mão de alunos; 86% admitem haver violência em seu local de trabalho; mais de 50% afirmam haver casos de furtos nas escolas onde trabalham. Mas, o mais preocupante é que “a violência conseguiu impor a sua lei do silêncio”, explica Miriam Abramovay, uma das coordenadoras da pesquisa, já que a maioria diz não saber da atuação de gangues e do tráfico de drogas.

Jussara Dutra, presidenta da CNTE, vê a violência dentro da escola como um reflexo das desigualdades sociais de um país marcado pela competitividade e supremacia de uns sobre os outros. Miriam Abramovay avalia que, com a democratização do ensino, a violência aumentou. “Os professores, acostumados a uma elite na sala de aula, estão completamente despreparados e desamparados para a democratização. A sociedade é tão excludente que a escola se tornou um retrato disso, e a violência faz parte dela”.

(Folha de SP, 30/08/2006)

Os próprios professores reconhecem os seus desafios. Sabem que precisam estudar e compreender a realidade do mundo e da comunidade escolar. Precisam acompanhar as inovações tecnológicas e da informação e rever as suas práticas. Tudo isto, fora de condição de números, como desejam muitos gestores educacionais. Afinal, professores são sujeitos, humanos, portadores de desejos, direitos e dignidade. E suas práticas pedagógicas resultam de suas trajetórias pessoais, de seus compromissos com o ser humano e de seus conhecimentos e aperfeiçoamento profissional. Aí reside a sua dignidade, a ser resgatada!

Nei Alberto Pies
prof. do Inst. Estadual Cecy Leite Costa – Passo Fundo - RS

Esta edição foi elaborada com a contribuição especial de estudantes e educadores de escolas estaduais e particulares das cidades de Passo Fundo-RS, Rio de Janeiro-RJ, Araxá-MG e São Paulo-SP. A todos, parabenizamos e expressamos nossos sinceros agradecimentos! E renovamos o convite para que outros grupos de estudantes, educadores e pensantes de todas as áreas do conhecimento apresentem sugestões de temas e colaborações! Participem!

“Os governantes aplicam sempre o mesmo discurso que mescla incompetência, impotência e hipocrisia: o Estado não tem recursos para pagar melhor os seus docentes. Esse pragmatismo de ocasião encobre uma verdade que ultrapassa todos os governos: a sociedade não parece muito interessada em colocar o ensino público básico como prioridade.”

(Juremir Machado da Silva
juremir@correiodopovo.com.br)

“Fico com vergonha de dizer, mas meu salário é de R$ 650,00! Descobri que um parlamentar brasileiro custa R$ 10,2 milhões por ano. São os parlamentares mais caros do mundo. Na Itália, custam R$ 3,9 milhões; na França, pouco mais de R$ 2,8 milhões; e na Argentina, R$ 1,3 milhão. Aqui, um parlamentar custa ao país, por baixo, 688 professores com curso superior!”

(professor de Física da Bahia)

“Aqui dentro, o senhor pode mandar. Mas, lá fora, o senhor pode até perder a cabeça. Alguém pode cortar ela fora.”

(ameaça de um aluno a um professor dentro da sala de aula)

“Desistir... eu já pensei seriamente nisso, mas nunca me levei realmente a sério; é que tem mais chão nos meus olhos do que cansaço nas minhas pernas, mais esperança nos meus passos, do que tristeza nos meus ombros, mais estrada no meu coração do que medo na minha cabeça.”

(Geraldo Estáquio de Souza)

Não há dúvida: a vida é a melhor escola. Que os mestres não esqueçam: este nosso chão é o único que temos. E de que valem as melhores aulas, se não nos ensinam a tornar mais decente a vida no planeta? Mais humana a convivência entre as pessoas?”

(José Dias Goulart)

“Sou professor a favor da esperança que me anima, apesar de tudo. Sou professor a favor da boniteza de minha prática, boniteza que dela some se não cuido do saber que devo ensinar, se não brigo por este saber, se não luto pelas condições materiais necessárias sem as quais meu corpo, descuidado, corre o risco de se amofinar e de já não ser o testemunho que deve ser de lutador pertinaz, que cansa mas não desiste.”

