Revista "MUNDO e MISSÃO"

Espiritualidade e Missão

por Estêvão Raschietti

avier nunca teve uma paixão especial pela vida marítima. Contudo, ele tornou-se uma testemunha exemplar, navegando por diversos meses em seguida, visitando muitas nações, incorrendo em tempestades, enjôos, naufrágios, piratas, autoridades (portuguesas) sem escrúpulos, atentados, fome, sede, doenças ...

Nada freava o ímpeto deste missionário, nem a imensa saudade da família, nem os “sensatos” conselhos dos amigos. Para ele, “viver sem alegrar-se de Deus não seria uma vida, mas uma morte contínua”. Por isso, vale a pena “perder a vida temporal para ir ao socorro da vida espiritual do próximo”. Esse “desprezo” do perigo e da morte foi talvez amadurecido desde a infância dura e difícil, marcada pela guerra, por invasões, destruições, dominações, pela morte do pai em batalha e pela prisão dos irmãos. No nobre castelo onde ele nasceu em 7 de abril de 1506, em Navarra, hoje pertencente à Espanha, há uma capela com um crucifixo que ri e pinturas que retratam esqueletos que dançam. É a dança da morte e de quem não tem medo dela, de quem burla o destino, desafiando as desavenças, e de quem se alegra pela vitória da verdadeira vida.

A vocação missionária

Com 19 anos, Francisco Xavier, o caçula da família, é enviado a Paris para estudar na universidade e tornar-se padre. Esta “vocação”, no entanto, é apenas a busca por uma carreira de prestígio, que deve levá-lo a ocupar um cargo entre os cônegos da catedral de Pamplona. Durante a sua longa estadia em Paris encontra Inácio de Loyola. A profunda amizade que nasce entre os dois, conduz Francisco a uma verdadeira conversão à vida evangélica. Junto com Inácio e outros cinco companheiros funda a Companhia de Jesus e parte rumo a Jerusalém com a intenção de levar aos muçulmanos um singelo testemunho de pobreza e de entrega a Deus. As conjunturas históricas, porém, inviabilizam a realização desse projeto, e o pequeno grupo de religiosos é convidado pelo papa Paulo III a ficar na Itália, evangelizando o povo e cuidando dos doentes. Era uma época difícil para a Igreja, marcada pela acomodação eclesiástica e pela reforma protestante. Os sete devotos e íntegros pregadores devem ter sido vistos como pioneiros de uma inesperada renovação cristã. A fama da Companhia chega logo ao rei de Portugal, que expressa o desejo de levar alguns destes padres para as colônias portuguesas na Ásia. Dois deles são escolhidos, mas um fica improvisamente doente. Francisco é chamado a substituí-lo. E ele prontamente se dispõe a sair de Roma, despedindo-se de seus grandes amigos, para nunca mais revê-los. Durante os dez anos que passará na Ásia, receberá apenas cinco cartas deles, por causa das distâncias e das dificuldades de navegação.

Junto aos pobres

Começa assim, ao acaso, a vida missionária de Xavier, marcada dali em diante por contínuas despedidas. Em abril de 1541, embarca em Lisboa rumo à Índia, onde chega treze meses depois, ancorando na cidade de Goa. Mesmo tendo sido enviado às Índias com o título de embaixador do Papa, Francisco escolhe morar com os pobres num hospital, como era seu costume. Lá, ele cuida dos doentes, prega, confessa incansavelmente. Seu testemunho de vida lhe outorga logo a fama de santo. Francisco sabe como atrair muita simpatia e admiração, cativar as pessoas através da alegria, da animação e da amizade. Seu carisma e sua atenção, sobretudo com os pobres e com as crianças, são excepcionais. Com certeza, ele consegue um certo sucesso em Goa, na costa da Pescaria, no sul da Índia, em Malaca, na Malásia e nas ilhas Molucas, na Indonésia, apesar do número um tanto exagerado de conversões que lhe são atribuídas. Mas também enfrenta dificuldades com as autoridades locais, que perseguem os recém-convertidos, e com os soldados portugueses que, em vez de ajudá-lo no seu trabalho de evangelização, causam ainda mais problemas, devido a seus costumes depravados. Xavier reconhece as injustiças, às quais os povos indígenas são submetidos, e não tarda em se distanciar do poder colonial ou, pelo menos, levantar a voz diante dessa situação, dirigindo-se por carta ao rei de Portugal com palavras duras.

Rumo ao desconhecido

Por estes e outros motivos, Francisco decide ir para o Japão, longe do mundo muçulmano e distante do mundo mestiço. Seu projeto missionário começa a abandonar a idéia de uma necessária integração do mundo asiático à sociedade ocidental, extraviada pelo espírito colonial e pelos interesses comerciais. Em Malaca, tem um significativo encontro com um japonês de nome Anjiro, que lhe abrirá os olhos diante da realidade de um mundo novo e diferente, uma realidade onde os métodos missionários, aplicados na Índia e em Goa, não poderiam ser usados. Longe de ignorar a cultura local e a religião xintoísta do Japão, Francisco não só demonstra interesse como também o irresistível desejo de aprender. É o momento em que a figura do discípulo prevalece sobre a do apóstolo, o “conquistador” deixa espaço ao navegador “lançado” rumo ao desconhecido.O nosso missionário chega em Kagoshima no dia de Nossa Senhora da Assunção, 15 de agosto de 1549. Hoje, lá se encontra um monumento para relembrar essa data.

Aprendendo com o povo Agora

Francisco entende que deve ter mais paciência: primeiro é preciso aprender a língua, os costumes locais, a mentalidade da sociedade japonesa. Ele é um dos pioneiros ocidentais a “descobrir” o Japão e a descrever seu povo, que admira profundamente mais do que qualquer outro. Aos poucos, e graças a uma equipe esforçada de colaboradores, aproxima-se daquele mundo, acerta a linguagem e ganha seu espaço, apesar da hostilidade dos sacerdotes locais, guardiões das religiões tradicionais. Quando o trabalho começa a oferecer os primeiros frutos, Francisco deixa as pequenas comunidades recém formadas aos cuidados de dois companheiros para voltar à Índia. Ele não pode deixar de cuidar também das outras missões. Sua preocupação principal, porém, é planejar uma viagem para a China.

Um grande sonho

Com o título de embaixador, outorgado pelo vice-rei da Índia, única forma de ter acesso à China, inicia os preparativos. Mas a oposição de muita gente a tal desígnio fará com que a idéia pouco ultrapasse as intenções. As dificuldades parecem impossíveis de serem vencidas. Mesmo assim, Xavier não desiste. Com um pequeno grupo de colaboradores chega à ilha de Sancian, às portas da China. Enquanto aguarda pela última travessia, é atingido por uma doença, da qual morre em 3 de dezembro de 1552. Xavier é abandonado por quase todos, sem concretizar seu mais ousado e ambicioso projeto. Ele é como Moisés, que avista a Terra Prometida sem poder entrar nela. Sua visão de chegar às portas da realização do seu sonho é a herança do impulso, da audácia e da vitalidade missionária que deixou à posteridade.

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