Revista "MUNDO e MISSÃO"

Esoterismo

UM PERSONAGEM PARA O NOVO MILÊNIO

Milenarismo não significa, como pretendem certas tradições, um período de grandes tribulações que ocorreria a cada mil anos, aterrorizando todos os viventes. Aliás, ultimamente, estudiosos de história medieval tendem a provar que não houve esses terrores nas populações no fim do primeiro milênio. Tudo isso seria invenção do Iluminismo e do Positivismo, que, conforme seu esquema mental, pretendiam que a Idade Média fosse uma idade de trevas em contraposição ao brilhantismo da civilização greco-romana e da Renascença.
Não há cronistas contemporâneos da passagem do ano 1000 que relatem eventuais cenas de pânico universal. Houve um terremoto no ano mil e um eclipse do sol em julho de 1003 que causaram espanto no povo inculto, que não conhecia bem esses fenômenos.
Um estudo importante e em nada suspeito, que desmitifica indiretamente esses terrores que não aconteceram, vem de Umberto Eco, semiólogo e medievalista, famoso por seu romance O Nome da Rosa. Ele sustenta, num artigo no Caderno de Cultura de O Estado de São Paulo, de 13 de junho 1999, que os últimos anos do primeiro milênio e os primeiros do seguinte, foram um período de importantes descobertas, que modificaram profundamente o comportamento agrícola dos aldeões, tanto que a população européia começou a crescer num ritmo bem veloz, chegando a mais de 40 milhões de pessoas em poucos anos. Com novos métodos de produção de alimentos, houve progresso e construções de enormes igrejas. Como prova de suas afirmações, citamos um texto conhecido pelos estudiosos da Idade Média, escrito pelo monge Glaber Radhulfus (990-1033) que fez a crônica daqueles anos no livro Historiarium. Nele, relata doenças e a fome que atingiram o povo, mas também sublinha a vivacidade de seus contemporâneos: "Era o terceiro ano depois do ano 1000 e, em toda a terra, especialmente na Itália e na Gália, houve uma febre de construção de igrejas-basílicas. As comunidades cristãs se emulavam para construir igrejas mais belas". Mais adiante, ele fala de um crescimento da economia. Essas preocupações positivas não eram certamente de pessoas que estariam apavoradas com um próximo fim do mundo.
Sivestre II (999-1003), o papa da passagem do milênio, mais conhecido por seu nome de nascimento, Gerberto, homem sábio e cronista daqueles anos, também não demonstra ter grandes preocupações com esses terrores e o fim do mundo, mas trabalhava em sua obra missionária nos países do leste europeu e em seu esforço de reconciliação com a Igreja de Constantinopla.
Isso porém não descarta que houvesse pregadores preocupados com os anos 1000 e 1033, este último tido como o ano mais provável do fim do mundo por ser o milésimo aniversário da morte de Cristo. As pregações deles porém, não causaram ondas de terror maiores daquelas que "profetas" ho-diernos estariam provocando neste fim de século.

História do milenarismo

O ocidente cristão sempre cultivou o sonho da eterna e completa felicidade aqui na terra. Seria a saudade do paraíso terrestre? Talvez! Essa saudade, todavia, tornou-se a inspiração de todas as utopias ou de sociedades perfeitas onde haveria harmonia entre governantes e súditos, moldadas pela filosofia e fé cristã. A maior utopia da história é certamente o milenarismo que, vez ou outra, apareceu e ainda aparece no mundo cristão.
O milenarismo é uma crença tipicamente cristã, baseada no capítulo 29 do Apocalipse de São João, que diz que Cristo voltará à terra e, depois de um período particularmente atribulado - guerra, calamidades -, reinará por mil anos na paz com os justos ressuscitados, numa verdadeira idade de ouro. Essa foi chamada a primeira ressurreição. Durante esse milênio, Satanás ficaria acorrentado para ser libertado por um breve tempo no fim do milênio, o que causaria outro breve período de tribulações. Em seguida, haverá o juízo universal após a ressurreição de todos, também dos danados - segunda ressurreição - que serão julgados e condenados ao inferno com Satanás para sempre, e os justos irão para a felicidade eterna com Cristo no paraíso.
Ao longo dos séculos, esta teoria inflamou muitos pregadores e teólogos, suscitou profetas que pregavam um próximo e inevitável fim do mundo que iria desaparecer ou seria transformado entre calamidades e desgraças.
É difícil analisar todos as correntes milenaristas que apareceram nesses vinte séculos. Os grandes teólogos - como santo Agostinho e santo Tomas - interpretaram o milênio como um simbolismo de um tempo sem medidas certas, após o qual começariam os novos céus e a nova terra, mas não faltaram os que interpretaram, ao pé da letra, o milênio como um período de mil anos. Uns sustentaram que o milenarismo seria um período de delícias, um pacífico e sensual gozo de todos os bens da terra e foi chamarado de milenarismo material. Outros, ao contrário, afirmaram que o reinado milenar de Cristo seria de alegrias espirituais, embora rico também de bens materiais, um verdadeiro reino de felicidade e abundância plena: esse recebeu o nome de milenarismo espiritual. Evidentemente, o milenarismo material foi condenado pela Igreja, mas permaneceu sempre como uma sutil tentação para os filósofos utópicos.

