| UM PERSONAGEM PARA O NOVO MILÊNIO
Milenarismo não significa, como pretendem certas tradições,
um período de grandes tribulações que ocorreria a
cada mil anos, aterrorizando todos os viventes. Aliás, ultimamente,
estudiosos de história medieval tendem a provar que não
houve esses terrores nas populações no fim do primeiro milênio.
Tudo isso seria invenção do Iluminismo e do Positivismo,
que, conforme seu esquema mental, pretendiam que a Idade Média
fosse uma idade de trevas em contraposição ao brilhantismo
da civilização greco-romana e da Renascença.
Não há cronistas contemporâneos da passagem do ano
1000 que relatem eventuais cenas de pânico universal. Houve um terremoto
no ano mil e um eclipse do sol em julho de 1003 que causaram espanto no
povo inculto, que não conhecia bem esses fenômenos.
Um estudo importante e em nada suspeito, que desmitifica indiretamente
esses terrores que não aconteceram, vem de Umberto Eco, semiólogo
e medievalista, famoso por seu romance O Nome da Rosa. Ele sustenta, num
artigo no Caderno de Cultura de O Estado de São Paulo, de 13 de
junho 1999, que os últimos anos do primeiro milênio e os
primeiros do seguinte, foram um período de importantes descobertas,
que modificaram profundamente o comportamento agrícola dos aldeões,
tanto que a população européia começou a crescer
num ritmo bem veloz, chegando a mais de 40 milhões de pessoas em
poucos anos. Com novos métodos de produção de alimentos,
houve progresso e construções de enormes igrejas. Como prova
de suas afirmações, citamos um texto conhecido pelos estudiosos
da Idade Média, escrito pelo monge Glaber Radhulfus (990-1033)
que fez a crônica daqueles anos no livro Historiarium. Nele, relata
doenças e a fome que atingiram o povo, mas também sublinha
a vivacidade de seus contemporâneos: "Era o terceiro ano depois
do ano 1000 e, em toda a terra, especialmente na Itália e na Gália,
houve uma febre de construção de igrejas-basílicas.
As comunidades cristãs se emulavam para construir igrejas mais
belas". Mais adiante, ele fala de um crescimento da economia. Essas
preocupações positivas não eram certamente de pessoas
que estariam apavoradas com um próximo fim do mundo.
Sivestre II (999-1003), o papa da passagem do milênio, mais conhecido
por seu nome de nascimento, Gerberto, homem sábio e cronista daqueles
anos, também não demonstra ter grandes preocupações
com esses terrores e o fim do mundo, mas trabalhava em sua obra missionária
nos países do leste europeu e em seu esforço de reconciliação
com a Igreja de Constantinopla.
Isso porém não descarta que houvesse pregadores preocupados
com os anos 1000 e 1033, este último tido como o ano mais provável
do fim do mundo por ser o milésimo aniversário da morte
de Cristo. As pregações deles porém, não causaram
ondas de terror maiores daquelas que "profetas" ho-diernos estariam
provocando neste fim de século.
História do milenarismo
O ocidente cristão sempre cultivou o sonho da eterna e completa
felicidade aqui na terra. Seria a saudade do paraíso terrestre?
Talvez! Essa saudade, todavia, tornou-se a inspiração de
todas as utopias ou de sociedades perfeitas onde haveria harmonia entre
governantes e súditos, moldadas pela filosofia e fé cristã.
A maior utopia da história é certamente o milenarismo que,
vez ou outra, apareceu e ainda aparece no mundo cristão.
O milenarismo é uma crença tipicamente cristã, baseada
no capítulo 29 do Apocalipse de São João, que diz
que Cristo voltará à terra e, depois de um período
particularmente atribulado - guerra, calamidades -, reinará por
mil anos na paz com os justos ressuscitados, numa verdadeira idade de
ouro. Essa foi chamada a primeira ressurreição. Durante
esse milênio, Satanás ficaria acorrentado para ser libertado
por um breve tempo no fim do milênio, o que causaria outro breve
período de tribulações. Em seguida, haverá
o juízo universal após a ressurreição de todos,
também dos danados - segunda ressurreição - que serão
julgados e condenados ao inferno com Satanás para sempre, e os
justos irão para a felicidade eterna com Cristo no paraíso.
