Revista "MUNDO e MISSÃO"

Espiritualidade e Missão

 

Dalvan Nagara

Como você vê a sexualidade vivida no mundo moderno?

– Assisti à revolução sexual, que começou na segunda metade do século passado.

Ela teve aspectos positivos:

- a valorização da sexualidade como relacionamento, a valorização dos sentimentos e o fato de olhar para o sexo como uma realidade humana natural.

Porém, surgiu também uma série de outros problemas.

Por exemplo, numa sociedade individualista, o sexo foi-se tornando progressivamente um fato e um gesto cada vez mais pessoal, desligado de qualquer convenção social e também da procriação, através da contracepção: - ninguém pode entrar.

Até a moral se tornou uma ética individual, ou seja, tudo aquilo de que eu goste e que me possa gratificar está bem. Isso determinou uma liberalização sexual, que, porém, em lugar de causar um aumento da felicidade pessoal, manteve intactas as problemáticas sexuais, até mais do que no passado, apesar das expectativas.

Um dos problemas mais difundidos hoje, por exemplo, é a patologia do desejo:

- agora, mesmo podendo manter inúmeras relações sexuais, elas não acontecem porque não há desejo.

E isso não somente em pessoas idosas, mas cada vez mais entre adolescentes.

De maneira que a própria sexologia se pergunta:

por que não vem a resposta que esperávamos? E alguns sexólogos começam a olhar a sexualidade como contendo em si algo misterioso. Cada vez mais se compreende que, desligando a sexualidade do relacionamento amoroso, ela se torna menos gratificante. Esta redução da gratificação, com o passar do tempo, determina também a carência de sentido da sexualidade, que causa aquela falta de desejo.

No Brasil há uma expressão: - a mulher faz amor, o homem faz sexo.

Há uma diferença de gênero.

Como se pode analisar isso?

– Na realidade, a diferença é também de tipo biológico, porque a mulher é muito mais levada à afetividade, a não separar a sexualidade do amor.

A própria excitação sexual feminina é muito mais lenta, mais progressiva; no homem é mais imediata. Parece-me que é mister recuperar o eqüilíbrio conjugal, porque a presença da mulher é como se quisesse continuamente lembrar ao homem a necessidade de reportar o sexo a uma dimensão de amor. Ao mesmo tempo, é como se o homem lembrasse à mulher para ficar mais pronta ao dom do corpo.

A riqueza do relacionamento nasce da integração destas duas dimensões. Porém, devemos considerar que, quando dizemos que a mulher olha mais para o amor do que para o sexo, temos que ter presente que a mulher olha mais para o sentimento, que nem sempre é amor. Muitas vezes confundimos sentimento com amor. É necessário um passo a mais para que tal sensibilidade se torne amor, o que significa ter em conta as exigências do outro.

Afinal, o que é o amor? – Fundamentalmente, significa querer o bem do outro.

No interior do casal, isso deve ser acompanhado pela presença de um sentimento, que, em inúmeros casos, não existe; porém, experimentamos muitas vezes que é possível recuperar o sentimento a partir do desejo.

Porque geralmente notamos esta dinâmica no casal:

- começa-se pelo namoro, quando o sentimento fica muito evidenciado e se imagina que o relacionamento deva ser sempre desse tipo.

Na realidade, o namoro é simplesmente – podemos dizer – um dom que Deus dá ao casal, para que duas pessoas estranhas possam se atrair e estar prontas a deixar suas famílias para construir uma nova realidade entre elas. Mas o namoro não pode se perpetuar, porque é um momento idealístico. Com o namoro, eu me apaixono por uma pessoa que, na realidade, não existe. Seus aspectos negativos me aparecem positivos. Com o passar do tempo, eu me confronto necessariamente com a pessoa real; nisso há um momento de crise, no qual percebo que o sentimento se reduz.

Mas a redução do sentimento não significa que não haja mais amor. Significa que sou chamado a pôr em prática a vontade de amar, de querer o bem do outro, isto é, de me re-apaixonar. Desta vez, trata-se de me re-apaixonar pela pessoa concreta, real; um namoro muito mais sólido do que o anterior. A experiência que eu e minha esposa fazemos é que, embora casados há mais de trinta anos, estamos muito mais apaixonados do que na época de namoro.

O que você disse é algo ideal ou tem a ver com a sexualidade? O que você, médico, diz sobre isso?

– O amor é um aspecto tão importante que, quanto menor, menos gratificante é o sexo.

Duas pessoas que se amam têm maior chance de ter uma relação sexual mais plena. Esta é uma experiência de vida de muitos casais. Muitas vezes, basta resolver o relacionamento afetivo entre os dois, para se solucionar automaticamente sua relação sexual. O aumento do amor torna o sexo mais gratificante; por isso, pessoas de idade podem ter menos relações sexuais, mas, as que têm são qualitativamente mais bonitas. Ou também, quando existe amor, a relação sexual tecnicamente não perfeita pode dar uma plenitude de alegria que vai além do ato. Digo que, além do orgasmo físico, há outro, que chamo de “orgasmo do coração”. Na sociedade atual, individualista e hedonista, parece que a dimensão do verdadeiro amor está desaparecendo.

Isso pode ser comprovado ou é só uma impressão?

– Não sei se havia mais amor antigamente, porque não se conhecia o valor da sexualidade.

Muitas situações matrimoniais se arrastavam. A mulher se tornava instrumento de prazer para o homem, também dentro do casamento. Reparamos que, certamente e apesar da liberalização sexual, as pessoas não são felizes.

Uma resposta que vem também da nossa experiência é:

- procuremos colocar o amor dentro da sexualidade e vamos ver o que acontece.

Devemos considerar, porém, que se colocam, com freqüência, muitas expectativas no relacionamento sexual. Procura-se ter contínuas relações em busca da plena gratificação, mas parece que nunca se consegue alcançá-la. Além disso, devemos considerar que, quando a relação sexual é tecnicamente perfeita e gratificante, pode deixar no espírito um sentimento de insatisfação e isso existe também quando há amor. Isso ocorre porque a alma humana nunca pode ser totalmente repleta por outra pessoa; nosso coração é feito para o infinito.

De certa forma, o impulso sexual, no fundo, é a necessidade que temos do outro, é algo que nos leva continuamente a entender que nós, sozinhos, não somos auto-suficientes. E então, de maneira indireta, a necessidade sexual esconde algo mais profundo, que é a necessidade de Deus. Há pessoas que passam de uma relação sexual a outra e não percebem que, inconscientemente, estão indo à procura de Deus. Antes de se relacionar plenamente com outro/a, você deve se relacionar bem consigo mesmo/a. Faça um comentário sobre tal afirmação.

Para amar alguém, devemos ter apreço por nós mesmos, isto é, devemos amar a nós mesmos. Amar a si significa a estima de si mesmo, isto é, a capacidade de entender que cada um tem uma riqueza, uma potencialidade. Amar-nos como somos, com todos os dons e defeitos, sem egoísmo. Se existe esta aceitação profunda de nós mesmos, então somos capazes de amar os outros gratuitamente; se não, esperamos dos outros algo que venha a reforçar nossa auto-estima e aí isso se transforma em egoísmo.

– Leitura
“O amor tem mil faces sexualidade e vida conjugal”
de Raimondo Scotto - Cidade Nova

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