Milenarismo hoje

O fim do segundo milênio está próximo. Em geral não existem os medos das desgraçasque os "profetas" teriam ameaçado, mas existem fortes questionamentos sobre o fim desse século, sobre o homem e seu futuro. O questionamento é global: humano, social, ético, religioso e técnico. Não será somente o bug do milênio, ou seja, o caos dos computadores que vai confundir a humanidade na passagem do ano, mas outros questionamentos mais profundos. Será o homem capaz de dominar as máquinas e os computadores ou será dominado por eles? Saberá a humanidade descobrir a verdadeira justiça e solidariedade ou irão aumentar as divisões sociais, as violências e outros males da vida moderna? Será que teremos um universalismo real ou somente epidérmico, que esconderá maiores desigualdades, maior pobreza em números e em qualidade, maiores injustiças, maior concentração do poder e riqueza nas mãos de poucos em detrimentos de muitos, como parece ser uma das constantes do fenômeno atual da globalização?
Afinal a perspectiva é de que se vai aumentar o bem-estar para alguns privilegiados e nalguns lugares do mundo, mas aumentará também, de maneira exponencial, a pobreza e a miséria em outros, sem esquecer que as crises humanas mais graves de nossa época são as crises éticas de autoridade e do sagrado.

O homem mais importante dos dois milênios

Nos últimos meses, algumas sondagens de opinião querem identificar os homens que mais influenciaram os dois milênios que se encerram. Dos resultados, embora parciais, vê-se que as respostas revelam um escasso conhecimento da história humana e visões particulares e bem redutoras.
O milenarismo, porém, só existe porque se engendrou sobre uma figura que realmente revolucionou a humanidade, Jesus Cristo, o maior personagem da história ocidental e que influenciou também o mundo inteiro. E por isso, ao findar esse segundo milênio, é bom reavaliar essa figura e sua importância na história. Queremos aqui apresentar somente uma síntese da sua revolucionária pregação, separando-a da aplicação concreta que seus discípulos das várias denominações, fizeram ao longo desse dois milênios.

