Revista "MUNDO e MISSÃO"

Espiritualidade e Missão

Fundamentos da
espiritualidade missionária

Parte 3

por Daniel Lagni

Uma espiritualidade de comunhão

Igreja será sacramento universal de salvação (Lumen Gentium), à medida que for um reflexo da comunhão trinitária de Deus. O testemunho de vida em comunidade fraterna emerge como sinal necessário para quem quer pôr-se a serviço das vítimas da injustiça e procura criar um mundo mais fraterno. É o amor de Deus difundido em nossos corações, por meio do Espírito, que está na origem da comunidade. A comunidade existe para revelar ao mundo o modo de ser de Deus.

Ela é sacramento, sinal de Deus, comunhão. É a comunidade que ensina o primado do amor, a gratuidade do perdão, o acolhimento do diferente, a partilha de bens, a solidariedade para com o pobre, a oração de mãos dadas, o modo de viver das bem-aventuranças, os valores do Reino. É um modo de viver em que as pessoas se sentem reconhecidas, não tanto pelo que fazem, mas pelo que são. É a gratuidade dessa atitude que anuncia o Reino. É essa a maneira de ser de Deus.

A comunidade, pelo que ela exige como abertura ao diferente e respeito pela diversidade cultural, emerge cada vez mais como o modelo de vida mais coerente com a missão do nosso tempo. Viver a unidade na diversidade é uma escola de longa aprendizagem. Um exemplo: uma comunidade de freiras dominicanas, no norte do Burundi, onde tutsis e hutus vivem e rezam juntos, em paz, num país onde as duas etnias estão em permanente conflito.

Uma espiritualidade de fronteira

A missão revela a verdadeira imagem de Deus no nosso mundo. Na Idade Média, os cristãos mostravam a beleza de Deus por meio das pinturas e gravuras dos santos nas igrejas e catedrais. Hoje, Cristo encontra-se em outras igrejas, em outras catedrais. É lá que é preciso procurá-lo e mostrá-lo ao mundo de hoje. Encontramo-lo desfigurado nas periferias, nos barracos de lona que cheiram mal, nas margens da exclusão. É o Cristo pobre e desprotegido, marginalizado pela sociedade de consumo e excluído da aldeia global.

O espaço dos direitos humanos e da luta pela justiça é hoje um espaço particularmente significativo para uma espiritualidade missionária, sobretudo para uma espiritualidade de fronteira. Viver na fronteira é viver na insegurança, e os nossos esquemas espirituais situam-se quase sempre noutro espaço muito mais confortável. Nós temos dificuldade em encontrar uma espiritualidade, situada no mundo dos oprimidos. As suas condições de vida, como as de todos os pobres, deixam pouco espaço para os nossos parâmetros espirituais.

É necessário aprender a exprimir as realidades duras destas situações numa espiritualidade adequada. A verdade é que esta fronteira tornar-se-á cada vez mais um espaço de missão. Será uma espiritualidade simples, construída a partir do cotidiano, do provisório, do dia-a-dia, na crua realidade dos acontecimentos que se vivem. Terá muitas vezes de lidar com ambientes hostis ou alérgicos ao Evangelho, em situações de luta e de improvisação que caracterizam a vida dos pobres.

De qualquer modo, são estes pobres que nos evangelizam e nos ensinam a exprimir, numa situação nova, os valores fundamentais de uma espiritualidade missionária:

como recuperar a nossa disponibilidade, como viver na insegurança, como apreender a simplicidade de vida, a espontaneidade da oração, como fazer da vida uma oração. E, na fronteira, descobrimos a fisionomia da missão verdadeira. Quando se visita a Basílica de Assis, na Itália, mais que os famosos afrescos do pintor Giotto, o que as pessoas procuram ver é o túmulo de São Francisco. Quando se visita Calcutá, é o túmulo da Madre Teresa que atrai as pessoas. São eles, santos do nosso tempo, os verdadeiros rostos da missão.

Uma espiritualidade de risco e insegurança

Outro desafio da espiritualidade missionária hoje é o das situações de conflito. O Papa João Paulo II diz que o retorno dos mártires é um dos sinais mais eloqüentes da missão do nosso tempo. O número de cristãos mortos violentamente ao longo do século 20 chega a algumas centenas de milhares. Todos os anos, o número de missionários mortos violentamente é de mais de três dezenas. Hoje, um pouco por toda parte, sobretudo em terras de missão, as situações de insegurança aumentam.

O martírio do missionário, hoje, não nasce tanto de uma profissão explícita da fé, mas da sua comunhão com os outros mártires: os humilhados e excluídos da história. Chamemos-lhe campos de refugiados, fundamentalismo muçulmano, guerra étnica, intolerância religiosa, miséria estrutural, luta pelos direitos mais elementares. É o espaço de martírio que hoje cobre uma vasta geografia, sem tempo nem limites definidos.

Dois anos antes de serem assassinados na Argélia pelos integralistas muçulmanos, os sete monges trapistas do mosteiro de Thibirine, fizeram um retiro durante o Tríduo Pascal, pregado pelo superior da comunidade, o pe. Christian de Chergé, cujo tema foi precisamente o martírio.


A única segurança que o missionário tem é a do Espírito que o envia, e de que terá de caminhar “como se visse o invisível”

O pe. Christian falou de três espécies de martírios típicos da missão de hoje:

o martírio da caridade, o martírio da não-violência ou dos inocentes, e o martírio da esperança. O martírio da caridade consiste em amar os outros até dar a vida por eles: ficar a seu lado nas horas em que a comunhão, a solidariedade, são a única maneira de ficar ao lado de Cristo. É a missão da comunhão, da presença, da solidariedade. O martírio da não-violência é o martírio dos inocentes, dos desarmados, dos despojados de todas as defesas, dos que não sabem defender-se, nem têm quem os defenda. É a missão da incompreensão, da solidão da cruz, da “hora de Jesus”.

O martírio da esperança fala-nos de uma confiança a toda prova no amor de Cristo pelo mundo, da paciência de Deus, do viver na fronteira, quando tudo aconselha a refugiar-se na retaguarda. É a missão da semente, do tempo que há de vir, do acolhimento dos tempos de Deus. Esta insegurança não é apenas física, mas também psicológica. Antigamente partia-se para a missão para toda a vida. A missão identificava-se com a Igreja missionária. Hoje, nunca sabemos até quando a nossa presença é necessária ou permitida. Somos hóspedes em terra estrangeira, e o hóspede depende de quem o acolhe.

O missionário além-fronteiras é um hóspede que estabelece sua morada na casa de outro povo e de outra cultura:

– Ser hóspede é viver uma situação de dependência. É obrigação do hóspede acolher e valorizar o que lhe é oferecido. Não cabe a ele selecionar, mudar. Vive a gratuidade do ser acolhido, do ser incluído na cultura e no mundo do outro. Sua casa é a casa do outro.

É casa emprestada na morada do outro.

– É preciso muito tempo para que o hóspede seja aceito, mas quase nunca chega a ser membro da família, do clã.

– Ser hóspede é um desafio, e uma condição necessária para o missionário. É na condição de hóspede, que o missionário comunica e aprende, partilha, transmite e recebe, sabendo sempre que o Espírito Santo antecede sua chegada.

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