Ao longo dos séculos, esta teoria inflamou muitos pregadores e
teólogos, suscitou profetas que pregavam um próximo e inevitável
fim do mundo que iria desaparecer ou seria transformado entre calamidades
e desgraças.
É difícil analisar todos as correntes milenaristas que apareceram
nesses vinte séculos. Os grandes teólogos - como santo Agostinho
e santo Tomas - interpretaram o milênio como um simbolismo de um
tempo sem medidas certas, após o qual começariam os novos
céus e a nova terra, mas não faltaram os que interpretaram,
ao pé da letra, o milênio como um período de mil anos.
Uns sustentaram que o milenarismo seria um período de delícias,
um pacífico e sensual gozo de todos os bens da terra e foi chamarado
de milenarismo material. Outros, ao contrário, afirmaram que o
reinado milenar de Cristo seria de alegrias espirituais, embora rico também
de bens materiais, um verdadeiro reino de felicidade e abundância
plena: esse recebeu o nome de milenarismo espiritual. Evidentemente, o
milenarismo material foi condenado pela Igreja, mas permaneceu sempre
como uma sutil tentação para os filósofos utópicos.
Milenarismo hoje
O fim do segundo milênio está próximo. Em geral não
existem os medos das desgraçasque os "profetas" teriam
ameaçado, mas existem fortes questionamentos sobre o fim desse
século, sobre o homem e seu futuro. O questionamento é global:
humano, social, ético, religioso e técnico. Não será
somente o bug do milênio, ou seja, o caos dos computadores que vai
confundir a humanidade na passagem do ano, mas outros questionamentos
mais profundos. Será o homem capaz de dominar as máquinas
e os computadores ou será dominado por eles? Saberá a humanidade
descobrir a verdadeira justiça e solidariedade ou irão aumentar
as divisões sociais, as violências e outros males da vida
moderna? Será que teremos um universalismo real ou somente epidérmico,
que esconderá maiores desigualdades, maior pobreza em números
e em qualidade, maiores injustiças, maior concentração
do poder e riqueza nas mãos de poucos em detrimentos de muitos,
como parece ser uma das constantes do fenômeno atual da globalização?
Afinal a perspectiva é de que se vai aumentar o bem-estar para
alguns privilegiados e nalguns lugares do mundo, mas aumentará
também, de maneira exponencial, a pobreza e a miséria em
outros, sem esquecer que as crises humanas mais graves de nossa época
são as crises éticas de autoridade e do sagrado.
O homem mais importante dos dois milênios
Nos últimos meses, algumas sondagens de opinião querem
identificar os homens que mais influenciaram os dois milênios que
se encerram. Dos resultados, embora parciais, vê-se que as respostas
revelam um escasso conhecimento da história humana e visões
particulares e bem redutoras.
O milenarismo, porém, só existe porque se engendrou sobre
uma figura que realmente revolucionou a humanidade, Jesus Cristo, o maior
personagem da história ocidental e que influenciou também
o mundo inteiro. E por isso, ao findar esse segundo milênio, é
bom reavaliar essa figura e sua importância na história.
Queremos aqui apresentar somente uma síntese da sua revolucionária
pregação, separando-a da aplicação concreta
que seus discípulos das várias denominações,
fizeram ao longo desse dois milênios.
Cristo e a cultura ocidental
A revolução fundamental desse profeta que se declarava
Filho de Deus foi, exatamente, o novo conceito de Deus que ele trouxe.
O Deus infinito, criador mas não providente dos filósofos
gregos e romanos, torna-se o Deus Pai, o Deus Amor que ama os homens,
chamando-os de seus filhos. Um Deus que partilha a vida humana ou, como
alguns preferem, - através de Cristo - entra na história
humana, para partilhar e condividir dando um sentido eterno aos atos humanos.
Cristo foi quem, mais que outros profetas da antigüidade, revelou
esse Deus de Amor que revolucionou ao longo dos séculos a história
humana e criou a cultura ocidental.
Com suas afirmações, em primeiro lugar, Cristo derrubou
os limites do tempo e transformou o homem num ser eterno após sua
passagem aqui na terra, e isso não como um simples dom caprichoso
da divindade, mas como coroamento da liberdade que Deus concedeu-lhe e
que ele respeita. Com a ressurreição de Cristo, Homem-Deus,
após sua morte na cruz para remir a humanidade, o homem sabe o
que o espera após a morte: uma vida eterna.