Cristo e a cultura ocidental

A revolução fundamental desse profeta que se declarava Filho de Deus foi, exatamente, o novo conceito de Deus que ele trouxe. O Deus infinito, criador mas não providente dos filósofos gregos e romanos, torna-se o Deus Pai, o Deus Amor que ama os homens, chamando-os de seus filhos. Um Deus que partilha a vida humana ou, como alguns preferem, - através de Cristo - entra na história humana, para partilhar e condividir dando um sentido eterno aos atos humanos. Cristo foi quem, mais que outros profetas da antigüidade, revelou esse Deus de Amor que revolucionou ao longo dos séculos a história humana e criou a cultura ocidental.
Com suas afirmações, em primeiro lugar, Cristo derrubou os limites do tempo e transformou o homem num ser eterno após sua passagem aqui na terra, e isso não como um simples dom caprichoso da divindade, mas como coroamento da liberdade que Deus concedeu-lhe e que ele respeita. Com a ressurreição de Cristo, Homem-Deus, após sua morte na cruz para remir a humanidade, o homem sabe o que o espera após a morte: uma vida eterna.
Com seus ensinamentos, feitos mais através de exemplos e parábolas do que com discursos filosóficos, Cristo dá valor à vida, bem pouco respeitada naqueles tempos.
Como filhos de Deus - Pai, todos são irmãos, portanto, com os mesmos direitos e deveres, ricos e pobres, poderosos e humildes, homens e mulheres. A vida é sagrada e o assassinato é contrário à vida e a Deus. Os pais não são donos da vida dos filhos e, implicitamente, fica condenado o aborto e o infanticídio, verdadeiras pragas do mundo daquele tempo. Se os gregos e os romanos expunham, no calar da noite, seus doentes e aleijados nas ruas, para serem devorados pelos animais, os cristãos cuidavam e faziam deles a riqueza da Igreja primitiva. O primeiro ato eclesial dos Apóstolos foi criar um corpo de diáconos para cuidar das viúvas e dos pobres.
O cristianismo subverteu as práticas de convivência social: havia patrões, escravos e a plebe sem vez nem voz. Os valores da cidadania eram a riqueza, a arrogância, o poder, a vingança. Cristo fala de outras virtudes no seu discurso da montanha, exaltando como fundamentos da sociedade a humildade, a compreensão, o perdão, a luta pela justiça e a coerência cristã. As prostitutas e as crianças serão as primeiras no seu reino, porque eram as mais injustiçadas.
A mulher, pela primeira vez na história da humanidade, começa sua libertação individual e coletivamente. Entre as amizades de Cristo há prostitutas, virgens, mães de família de todas as classes. A pregação de Cristo deu dignidade à mulher como mãe e como virgem, e como Deus, escolheu uma humilde mulher, uma virgem do povo, para ser sua mãe virgem.
Cristo, pregando a salvação individual e pessoal que transcende a vida terrena e requer uso da liberdade, faz descobrir e valorizar a individualidade mas, com o preceito de amar o próximo como a si mesmo, cria uma fusão com a solidariedade e a fraternidade: a justiça se casa com a caridade para resolver os problemas humanos. O indivíduo adquire um valor absoluto acima de toda sociedade e de todos os tempos.
Poderíamos continuar enumerando as facetas dessa revolução cristã iniciada por Cristo e que, apesar de contrastada por séculos, se tornou a religião da maior civilização existente - a romana - que a difundiu em toda a Europa, mas iríamos muito longe.
Essa mensagem criou uma Igreja, que se dividiu e se subdividiu em outras mas que, hoje, tem mais de dois bilhões de seguidores e moldou a cultura ocidental de forma tão íntima que Ocidente e cristianismo são sinônimos.
Foi a Igreja que fundou as primeiras universidades, as escolas populares, os hospitais, que bonificou as terras através dos monges, salvou a cultura dos antigos durante as invasões bárbaras e criou, ao redor de sua mensagem, as mais altas expressões das artes e, com suas normas ética, foi a fundamento jurídico de todos os povos.
Foi com extrema coragem que os primeiros cristãos, muitos dos quais foram perseguidos e mortos por serem fiéis de Cristo, levaram adiante a mensagem de Jesus que, apesar dos desvios e dos erros dos seus seguidores, ainda é válida para os nossos tempos.
Devemos também reconhecer que nem sempre a mensagem genuína de Cristo foi seguida literalmente: os cristãos, depois que a Igreja se tornou a igreja oficial, fizeram grandes coisas, mas também provocaram cruzadas, demoraram para libertar integralmente a mulher, justificaram inquisições e poderes absolutistas. A Igreja foi perseguida mas também perseguiu, embora sem comparação com as perseguições que ela sofreu durante os séculos e até os nossos tempos. Num balanço pró e contra o cristianismo e a Igreja, estes apresentam um saldo amplamente positivo.

