Revista "MUNDO e MISSÃO"

Espiritualidade e Missão

Dom Charles Lavigerie
O defensor dos escravos africanos

partir de 1850, apareceram na Europa grandes figuras de missionários que modificaram a fisionomia da cristandade, ao abrir missões em países até então desconhecidos. Eram bispos, sacerdotes, leigos. Houve, neste ardor missionário, o surgimento de institutos estritamente missionários, obras missionárias como a Santa Infância, revistas missionárias relatando a epopéia dos missionários e missionárias, e que levaram à Europa, os conhecimentos de povos e nações ainda ignorados.


"Sou um homem e nada do que é humano
é estranho para mim"

Entre eles, queremos lembrar um grande e controverso missionário, dom Charles Lavigerie, cuja figura pode ser um exemplo atual contra as tantas escravidões que continuam a existir no mundo. Dom Lavigerie nasceu em 31 de outubro de 1825, nos Pireneus franceses; foi ordenado sacerdote em 1849. Como sacerdote, ocupou delicadas funções diplomáticas na França; no Vaticano; na Universidade da Sorbonne; na fundação e direção da “Obra da Escola do Oriente”.

Em 1863, foi sagrado bispo da cidade de Nancy, na França, mas foi a partir de 1867, quando eleito bispo de Argel, então colônia francesa, que modificou toda sua atividade pastoral. Ele considerava a sua diocese, tão vasta quase como toda a África saariana, como a porta de entrada para a África islâmica e a África negra. Depois de dois anos de sua posse na diocese, fundou, em 1868, a Congregação dos Missionários da África, mais conhecidos como Padres Brancos pela longa túnica branca adotada como batina e, em 1869, fundou a Congregação das Irmãs Missionárias de Nossa Senhora da África.

A intenção de Dom Lavigerie era, principalmente, de dialogar com os islâmicos, mas o contato era difícil. Duas expedições de missionários foram assassinadas pelos guias tuaregs. Em vista visto, o bispo enviou seus missionários para os negros da região dos Grandes Lagos, freqüentemente vítimas dos mercadores de escravos. Em 1878, enviou a primeira expedição de missionários para Zanzibar, seguida por outras que fundaram comunidades cristãs entre os negros, mas as dificuldades da região, ainda primitiva, ceifaram muitos missionários.

Apesar das dificuldades, a missão foi implantada. A esta se seguiram outras fundações em países e nações africanas como Uganda, Tanzânia, Argélia, Tunísia, Congo. Embora trabalhando na África e para ela, dom Charles Lavigerie mantinha uma forte presença na França e na Igreja européia, tanto que, em 1882, foi elevado ao cardinalato. Ao receber a púrpura cardinalícia, declarou publicamente: “Queria estender sobre os missionários este manto de honra. Eles o merecem mais do que eu”.

Dedicou os últimos anos de sua vida principalmente à libertação dos escravos negros e à luta contra o comércio deles. Conseguiu sensibilizar a Europa e seus governos que, em 1888, organizavam a Conferência Internacional de Bruxelas contra o comércio negreiro e para a abolição da escravidão. Faleceu em 1892 com 67 anos, em Argel, esgotado pela sua frenética atividade missionária. Espírito independente, embora assumisse posições livres, e apesar de ser francês e trabalhar numa colônia francesa, sua obra não foi nada favorecida pelo governo de Paris.

Dom Lavigerie dizia: “sendo um montanhês nascido nas montanhas dos Pireneus, nenhuma dificuldade me amedronta. Quando não posso superá-la diretamente, eu a rodeio, mas eu consigo chegar ao meu propósito”. Sua determinação revela a pertinácia em conseguir seus projetos. “Sou um homem e nada do que é humano é estranho para mim”

“A crueldade contra tão grande número de meus semelhantes – os escravos –
nada me inspira senão revolta e horror”

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