Com seus ensinamentos, feitos mais através de exemplos e parábolas
do que com discursos filosóficos, Cristo dá valor à
vida, bem pouco respeitada naqueles tempos.
Como filhos de Deus - Pai, todos são irmãos, portanto, com
os mesmos direitos e deveres, ricos e pobres, poderosos e humildes, homens
e mulheres. A vida é sagrada e o assassinato é contrário
à vida e a Deus. Os pais não são donos da vida dos
filhos e, implicitamente, fica condenado o aborto e o infanticídio,
verdadeiras pragas do mundo daquele tempo. Se os gregos e os romanos expunham,
no calar da noite, seus doentes e aleijados nas ruas, para serem devorados
pelos animais, os cristãos cuidavam e faziam deles a riqueza da
Igreja primitiva. O primeiro ato eclesial dos Apóstolos foi criar
um corpo de diáconos para cuidar das viúvas e dos pobres.
O cristianismo subverteu as práticas de convivência social:
havia patrões, escravos e a plebe sem vez nem voz. Os valores da
cidadania eram a riqueza, a arrogância, o poder, a vingança.
Cristo fala de outras virtudes no seu discurso da montanha, exaltando
como fundamentos da sociedade a humildade, a compreensão, o perdão,
a luta pela justiça e a coerência cristã. As prostitutas
e as crianças serão as primeiras no seu reino, porque eram
as mais injustiçadas.
A mulher, pela primeira vez na história da humanidade, começa
sua libertação individual e coletivamente. Entre as amizades
de Cristo há prostitutas, virgens, mães de família
de todas as classes. A pregação de Cristo deu dignidade
à mulher como mãe e como virgem, e como Deus, escolheu uma
humilde mulher, uma virgem do povo, para ser sua mãe virgem.
Cristo, pregando a salvação individual e pessoal que transcende
a vida terrena e requer uso da liberdade, faz descobrir e valorizar a
individualidade mas, com o preceito de amar o próximo como a si
mesmo, cria uma fusão com a solidariedade e a fraternidade: a justiça
se casa com a caridade para resolver os problemas humanos. O indivíduo
adquire um valor absoluto acima de toda sociedade e de todos os tempos.
Poderíamos continuar enumerando as facetas dessa revolução
cristã iniciada por Cristo e que, apesar de contrastada por séculos,
se tornou a religião da maior civilização existente
- a romana - que a difundiu em toda a Europa, mas iríamos muito
longe.
Essa mensagem criou uma Igreja, que se dividiu e se subdividiu em outras
mas que, hoje, tem mais de dois bilhões de seguidores e moldou
a cultura ocidental de forma tão íntima que Ocidente e cristianismo
são sinônimos.
Foi a Igreja que fundou as primeiras universidades, as escolas populares,
os hospitais, que bonificou as terras através dos monges, salvou
a cultura dos antigos durante as invasões bárbaras e criou,
ao redor de sua mensagem, as mais altas expressões das artes e,
com suas normas ética, foi a fundamento jurídico de todos
os povos.
Foi com extrema coragem que os primeiros cristãos, muitos dos quais
foram perseguidos e mortos por serem fiéis de Cristo, levaram adiante
a mensagem de Jesus que, apesar dos desvios e dos erros dos seus seguidores,
ainda é válida para os nossos tempos.
Devemos também reconhecer que nem sempre a mensagem genuína
de Cristo foi seguida literalmente: os cristãos, depois que a Igreja
se tornou a igreja oficial, fizeram grandes coisas, mas também
provocaram cruzadas, demoraram para libertar integralmente a mulher, justificaram
inquisições e poderes absolutistas. A Igreja foi perseguida
mas também perseguiu, embora sem comparação com as
perseguições que ela sofreu durante os séculos e
até os nossos tempos. Num balanço pró e contra o
cristianismo e a Igreja, estes apresentam um saldo amplamente positivo.
O futuro
Hoje, inegavelmente, os cristãos parecem ter entrado numa crise
existencial: o mundo ocidental está se afastando do cristianismo,
embora se reporte, inconscientemente, a padrões cristãos
de julgamento e de vida.