O futuro

Hoje, inegavelmente, os cristãos parecem ter entrado numa crise existencial: o mundo ocidental está se afastando do cristianismo, embora se reporte, inconscientemente, a padrões cristãos de julgamento e de vida.
O secularismo está dominando a nova cultura ocidental. Será que a mensagem cristã, que gerou e ainda gera milhões de campeões da caridade, estaria esgotada, podendo ser comparada à de outros movimentos puramente emocionais e esotéricos? Será que Cristo cansou a sociedade, embora haja milhões que ainda o procurem e façam dele a motivação de seu viver?
Uma personagem para o novo milênio
Chegando ao fim desse século, diante da muita violência, das guerras absurdas, do individualismo exacerbado e de uma perspectiva pouco clara sobre seu futuro, o homem moderno e de todas as culturas faz-se uma pergunta crucial: há uma resposta para todos esses questionamentos trágicos?
O mundo tornou-se uma aldeia global e os povos com suas culturas foram abruptamente obrigados a se abrirem e, ao mesmo tempo, a se fecharem para as outras por um sentimento de sobrevivência. Será possível criar uma unidade na diferença e sobre qual princípio que seja válido para todos embora de culturas diferentes?

Cristo não une as culturas

Cristo, se foi e é fundamental para a civilização ocidental e a razão de viver dos cristãos, como Homem-Deus não é aceito pelas outras culturas que não admitem a possibilidade da encarnação e morte de um Deus. O islamismo, embora aceite o Cristo como profeta, não quer dialogar sobre o Cristo-Deus, o que para eles soa como a mais terrível blasfêmia contra a unicidade de Deus: um diálogo sobre Cristo com esta religião somente nos dividiria ainda mais. Hoje, entre os muçulmanos, está surgindo até um fundamentalismo étnico fundamentado na religião, o que radicaliza cada vez mais as divisões, não facilitando o diálogo inter-religioso, fundamental para construir a paz entre as civilizações cristã e muçulmana.
Com outras religiões que admitem a reencarnação cíclica e o desaparecimento numa energia cósmica, o conceito de Cristo-Deus-pessoa-encarnado e salvador, que morre na cruz pela humanidade e ressuscita, é absurdo e incompreensível.
Nem mesmo para os cristãos, Cristo é fundamento de unidade, porque em nome dele houve perseguidos e perseguidores, inquiridos e inquisidores, guerras e destruição. Cristo não foi guerreiro, mas os cristãos foram.
Diante dessas afirmações, podemos ficar assustados. Então, como podemos conviver no próximo milênio, se Cristo não é fundamento da unidade?

Deus Pai: a revolução total

Frisamos que toda revolução e toda ideologia dos séculos passados e modernos - capitalismo, liberalismo, comunismo, socialismo de todos os tipos e globalização - não resolveram nem resolverão os problemas mundiais de justiça, igualdade, fraternidade e solidariedade, causaram e causarão grandes problemas e tragédias para a humanidade.
Na revelação que Cristo trouxe ao mundo, porém, está a única revolução que pode mudar e resolver os problemas humanos. Deus é Amor e Pai de todos os homens e, portanto, nós todos, homens de toda e qualquer raça, cor e cultura somos irmãos; se somos irmãos, somos iguais com os mesmos deveres e direitos. Nesse breve enunciado está o fundamento da solução global de todos os problemas da humanidade, embora isso possa parecer uma longínqua utopia. Mas somente aprofundando e vivendo radicalmente as conseqüências contidas nesse princípio, poderemos resolver as desigualdades sociais, devolver a dignidade à humanidade, abolir a violência e as múltiplas injustiças, criar o mundo que os milenaristas de todos os tempo sonharam e nunca viram: "Um reino eterno e universal, um reino de verdade e de vida, um reino de santidade e graça, um reino de justiça, amor e de paz" como reza o prefácio da Missa de Cristo Rei.
Isso, naturalmente, deve provocar uma mudança de comportamento, um engajamento ativo, uma revisão principalmente na maneira de ser cristãos: ser agentes de paz e portadores de amor, superar as divisões sociais, ser arquétipos de honestidade no mundo do trabalho, da política, da economia e da técnica.
Numa palavra, esses devem ser os profetas do novo milenarismo, não de tragédias apocalípticas mas de paz e desafiadores das situações que insistem em negar a vida.
Utopia? Talvez, mas no nome de Deus Pai, realizável.