(Paulo Freire - Pedagogia da Autonomia – contribuição de João Henrique da Silva, do Entre Jovens)

ulas de filosofia, sociologia e ensino religioso são ótimas oportunidades para instigar jovens à reflexão. “Pensar bem nos ajuda a viver melhor”, já diziam os gregos. São, também, espaços onde eles podem se expressar, se comunicar. Eles gostam de ser ouvidos e gostam de conversar sobre os seus temas e os da atualidade. Assim, foi proposto a um grupo de estudantes do ensino médio do Instituto Estadual Cecy Leite Costa, de Passo Fundo, RS, o tema: PARA QUÊ PROFESSOR? Aceita a provocação, escreveram, conversaram e se reuniram para debater o tema, em um encontro específico. Na ocasião, foi-lhes apresentada uma síntese das idéias colhidas de suas escritas.

Três temas foram aprofundados:

- “a desvalorização do professor”, “pais e professores: seus papéis e responsabilidades” e “o jovem, sua realidade e a escola”. Num papo descontraído, foram tecendo idéias. “O professor”, diziam alguns, “é desrespeitado e desconsiderado como profissional, embora toda a sociedade dependa dele”. Outros lembraram que é fácil distinguir o professor que ensina porque gosta, daquele que ensina por obrigação; o que apresenta coisas além do seu conteúdo é diferenciado e suas aulas rendem mais. Os pais são a base de nossa educação.

Educam conforme sua experiência, apoiada no passado. Já o professor tem a função de complementar a educação, no presente e para o futuro. “Bons pais são os que nos mostram os caminhos, mas não os impõem. Fazem a gente assumir as responsabilidades”. Na visão de alguns, escola é um ponto de encontros; de outros, é o lugar que permite aos jovens o exercício da auto-revelação. Mesmo que muitos não saibam aproveitar esta fase de suas vidas, a escola é necessária porque ajuda na emancipação do jovem e o prepara para o futuro.

Foi maravilhoso e empolgante!
Valeu, galera!
Nei Alberto Pies

“Hoje em dia os jovens não dão importância ao trabalho do professor. Julgam-se acima dele e acham que podem tudo em suas aulas. Mas, no futuro, estas atitudes poderão trazer sérias conseqüências e aqueles jovens sentirão falta de quem tanto se dedica a eles hoje.”

(Maithê Medeiros, 16 anos)

“Para quê professor? Tudo o que aprendemos fora da escola não é suficiente para nós e nossa vida? Para quê professor se o mais difícil é a vida que nos ensina?”

(Fabiane Santos, 16 anos)

“Professor é aquele que, além de ensinar, está sempre disposto a ajudar. Às vezes, fico mais tempo com meus professores do que com meus pais”

(Elisiane Scheffer Caetano,16 anos)

“Ser professor exige dedicação, equilíbrio, força de vontade e, principalmente, paciência. O que eu acho legal é a troca de conhecimentos entre professor e aluno, porque, além de ensinar, o professor também aprende”.

(Jéssica Ribeiro, 16 anos)

“...a grande e maravilhosa tarefa do professor: transformar um aluno desinteressado e “ignorante” em alguém que se preocupa com a auto-educação.”

(Bárbara K. H. Santos, 16 anos)

“O professor é diferente dos pais que dão educação, enraizados no seu passado. O mestre deve educar para o presente, para que possamos sonhar com um perseverante futuro.”

(Fernanda Rech Rodrigues, 16 anos)

Alunos do 2º ano do Ens. Médio – Inst. Estadual Cecy Leite Costa – Passo Fundo, RS

Eduardo M. Pereira, 16 anos
2.º ano do ensino médio
Inst. Estadual Cecy Leite Costa
Passo Fundo-RS

“O professor me ensina a estudar e me orienta para eu aprender. Mesmo com tantas informações disponíveis, ele seleciona o que realmente preciso saber nessa idade. Sei que posso ler sobre qualquer assunto sem sua ajuda, mas prefiro que ele me oriente sempre. Ele também me ajuda a vencer as provas da vida, dando-me uma visão de futuro.”