O secularismo está dominando a nova cultura ocidental. Será
que a mensagem cristã, que gerou e ainda gera milhões de
campeões da caridade, estaria esgotada, podendo ser comparada à
de outros movimentos puramente emocionais e esotéricos? Será
que Cristo cansou a sociedade, embora haja milhões que ainda o
procurem e façam dele a motivação de seu viver?
Uma personagem para o novo milênio
Chegando ao fim desse século, diante da muita violência,
das guerras absurdas, do individualismo exacerbado e de uma perspectiva
pouco clara sobre seu futuro, o homem moderno e de todas as culturas faz-se
uma pergunta crucial: há uma resposta para todos esses questionamentos
trágicos?
O mundo tornou-se uma aldeia global e os povos com suas culturas foram
abruptamente obrigados a se abrirem e, ao mesmo tempo, a se fecharem para
as outras por um sentimento de sobrevivência. Será possível
criar uma unidade na diferença e sobre qual princípio que
seja válido para todos embora de culturas diferentes?
Cristo não une as culturas
Cristo, se foi e é fundamental para a civilização
ocidental e a razão de viver dos cristãos, como Homem-Deus
não é aceito pelas outras culturas que não admitem
a possibilidade da encarnação e morte de um Deus. O islamismo,
embora aceite o Cristo como profeta, não quer dialogar sobre o
Cristo-Deus, o que para eles soa como a mais terrível blasfêmia
contra a unicidade de Deus: um diálogo sobre Cristo com esta religião
somente nos dividiria ainda mais. Hoje, entre os muçulmanos, está
surgindo até um fundamentalismo étnico fundamentado na religião,
o que radicaliza cada vez mais as divisões, não facilitando
o diálogo inter-religioso, fundamental para construir a paz entre
as civilizações cristã e muçulmana.
Com outras religiões que admitem a reencarnação cíclica
e o desaparecimento numa energia cósmica, o conceito de Cristo-Deus-pessoa-encarnado
e salvador, que morre na cruz pela humanidade e ressuscita, é absurdo
e incompreensível.
Nem mesmo para os cristãos, Cristo é fundamento de unidade,
porque em nome dele houve perseguidos e perseguidores, inquiridos e inquisidores,
guerras e destruição. Cristo não foi guerreiro, mas
os cristãos foram.
Diante dessas afirmações, podemos ficar assustados. Então,
como podemos conviver no próximo milênio, se Cristo não
é fundamento da unidade?
Deus Pai: a revolução total
Frisamos que toda revolução e toda ideologia dos séculos
passados e modernos - capitalismo, liberalismo, comunismo, socialismo
de todos os tipos e globalização - não resolveram
nem resolverão os problemas mundiais de justiça, igualdade,
fraternidade e solidariedade, causaram e causarão grandes problemas
e tragédias para a humanidade.
Na revelação que Cristo trouxe ao mundo, porém, está
a única revolução que pode mudar e resolver os problemas
humanos. Deus é Amor e Pai de todos os homens e, portanto, nós
todos, homens de toda e qualquer raça, cor e cultura somos irmãos;
se somos irmãos, somos iguais com os mesmos deveres e direitos.
Nesse breve enunciado está o fundamento da solução
global de todos os problemas da humanidade, embora isso possa parecer
uma longínqua utopia. Mas somente aprofundando e vivendo radicalmente
as conseqüências contidas nesse princípio, poderemos
resolver as desigualdades sociais, devolver a dignidade à humanidade,
abolir a violência e as múltiplas injustiças, criar
o mundo que os milenaristas de todos os tempo sonharam e nunca viram:
"Um reino eterno e universal, um reino de verdade e de vida, um reino
de santidade e graça, um reino de justiça, amor e de paz"
como reza o prefácio da Missa de Cristo Rei.
Isso, naturalmente, deve provocar uma mudança de comportamento,
um engajamento ativo, uma revisão principalmente na maneira de
ser cristãos: ser agentes de paz e portadores de amor, superar
as divisões sociais, ser arquétipos de honestidade no mundo
do trabalho, da política, da economia e da técnica.
Numa palavra, esses devem ser os profetas do novo milenarismo, não
de tragédias apocalípticas mas de paz e desafiadores das
situações que insistem em negar a vida.
Utopia? Talvez, mas no nome de Deus Pai, realizável.