Milenarismo e seitas

Muito mais que na Igreja católica, proliferaram e proliferam muitas seitas que se inspiram no milenarismo com maior ou menor fundamentalismo em sua pregação e seu modo de proceder no dia-a-dia. Entre essas seitas, chamadas apocalípticas, encontramos grandes movimentos evangélicos como os Mormons e as Testemunhas de Jeová, cujos líderes vieram marcando e adiando datas para a volta de Cristo, que naturalmente não se realizaram.
O esquema é igual para todas as seitas: haverá guerras com a presença do anticristo e depois o Cristo, vitorioso sobre seus inimigos e as seitas, julgará os homens, destruirá os maus enquanto os escolhidos viverão na felicidade, no céu ou na terra, onde não haverá mais morte nem sofrimento, mas somente delícias.
Em algumas dessas seitas, a paranóia dos líderes e dos seguidores já levou a desfechos trágicos, como os que aconteceram recentemente com a Ordem do Templo Solar, em 1994, com a morte de 56 seguidores na Suíça e no Canadá e mais 19 na França; o Ramo Davidiano do fanático Davis Koresh, cujos membros, em 1993, resistiram a um cerco policial por 51 dias e em seguida morreram, deixando um saldo de 70 vítimas. Tristemente famoso e ainda confuso foi o episódio da a morte de 914 seguidores do pastor Jim Jones na Guiana, em novembro de 1970, mas também o do grupo de internautas do Heaven's Gates, encontrados mortos em suas camas com uma carta, explicando o suicídio come desejo de conseguir embarcar na cauda do cometa Halley.

Milenarismo leigo

Não é somente no cristianismo que apareceram as utopias do milenarismo ou da idade de ouro, sob a orientação de um profeta ou avatar. No mundo leigo e não cristão (embora fundamentalmente inspirados por princípios cristãos), aparecem milenarismos secularizados, apregoados, às vezes, por um líder, um movimento, com um conteúdo ideológico que promete o paraíso aqui na terra.
Desde alguns anos, está se impondo à sociedade atual um milenarismo que foge de todo e qualquer esquema conhecido, chamado New Age, Nova Era ou Next Age por aqueles que acham que a primeira Nova Era já estaria superada. Não é fácil resumir em poucas palavras esse movimento, que está conquistando, no mundo inteiro, muitos simpatizantes, geralmente de cultura média, pela mistura de elementos cristãos, orientais, hindus, budistas, espíritas, místicos, astrológicos (Era de Aquário), filosóficos, esotéricos, tão contrastantes entre si que subvertem todos os conceitos tradicionais de Deus, energia, salvador, luz, cosmo, etc. Um verdadeiro caos de interpretação irracional, mas de muito efeito sobre o homem moderno, que vem gerando lucros interessantes com o comércio de música, alimentos, velas, duendes, pedras e outros objetos esotéricos que proporcionariam o contato com a energia cósmica, única realidade existente, conforme os teóricos da New Age.
Uma religião, portanto, feita sob medida para cada pessoa, que não compromete eticamente com a justiça e com o próximo, que proporciona talvez um sentimento de segurança para psicologicamente ninguém sentir-se órfão e solitário nesta modernidade que pôs em crise todas as certezas e ideologias. Crer em mitos sem convicção e responsabilidade, perder-se no cósmico, numa busca egoísta de felicidade, sem compromisso ético: um anarquismo espiritual...

Milenarismo no Brasil

No Brasil, pelo menos nesses últimos duzentos anos, tivemos manifestações que podem ser reunidas num milenarismo messiânico-apocalíptico e algumas das quais terminaram com mortes vio-lentas. As mais famosas foram: Canudos (1889), Contestado (1916), as Borboletas Azuis (1970) e muitas outras que ainda existem. O esquema desses movimentos messiânicos brasileiros tem um enredo parecido com os outros movimentos milenaristas, embora na prática apresentem aspectos peculiares da realidade brasileira. Geralmente, eles têm um líder que se apresenta como carismático e prega mudanças do mal para o bem, através de catástrofes. Antônio Conselheiro, o mais famoso, assegurava aos seus seguidores que o sertão árido e seco viraria mar, enquanto os outros, isto é, os que não pertenciam ao movimento dos fanáticos, iriam perecer por castigos divinos.
Os movimentos brasileiros tem como seguidores, geralmente, pessoas pobres e sofridas. Para conseguir essas promessas, elas entregam alma e corpo ao líder, que as manipula, as organiza e as leva ao massacre - físico ou psicológico - porque esses grupos, fatalmente, quando crescem, se chocam com a sociedade organizada.
Outros movimentos milenaristas brasileiros atuais seriam: a Ordem Espiritualista Cristã Vale do Amanhecer, o Santo Daime, os Penitentes do Rosário da Mãe de Deus, os Irmãos da Santa Cruz no Alto Solimões, etc.