(Rafaela D’Eluz Giordani, 12 anos)

“Mesmo com a tecnologia, os professores são muito importantes, pois escolhem a maneira mais simples de explicar e respondem a perguntas específicas.”

(Paulo Vitor, 13 anos)

“O professor nos ajuda a entender o que precisamos, prepara-nos para o que está por vir e nos guia para o lado certo da vida. Ele nos orienta a pesquisar na internet e nos livros, esclarece nossas dúvidas, transmite conhecimentos através de dinâmicas, jogos, ou seja, de uma maneira mais gostosa de aprender.”

(Luíza Souto de Lacerda, 13 anos)

Alunos da 7.ª série do Colégio Dom Bosco - Araxá-MG

“O professor exerce, além da função de transmitir conhecimento, uma influência na vida pessoal e profissional de seus alunos. Porém, essa influência varia de professor para professor, conforme seu relacionamento com os alunos.”

(Leonardo Rezende Cecílio)

“O principal papel do professor, diante da instauração das mídias globais, é o de formar caráter e transmitir valores. Utilizando-se da abrangência de informações que estas mídias oferecem, o professor pode preparar temas contextualizados para suas aulas, não se limitando aos conteúdos, mas instigando seus alunos a se tornarem cidadãos analíticos e conscientes.”

(Verena Duarte)

Ambos do 3.º ano Ensino Médio – Colégio Santa Marcelina – Rio de Janeiro, RJ

“Nessa era da tecnologia da informação, alguns pensam que o professor não é mais necessário. É uma conclusão errada, pois o professor não só ensina matérias, mas ensina a estudar, a buscar o aprendizado, a viver e a se relacionar em sociedade. São ensinamentos que não podem ser adquiridos só através da internet ou dos livros.”

(Daniel Augusto Ri Salvadori, 14 anos)

“Os professores nos ensinam muito mais do que matérias. Eles nos dão lições de vida.”

(Flávia Munhoz Granja, 14 anos)

Ambos do 9.º ano ensino fundamental Colégio Nossa Senhora do Morumbi – São Paulo, SP

A vez dos pais e professores...

“Sem o professor as novas gerações perderão um aliado importante na corrida pelo “ouro” do conhecimento. Perderão um amigo e companheiro na busca da sabedoria, que torna a vida cheia de significado”.

(Leonardo M. Foschiera, professor, 50 anos)

“É preciso professor para educar, ensinar, preparar os jovens para a vida futura. Mas, para isso, o Estado deve lhe proporcionar condições dignas de trabalho, bem como salário e estrutura”.

(Vandir Antunes, pai de aluno, 58 anos)

“O professor, queiram ou não, é insubstituível. Além de propor valores fundamentais que orientam a vida, ele pode vivenciar o diálogo, a partilha, a compreensão, a solidariedade, a justiça... A construção do conhecimento vai se estabelecendo na perspectiva da construção de um novo ser humano e de uma outra Humanidade possível”

(Onésio Primo Longhi, 48 anos, professor)

Exorcismo aos professores

Vinde, oh sacerdotes sapienciais!
Celebrai a vida, o conhecimento,
uma Santa Missa para salvar-nos.
Exorcizai meu povo
dos seus demônios do preconceito,
dos maus espíritos
da ignorância e medo.

Jonathan Constantino, do Entre Jovens

Para se entender essa questão é preciso resgatar parte da história desse processo. Com a disseminação do ensino primário, no Brasil, foi necessário aumentar a mão-de-obra que atendesse a demanda. Os governantes deliberaram que a inserção feminina nesse universo seria o ideal como papel social regenerador. Para a mulher foi dado um papel de continuidade de senhora do lar, dócil e amorosa, fator que agregou o princípio da vocação, sem o reconhecimento profissional. Partindo desse pressuposto básico, a profissão docente nasce com o paradigma da desqualificação. Para ministrar aulas não era exigida qualificação específica.

