Revista "MUNDO e MISSÃO"

Atualidades no Mundo - África

E elas não voltaram para casa

Patrizia Bergamaschi

Quem fica conhecendo a história dessa missionária comboniana, por certo experimenta dois
sentimentos antagônicos: horror e admiração. O primeiro explode com indignação, pois descobrimos até onde pode chegar a infâmia e a covardia; o segundo encontra eco naqueles que acreditam que não se pode nunca cruzar os braços, mesmo diante do absurdo e da tragédia

A história de irmã Raquel Fassera chegou a meu conhecimento não como mais uma notícia, entre as muitas trágicas e sangrentas, que nos vêm da África. Diante dessas, não sabemos nunca o que pensar, como reagir, o que fazer para tentar mudar alguma coisa. Tudo é sempre tão distante, tão impossível.
Ainda bem que essa jovem missionária que trabalha em Uganda resolveu pensar de outra maneira e se arriscar, caso contrário, mais de 100 meninas, entre 13 e 16 anos, estariam presas nas mãos dos guerrilheiros do Lord's Resistence Army - LRA -, como "esposas" de oficiais.
O tipo de acontecimento que mudou radicalmente a vida de Raquel não era novidade para ninguém: soldados dos vários grupos rebeldes que atormentam a população civil de Uganda costumam raptar meninos e meninas, com as mais diversas e perversas finalidades. Em 1989, a escola em que ela leciona foi invadida e levaram 10 meninas: uma não voltou. O que estava acontecendo repetidas vezes, era sufocado por um silêncio passivo e amedrontado e ninguém se mexia.
Mas, numa noite de outubro de 1997, as coisas se precipitaram, assumindo proporções assustadoras: os soldados de Laghira, um dos líderes rebeldes mais cruéis, invadiram o dormitório das meninas da escola secundária de Aboke, ordenaram que se vestissem e os seguissem. Eram 139 estudantes! E, no meio da noite, caminharam mata adentro com os soldados que as conduziam ao acampamento. Mal sabiam eles que, daquela vez, alguém decidira ir atrás, determinada a trazer de volta as meninas, as suas meninas. Aproveitando o buraco que fizeram na parede do dormitório, Raquel apenas comunicou à outra freira que iria segui-los. Um professor da escola foi junto e sua resposta ao apelo da religiosa mostrava o quão perigosa seria aquela empreitada: "Sim, vamos morrer pelas nossas meninas". Diante da ameaça a tantas vidas, a morte era a perspectiva mais lógica.

Escolher as vítimas

E assim, pela manhã, chegaram ao acampamento de Laghira, conhecido por suas atrocidades, como arrancar nariz, orelhas e nádegas de camponeses que desobedecem às ordens de seu exército, como obrigar as crianças que raptam a matar a pauladas aquelas que tentam fugir. Durante as seis horas que ficou no acampamento, Raquel implorou de joelhos ao líder para que libertasse as meninas, ofereceu-lhe dinheiro, ofereceu a si mesma. "Vou libertar 109, mas fico com aquelas 30. Escreva o nome delas nesta folha" - foi a decisão final do guerrilheiro e a pior angústia da vida da missionária: não podia abandonar aquelas meninas, não podiam escrever seus nomes, não podia escutar seu choro, implorando que ficasse com elas. A partir daquele momento, elas não eram mais alunas, mas filhas que precisavam da proteção de uma mãe.
O pior momento foi no dia seguinte, quando voltaram a Aboke: diante da escola estavam os pais de todas as meninas. Alguns puderam chorar de alegria ao ver a filha de volta, mas muitos choraram de dor e desespero, porque não sabiam o que podia ter acontecido.
Naquele dia, naquele local, Raquel tomaria uma decisão de luta aberta.

Denunciar ao mundo

Não era mais possível ficar de boca calada, de mãos atadas, presenciando inerte os contínuos raptos, as atrocidades. A luta começou com o apelo e a denúncia às autoridades internacionais com quem Raquel foi se encontrar: os presidentes da Uganda e do Sudão, Nelson Mandela, o ministro do Exterior do Irã, Hillary Clinton... depois, a criação de uma associação de pais de crianças raptadas em Uganda, depois a promessa do empenho internacional para a libertação das crianças ugandenses, conduzida pela Comissão para os Direitos Humanos da Onu, em Genebra, depois a volta aos campos dos rebeldes em busca dos rostos de suas filhas...

Remorso e esperanças

O testemunho da missionária impressiona pela sinceridade e pela coragem sustentada por uma fé confiante: "Daquelas 30 meninas, 9 voltaram. Mas, hoje, sinto remorso e peço perdão a todos: durante muitos anos eu vi o que acontecia em Uganda e fiquei quieta. Só comecei a falar quando mexeram nas minhas filhas. Não paro de agradecer a Deus porque estava em Aboke, naquela noite, dividindo a tristeza, o sofrimento, o medo, a angústia dilacerante. Porque, desde aquele dia, sou uma outra mulher, uma outra mãe, uma outra religiosa, uma outra missionária. Experimentei a verdade das palavras de Jesus: Não tenham medo, eu estarei com vocês todos os dias; eu lhes darei as palavras, a força.
Tive a graça de ver apagar-se o que havia de diferente entre nós, de viver uma verdadeira partilha de vida com aquelas pessoas a quem fui enviada como missionária. Hoje, eu também posso dizer, na verdade, as mesmas palavras que meu fundador, Daniel Comboni, disse aos africanos: "Temos uma causa em comum: as suas dores são as minhas dores, as suas alegrias são as minhas alegrias". E uma outra graça, talvez a maior: fiz e faço a experiência de que todas as pessoas têm, dentro de si, algo de bom, que no coração mais desumano existe o bem que está pronto a se manifestar. Quando Laghira, o terrível Laghira, me disse: 'Eu dou 109 meninas para você', quando quis rezar comigo e com uma das meninas que havia raptado, quando me pediu para trazer-lhe uma imagem de Nossa Senhora, depois que lhe dei a cruz de são Francisco. Quando na oração dos fiéis, uma das minhas meninas tomou a palavra e rezou: 'Senhor, perdoe Laghira que me obrigou a matar a porretadas uma menina'. Quando os poderosos que encontrei abriram as negociações sobre as crianças raptadas na Uganda. Quando aconteceu tudo isso, eu fiz a experiência, eu tive a certeza de que há bondade no coração humano e o dever de uma missionária é fazer com que ela aflore".
Diante de tamanha confiança, que aos olhos de tantos parecerá ingenuidade ou alienação, não há comentários a fazer, mas uma causa está em jogo, uma guerra foi declarada e não descarta nenhum militante.
(Nota: as declarações de Raquel Fassera foram feitas a Rodolfo Casadei, para Mondo e Missione, março 1999).

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