Revista "MUNDO e MISSÃO"
Espiritualidade e Missão
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Iniciamos uma nova seção, inspirada na liturgia dominical. Ela não quer ser um comentário exegético ou um subsídio litúrgico, mas simplesmente alguns flashes para uma leitura em chave missionária da Palavra de Deus apresentada na liturgia Costanzo Donegana
1.º Domingo da Quaresma – 05/03/2006 - “O tempo já se completou e o Reino de Deus está próximo. Convertei-vos e crede no Evangelho!” (Mc 1,15). Missão não é, antes de mais nada, iniciativa do homem; ela é irrupção do Reino na história, na pessoa concreta de Jesus. Deus dá o primeiro passo ao encontro da humanidade: - Jesus vem para recriar (= nova criação) a realidade conforme o projeto de Deus. É o Evangelho (= Boa Notícia), que, antes de ser palavra, é pessoa que se aproxima dos pobres, doentes, pecadores, marginalizados, para revelar-lhes que o Reino é, em primeiro lugar, para eles. Eles não têm nada para dar a Deus e, por isso, estão abertos para tudo receber. Isso não se identifica com passividade ou fatalismo. Jesus pede duas atitudes, que mexem com as estruturas fundamentais do homem: conversão e fé. O encontro com Ele, com o Evangelho, muda radicalmente a vida da pessoa: - a conversão não é aceitação de um número de verdades, passagem de um ritual para outro, obediência a um código de ética, mas descoberta de um Outro que ama e que espera uma resposta que tenha a mesma qualidade. Amor por amor. A fé no Evangelho é abandono confiante nAquele que é Palavra. Palavra que abre a esperança, que dá sentido à vida, que muda nosso relacionamento com Deus e com os outros. Ter fé significa saber porquê e para quê (e para Quem) vivemos; caminhar em todas as situações da vida, orientados para a meta. O missionário da Boa Notícia é chamado, em primeiro lugar, a converter-se àquilo (e a Quem) ele anuncia, porque ele não é simples divulgador de um bom produto, mas um apaixonado que transborda a experiência que está vivendo. 2.º Domingo da Quaresma – 12/03/2006
“E assim, na carne de Nosso Senhor, fez irrupção a luz do Pai. Depois, irradiando da sua carne, ela veio em nós, e, desta maneira, o homem teve acesso à incorruptibilidade, pois que estava envolvido pela luz do Pai” (Santo Irineu). A transfiguração é um dos acontecimentos mais significativos do Evangelho; para quem participou, como Pedro, foi tão marcante que o lembra, muitos anos depois, na sua segunda carta (1,16-18). É um relâmpago deslumbrante, que aparece de repente e logo se apaga, com o qual Jesus quer abrir os olhos dos discípulos sobre sua realidade profunda e sobre a vocação deles. O fato acontece num contexto de medo e preocupação por parte dos discípulos, chocados pelo anúncio de Jesus sobre seu caminho rumo à cruz, que deverá ser também o destino dos seus seguidores. É missão do Messias e dos apóstolos romper o véu da natureza humana (cruz), para deixar fluir a luz da divindade (ressurreição, antecipada na transfiguração). Não se trata de oposição entre os dois momentos, alimentada por um desprezo pelo humano de tipo maniqueísta, mas, ao contrário, da revelação do mistério da vida, que sabe fazer jorrar as águas mais puras da rocha dura. Jesus quer dizer aos apóstolos – e a todos nós – que a cruz, por Ele anunciada, não é condenação, e sim, se for amada, fonte inesgotável de vida. Excluamos esta verdade do Evangelho e a terra tornar-se-á um deserto. Omitir isso da missão é trair homem e mulher, condenando-os a viver na opacidade e até no desespero, sem possibilidade de serem iluminados pela luz da transfiguração, que dá sentido à dor e confere dignidade aos humilhados e excluídos da sociedade. 3.º Domingo da Quaresma – 19/03/2006 É importante não se deter, no episódio da expulsão dos mercadores do templo de Jerusalém, no aspecto superficial da ira de Cristo, que o leva a varrer do lugar sagrado aqueles que o estão profanando. A atenção de João, em relatar o fato, está concentrada no significado do templo em referência à pessoa de Jesus: - “Destruí este templo e, em três dias, eu o levantarei... Jesus estava falando do templo do seu corpo” (2,19;21). Esta súbita passagem do templo de pedras ao templo do corpo de Cristo nos abre a visão da nova dimensão trazida por Ele, e que constitue um dos aspectos centrais da missão: - é uma “dessacralização” de objetos, lugares, tempos, para inaugurar o culto “em Espírito e em verdade” (Jo 4,23), não ligado a objetos, lugares, tempos, porque realizado “uma vez por todas” (Hb 9,12) com a oferta do corpo de Cristo “a Deus, como vítima sem mancha” (9,14). Por isso, Jesus não construiu templos, nem pediu a seus discípulos que o fizessem. Não quer dizer que isso não seja útil e até necessário, mas, para Ele (e para a Igreja), o verdadeiro lugar do encontro com Deus é seu corpo, porque fazendo-se homem e oferecendo-se em sacrifício ao Pai, Ele restabeleceu a comunhão entre o homem e Deus, prejudicada pelo pecado. As igrejas materiais são somente o lugar onde esse encontro pode acontecer. Para a missão, este fato significa a certeza, vivida e proclamada, que só o Cristo morto e ressuscitado é a salvação. Parece óbvio, mas nem sempre esta verdade se traduz na vida concreta, porque este “templo” é, muitas vezes, repleto de coisas (que podem ser práticas religiosas, atividades “apostólicas”...), que impedem o acesso ao Santo. O missionário – e a comunidade cristã – tem uma única coisa a fazer: - mostrar a presença de Jesus, sem impedimentos, àqueles que pedem: - “queremos ver Jesus!” (Jo 12,21). E, fundamentalmente, isso se traduz no amor recíproco: - “ninguém jamais contemplou a Deus. Se nos amarmos uns aos outros, Deus permanece em nós”. 4.º Domingo da Quaresma – 26/03/2006 Aproximando-nos da Semana Santa, a cruz começa a projetar sua sombra (ou seu feixe de luz) sobre nós: - o Filho do Homem levantado é o ponto de atração dos olhares das pessoas, vítimas das “serpentes” que se arrastam no mundo à espreita para atacar. Ele é o sinal (o maior) que “Deus amou o mundo” (Jo 3,16) e não quer condená-lo. Olhando para Ele, renasce a esperança no coração dos homens e das mulheres, porque, entre os muitíssimos objetos que podem ser admirados, só este Filho de Deus e filho do homem, pendurado num madeiro, torna Deus tão próximo da humanidade sofredora e desanimada. Há quem levante a cabeça e fite seu olhar nele, mas há também os que “preferiram as trevas à luz” (3,19), não por uma ideologia, mas “porque suas ações eram más” (ib.). A fé está ligada indissoluvelmente à obediência à vontade de Deus (“fazer a verdade”, v.21) e não é mera aceitação de verdades que satisfazem nossa pesquisa intelectual. O evangelizador não pode se reduzir a um catequista, que estudou a doutrina cristã e a transmite fielmente, de cabeça para cabeça. É uma pessoa que olha para o Filho do Homem levantado, atraída pela luz que dEle emana e ajuda os outros a fazerem o mesmo, afastando a vista dos objetos ilusórios e falsos. A missão é discernimento, que nasce da descoberta do amor de Deus (não da sabedoria humana) e que enche os olhos de luz. |
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