Já na Didactica Magna de 1657, de Coménius, o professor deveria trabalhar menos e ensinar mais, ajudado por instrumentos que facilitariam o ensino – como o livro didático. Isso eximia o professor de saber o todo do que ia ensinar e, por não precisar trabalhar muito, também não precisava ganhar muito. Ao longo da história do magistério, no Brasil, houve uma luta estabelecida para o reconhecimento da profissão, como merecedora de qualificação, respeito e salário justo. Talvez o correto seja não ser só vocacionado, nem apenas profissionalizado, mas ter, na esperança e na paixão de ensinar, o caminho para a humanização.

Soloá Citolin, pedagoga, psicopedagoga e arteterapeuta

Professor, um mediador?

A velocidade das informações, na atualidade, dá-nos a sensação de que nada é duradouro, que não são mais as idéias que podem resolver os grandes problemas da humanidade. Mas ainda são os bons pensamentos que movem o mundo. E dizer o que pensamos do mundo, das coisas e das pessoas permite sermos reconhecidos, mas também cobrados em nossa coerência. Idéias podem agradar ou desagradar. Quando autênticas, críticas e bem elaboradas, certamente geram instabilidades, pois incomodam os que querem manter tudo como está.

Parece-nos, então, fundamental o papel do professor como um ser em relação, mediando a construção do conhecimento. O professor e a escola constroem condições para a sistematização das informações, hoje amplamente disponíveis a todos. A orientação no estudo, o diálogo e a convivência transformam informações em conhecimento. E o conhecimento gera instrumentos que permitem a todos uma maior compreensão de mundo e, conseqüentemente, uma melhor intervenção nele. Sozinhos e isolados, nossos conhecimentos se perdem.

Nei Alberto Pies

Educação: lugar comum?

Talvez as tarefas de ensinar e de aprender tenham se tornado “lugar comum”. Daí a tamanha indiferença com que a sociedade as trata. É próprio dos seres humanos estabelecer relações, qualificá-las, saber os seus porquês. Nascemos de uma relação e nos fazemos na relação. Fora dela não existe vida humana. Relação existe quando um interage com o outro, não como o mesmo, como qualquer um, como um “lugar comum”. É da diferença que brota a possibilidade de uma relação. É do reconhecimento que brota a qualidade da relação. Ora, aprender e ensinar só podem ser entendidos em relação; constituem-se na relação e constituem relações. Por isso é que a educação é essencial à vida humana e acontece o tempo todo, em todo lugar e ao longo de toda a vida.

A educação escolar é uma forma específica de estabelecer a relação de ensino-aprendizagem. Nela, a relação entre o sujeito-professor e o sujeito-educando deve formar o núcleo central. Porém, os conhecimentos, as linguagens, as técnicas, os conteúdos, muitas vezes assumem esse lugar central. Daí, imaginar que um dos sujeitos seja transformado em “lugar comum”, ou transformar a própria educação num “lugar comum”, é inviabilizar qualquer mediação, é não fazer educação. Por isso, a educação é, acima de tudo, uma mediação para a humanização das pessoas através de relações autenticamente educativas. Afinal, a educação é, acima de tudo, a construção da diferença, é fazer a diferença. Nela não há lugar para a mesmice, a repetição, o “lugar comum”.

Paulo César Carbonari
prof. de Filosofia no Instituto Berthier
Passo Fundo-RS

Como nasceu o Dia do professor?

O Dia do Professor é comemorado em 15 de outubro, dia consagrado à educadora Santa Tereza D’Ávila. Foi nesse dia, no ano de 1827, que dom Pedro I baixou um Decreto Imperial criando o Ensino Elementar no Brasil. Pelo decreto, “todas as cidades, vilas e lugarejos tivessem suas escolas de primeiras letras”.

NOSSO CONVITE!

MUNDO e MISSÃO propõe aos seus leitores que se reúnam EM DEBATE nas escolas, paróquias, grupos de jovens, seminários, conventos, centros de formação... Depois, encaminhem, por favor, para nós, questionamentos, reflexões, opiniões, dúvidas, para que possamos compartilhar com os outros leitores.

Participem!

Enviem as conclusões (pessoais ou de grupo) para:
Editora MUNDO e MISSÃO
Rua Joaquim Távora n.º 686 – Vila Mariana
São Paulo – SP – 04015-011
E-mail: mundomissao@terra.com.br

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