O anticristo

Embora nesse artigo ainda não se tenha falado do anticristo, ele é a segunda personagem nas profecias milenaristas do fim do mundo. Na luta entre o bem (Cristo) e o mal (Satanás), ele seria a máxima expressão do mal, o inimigo dos cristãos, não Satanás, do qual seria seu lugar-tenente na batalha final. Ele seria o companheiro da besta apocalíptica marcada pelo número 666, número que, muitas vezes, designa também o anticristo. Ele é descrito em maneira pormenorizada e contraditória em seu aspecto, em suas ações e no tempo de seu aparecimento na terra, por todos os profetas apocalípticos. Dele já se encontram indícios no Novo Testamento, especialmente em são Paulo, na segunda carta aos Tessalonicenses e no Apocalipse de são João.
Essa figura mítica e confusa, deveria aparecer nesse final do segundo milênio para destruir a Igreja, liderar as forças do mal na guerra que deveria acontecer na planície de Armagedon em Israel, entre dois exércitos, o do bem e o do mal. Conforme Nostradamus, o exército do mal viria do Oriente e do bem do Ocidente. Nessa guerra, o anticristo teria, inicialmente, grandes vitórias, perseguiria e mataria muitos cristãos mas, no fim, pereceria pela mão forte de Cristo que iniciará o seu reino de felicidade milenar.
Detalhes dessa bizarra figura e da guerra de Armagedon estão em todos os profetas apocalípticos do fim do mundo e também em videntes como Aranha Preta, Nostradamus, Monge de Pádua, Stéfano Gobbi, Vassula, videntes de Garabandal e outros, segundo os quais o anticristo já estaria no nosso meio e a guerra final já teria eclodido (!?).
No imaginário e nos medos do povo, essa trágica figura foi vista, apontada nos grandes inimigos da Igreja e da humanidade. Para os católicos, anticristo foram os hereges, Maomé, Martinho Lutero e outros, enquanto para os protestantes e para muitas seitas evangélicas até contemporâneas, o anticristo era e seria o Papa. Também foram rotulados de anticristo, Voltaire, Napoleão, Stalin, Hitler, Mao-tse-tung e, ultimamente, Slobodam Milosevic e também Bill Gates, o magnata dos computadores que obrigaria todos os usuários de computadores a se registrarem através de uma senha que seria - segundo dizem - o fatídico 666, a senha da besta.
Na realidade, numa análise despretensiosa das descrições contraditórias desses "profetas" apocalípticos, o anticristo não passa de um mito do cristianismo popular. (ver livro: 2000 catástrofe ou esperança? de Ernesto Arosio, ed. Paulus).

Fim do mundo
Embora não estreitamente ligado ao conceito do milenarismo, todos os profetas, referindo-se ao trecho evangélico dos sinópticos que trata do fim do mundo anunciado por Cristo, falam que o começo do milenarismo acontecerá após o fim do mundo, apresentado com descrições assustadoras. Tentando resumir as "profecias" num único esquema, somente um terço da população iria se salvar dessas tragédias, a destruição será através do fogo, (da bomba atômica?), ou deslocamento do eixo da terra ou de outras maneiras, segundo a fantasia doentia de cada profeta.
Para os não cristãos como a New Age, não seria o fim do mundo que está para acontecer, mas o fim dessa sociedade, das religiões atuais e da Igreja católica e depois nascerá um mundo melhor. Para a New Age, o novo mundo será a Era do Aquário, era de paz e de bem-estar, de partilha das energias benéficas do universo, numa liberdade total, sem restrição nenhuma.

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