Revista "MUNDO e MISSÃO"
Esoterismo
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Na conclusão do ano 2001, com o tradicional canto do Te Deum em agradecimento, João Paulo II foi muito firme na condenação dos horóscopos e todos os tipos de previsões que o povo procura e que, neste começo de ano, enchem as páginas de jornais e revistas no mundo inteiro. Como o papa explicou em seu discurso, essa busca, às vezes tão exigente, que já criou até os horóscopo- dependentes, não serve porque Cristo nunca se dobrou a essa curiosidade e (...) não se deve investigar inutilmente o que é reservado somente a Deus, ou seja, o curso dos eventos futuros. A realidade, porém, é outra. Milhões de pessoas, inclusive católicos que, enquanto tomam seu cafezinho de manhã, procuram as colunas de previsões de vários videntes, como se fosse um ritual indispensável, uma carga psicológica para o dia, que pode ser positiva, se o horóscopo for favorável, ou negativa, se o mesmo for desfavorável. Mas quem são esses horóscopo-dependentes, tão sedentos de conhecer o próprio futuro, que chegam a gastar enormes somas de dinheiro, fazendo a felicidade do videntes e magos para saber o sucesso nos negócios, no amor, no jogo, na saúde? Em geral dizem os estudiosos quem busca com afã essas previsões ou não acreditam em Deus e na sua providência paternal ou pararam de acreditar em Deus. Outros estudiosos, analisando mais racionalmente a universalidade do fato, jogam a causa em cima do pensamento leigo que subtraiu a importância do pensamento religioso no íntimo das pessoas, que vem sendo ocupado por essas crenças em videntes, quiromantes e outros, porque, quando a pessoa perde a segurança psicológica baseada na fé e a capacidade de sentir-se livre e superior diante de eventuais fenômenos que acontecem na vida, necessita acreditar em coisas irracionais que lhe dêem segurança psicológica. O mal que aceita tudo. Esse fenômeno, de fato, atinge não somente as camadas mais
pobres e menos instruídas como deveria ser mais lógico
mas, de maneira especial, as pessoas de cultura superior e nas
regiões mais industrializadas. Essas pessoas recorrem aos videntes
não somente por causas das clássicas motivações
amor, saúde e dinheiro , mas também para orientarem-se
sobre o futuro profissional, o trabalho, a política, os investimentos
econômicos. Quem não ouviu falar de nomes internacionais,
como o presidente francês François Mitterand, as primeiras- Aqui mesmo no Brasil, são bem conhecidos os políticos que, antes e durante as campanhas eleitorais, consultam os videntes tupiniquins e sua parafernália de búzios, dados, mapas astrais, etc. Até não faltou quem, emborase declarasse católico praticante, tivesse como conselheiro pessoal um desses videntes ligados à umbanda. Mas, nem mesmo assim ganhou a corrida eleitoreira. Essas consultas não são nem gratuitas nem baratas, tanto que a profissão de vidente, em todos os países, é rendosa e livre de imposto. Hoje, chega a ocupar espaço na televisão, transformando em estrelas esses magos e fazendo o povo pagar telefonemas, comprar velas, água energizada e toda espécie de amuletos e bugigangas desses espertalhões. Só na Itália, no ano passado, foram constatados 120 mil magos contra 40 mil sacerdotes; os negócios financeiros frutificaram cerca de 2 bilhões e 580 milhões de Euro, isto é, 2 bilhões e 300 milhões de dólares! Quanto dinheiro corre aqui no Brasil, nesse campo, é difícil saber, mas presume-se que seja muito, pois muitas pessoas tornaram-se milionárias com a crendice dos seus clientes. Basta ver a quantidade de propaganda, de livros publicados e todos os tipos de adivinhos e seus mais variados serviços. Mas será que adivinham mesmo? Faz anos que acompanho as publicações de vários videntes e, ano a ano, confiro as previsões do ano anterior para ver se elas se realizaram. A maioria delas não passa de devaneios dos videntes que as atribuem ao sono hipnótico ou transe, em que lhes é revelado o que vai acontecer. Pelo contrário, é até fácil, sem muito mistério, prever a vida de pessoas que aparecem quase diariamente na mídia, porque a vida delas é tão vasculhada pelos holofotes que, lendo diariamente revistas e jornais, pode-se prever o que vai acontecer com boa probabilidade de acerto. Já não é tão fácil assim adivinhar o imprevisto, por isso é que as verdadeiras previsões do futuro ninguém acerta. Assim, para a política de ano passado, encontramos, na revista Previsões 2001, que Antônio Carlos Magalhães iria brigar pela presidência, mas ele renunciou ao cargo de senador para não ser cassado e, portanto, está fora da corrida presidencial. Lemos também que Mário Covas teria a saúde abalada mas, em caso de melhora, poderia ser um bom nome na corrida presidencial. O caso é que o governador de São Paulo já tinha falecido até antes da revista de Amira Lepore ser publicada. No esporte, previa-se que o treinador Leão teria levado a Seleção a um grande sucesso, mas ele se demitiu após uma seqüência de derrotas. Fácil foram as previsões genéricas de revoltas nas penitenciárias nacionais, mas nenhum vidente previu a grande revolta de 28 presídios sob o comando do PCC. Quase todos os videntes previram atos genéricos de terror em vários países com atentado em aeroportos, shoppings, estádios, universidade e tudo seria tramado em Porto Alegre, São Paulo e Rio de Janeiro. Num clima como o atual, o terrorismo é fato quase corriqueiro e o que eles prevêem e publicam, qualquer leitor bem informado pode tranqüilamente prever sozinho. Previram, para o ano passado, grandes mudança políticas em Cuba não muito claras (alguns sugeriram a morte de Fidel, que continua bem vivo), atentado contra a presidente Chavez na Venezuela, a doença mortal do atual papa, entre outros horrores e mortes, mas nada aconteceu. O pior é que nenhum dos espertalhões adivinhos falaram da guerra do Afeganistão e muito menos da destruição das torres de Nova York. Concluindo, devemos realçar a preocupação do papa sobre essa dependência que atinge muitas pessoas e é justo que se alerte sobre o perigo da irracionalidade deste fenômeno que pode tornar as pessoas psicologicamente condicionadas. Quando o homem abdica de seu raciocínio e da liberdade de fazer sua própria história, pode acabar acreditando em qualquer coisa. |
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