Milenarismo e seitas
Muito mais que na Igreja católica, proliferaram e proliferam muitas
seitas que se inspiram no milenarismo com maior ou menor fundamentalismo
em sua pregação e seu modo de proceder no dia-a-dia. Entre
essas seitas, chamadas apocalípticas, encontramos grandes movimentos
evangélicos como os Mormons e as Testemunhas de Jeová, cujos
líderes vieram marcando e adiando datas para a volta de Cristo,
que naturalmente não se realizaram.
O esquema é igual para todas as seitas: haverá guerras com
a presença do anticristo e depois o Cristo, vitorioso sobre seus
inimigos e as seitas, julgará os homens, destruirá os maus
enquanto os escolhidos viverão na felicidade, no céu ou
na terra, onde não haverá mais morte nem sofrimento, mas
somente delícias.
Em algumas dessas seitas, a paranóia dos líderes e dos seguidores
já levou a desfechos trágicos, como os que aconteceram recentemente
com a Ordem do Templo Solar, em 1994, com a morte de 56 seguidores na
Suíça e no Canadá e mais 19 na França; o Ramo
Davidiano do fanático Davis Koresh, cujos membros, em 1993, resistiram
a um cerco policial por 51 dias e em seguida morreram, deixando um saldo
de 70 vítimas. Tristemente famoso e ainda confuso foi o episódio
da a morte de 914 seguidores do pastor Jim Jones na Guiana, em novembro
de 1970, mas também o do grupo de internautas do Heaven's Gates,
encontrados mortos em suas camas com uma carta, explicando o suicídio
come desejo de conseguir embarcar na cauda do cometa Halley.
Milenarismo leigo
Não é somente no cristianismo que apareceram as utopias
do milenarismo ou da idade de ouro, sob a orientação de
um profeta ou avatar. No mundo leigo e não cristão (embora
fundamentalmente inspirados por princípios cristãos), aparecem
milenarismos secularizados, apregoados, às vezes, por um líder,
um movimento, com um conteúdo ideológico que promete o paraíso
aqui na terra.
Desde alguns anos, está se impondo à sociedade atual um
milenarismo que foge de todo e qualquer esquema conhecido, chamado New
Age, Nova Era ou Next Age por aqueles que acham que a primeira Nova Era
já estaria superada. Não é fácil resumir em
poucas palavras esse movimento, que está conquistando, no mundo
inteiro, muitos simpatizantes, geralmente de cultura média, pela
mistura de elementos cristãos, orientais, hindus, budistas, espíritas,
místicos, astrológicos (Era de Aquário), filosóficos,
esotéricos, tão contrastantes entre si que subvertem todos
os conceitos tradicionais de Deus, energia, salvador, luz, cosmo, etc.
Um verdadeiro caos de interpretação irracional, mas de muito
efeito sobre o homem moderno, que vem gerando lucros interessantes com
o comércio de música, alimentos, velas, duendes, pedras
e outros objetos esotéricos que proporcionariam o contato com a
energia cósmica, única realidade existente, conforme os
teóricos da New Age.
Uma religião, portanto, feita sob medida para cada pessoa, que
não compromete eticamente com a justiça e com o próximo,
que proporciona talvez um sentimento de segurança para psicologicamente
ninguém sentir-se órfão e solitário nesta
modernidade que pôs em crise todas as certezas e ideologias. Crer
em mitos sem convicção e responsabilidade, perder-se no
cósmico, numa busca egoísta de felicidade, sem compromisso
ético: um anarquismo espiritual...
Milenarismo no Brasil
No Brasil, pelo menos nesses últimos duzentos anos, tivemos manifestações
que podem ser reunidas num milenarismo messiânico-apocalíptico
e algumas das quais terminaram com mortes vio-lentas. As mais famosas
foram: Canudos (1889), Contestado (1916), as Borboletas Azuis (1970) e
muitas outras que ainda existem. O esquema desses movimentos messiânicos
brasileiros tem um enredo parecido com os outros movimentos milenaristas,
embora na prática apresentem aspectos peculiares da realidade brasileira.
Geralmente, eles têm um líder que se apresenta como carismático
e prega mudanças do mal para o bem, através de catástrofes.
Antônio Conselheiro, o mais famoso, assegurava aos seus seguidores
que o sertão árido e seco viraria mar, enquanto os outros,
isto é, os que não pertenciam ao movimento dos fanáticos,
iriam perecer por castigos divinos.
Os movimentos brasileiros tem como seguidores, geralmente, pessoas pobres
e sofridas. Para conseguir essas promessas, elas entregam alma e corpo
ao líder, que as manipula, as organiza e as leva ao massacre -
físico ou psicológico - porque esses grupos, fatalmente,
quando crescem, se chocam com a sociedade organizada.
Outros movimentos milenaristas brasileiros atuais seriam: a Ordem Espiritualista
Cristã Vale do Amanhecer, o Santo Daime, os Penitentes do Rosário
da Mãe de Deus, os Irmãos da Santa Cruz no Alto Solimões,
etc.
O anticristo
Embora nesse artigo ainda não se tenha falado do anticristo, ele
é a segunda personagem nas profecias milenaristas do fim do mundo.
Na luta entre o bem (Cristo) e o mal (Satanás), ele seria a máxima
expressão do mal, o inimigo dos cristãos, não Satanás,
do qual seria seu lugar-tenente na batalha final. Ele seria o companheiro
da besta apocalíptica marcada pelo número 666, número
que, muitas vezes, designa também o anticristo. Ele é descrito
em maneira pormenorizada e contraditória em seu aspecto, em suas
ações e no tempo de seu aparecimento na terra, por todos
os profetas apocalípticos. Dele já se encontram indícios
no Novo Testamento, especialmente em são Paulo, na segunda carta
aos Tessalonicenses e no Apocalipse de são João.
Essa figura mítica e confusa, deveria aparecer nesse final do segundo
milênio para destruir a Igreja, liderar as forças do mal
na guerra que deveria acontecer na planície de Armagedon em Israel,
entre dois exércitos, o do bem e o do mal. Conforme Nostradamus,
o exército do mal viria do Oriente e do bem do Ocidente. Nessa
guerra, o anticristo teria, inicialmente, grandes vitórias, perseguiria
e mataria muitos cristãos mas, no fim, pereceria pela mão
forte de Cristo que iniciará o seu reino de felicidade milenar.
Detalhes dessa bizarra figura e da guerra de Armagedon estão em
todos os profetas apocalípticos do fim do mundo e também
em videntes como Aranha Preta, Nostradamus, Monge de Pádua, Stéfano
Gobbi, Vassula, videntes de Garabandal e outros, segundo os quais o anticristo
já estaria no nosso meio e a guerra final já teria eclodido
(!?).
No imaginário e nos medos do povo, essa trágica figura foi
vista, apontada nos grandes inimigos da Igreja e da humanidade. Para os
católicos, anticristo foram os hereges, Maomé, Martinho
Lutero e outros, enquanto para os protestantes e para muitas seitas evangélicas
até contemporâneas, o anticristo era e seria o Papa. Também
foram rotulados de anticristo, Voltaire, Napoleão, Stalin, Hitler,
Mao-tse-tung e, ultimamente, Slobodam Milosevic e também Bill Gates,
o magnata dos computadores que obrigaria todos os usuários de computadores
a se registrarem através de uma senha que seria - segundo dizem
- o fatídico 666, a senha da besta.
Na realidade, numa análise despretensiosa das descrições
contraditórias desses "profetas" apocalípticos,
o anticristo não passa de um mito do cristianismo popular. (ver
livro: 2000 catástrofe ou esperança? de Ernesto Arosio,
ed. Paulus).
Fim do mundo
Embora não estreitamente ligado ao conceito do milenarismo, todos
os profetas, referindo-se ao trecho evangélico dos sinópticos
que trata do fim do mundo anunciado por Cristo, falam que o começo
do milenarismo acontecerá após o fim do mundo, apresentado
com descrições assustadoras. Tentando resumir as "profecias"
num único esquema, somente um terço da população
iria se salvar dessas tragédias, a destruição será
através do fogo, (da bomba atômica?), ou deslocamento do
eixo da terra ou de outras maneiras, segundo a fantasia doentia de cada
profeta.
Para os não cristãos como a New Age, não seria o
fim do mundo que está para acontecer, mas o fim dessa sociedade,
das religiões atuais e da Igreja católica e depois nascerá
um mundo melhor. Para a New Age, o novo mundo será a Era do Aquário,
era de paz e de bem-estar, de partilha das energias benéficas do
universo, numa liberdade total, sem restrição nenhuma.
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