Revista "MUNDO e MISSÃO"

Espiritualidade e Missão

As palavras de fogo
de Vieira

“Neste mundo há muitas misérias que não são ignorâncias,
e não há ignorância que não seja miséria...” (Pe. Vieira)

por Sangria de Melo

ntônio Vieira nasceu em Lisboa no dia 6 de fevereiro de 1608. Seu pai se chamava Cristóvão Vieira Ravasco; a mãe, Maria de Azevedo. Chegou ao Brasil em 1614, ainda criança, e fez seus estudos na única escola da época em Salvador: o colégio da Companhia de Jesus. Um dia – conta-se –, o menino sentiu um estalo na cabeça, enquanto rezava à Virgem das Maravilhas, e esse mesmo estalo clareou-lhe as idéias e o tornou brilhante na oratória, para espanto de seus professores e colegas.


Desenho de Pe. Vieira por
Cândito Portinari

Aos 15 anos, descobriu sua vocação sacerdotal. O jovem cultivou seus primeiros dias de religioso na aldeia do Espírito Santo. Atraído pela ação missionária, dedicou-se à tarefa da catequese. Mais tarde, além de teologia, aprofundou-se em lógica, física, metafísica, matemática e economia. Em 1627, Vieira passou a lecionar retórica em Olinda. Logo depois, viu-se pregando na Bahia, onde foi ordenado em 1634. Lecionava teologia. Mas sua fama de pregador superou a de teólogo.

O respeito à sua palavra cresceu à medida que defendia pobres e oprimidos, sobretudo os índios. Aos escravos africanos, porém, pedia que aceitassem sua condição como vontade de Deus. Em 1640, dom João IV subiu ao trono e restaurou a monarquia portuguesa. E Pe. Vieira, fiel ao rei e obediente à hierarquia, embarcou para Lisboa com a missão de apresentar a fidelidade do Vice-Rei do Brasil, dom Jorge de Mascarenhas, ao novo soberano de Portugal.

Naquele período, dom João IV, vivia momentos difíceis, tanto no aspecto econômico quanto na expressão política. Então surgiu Vieira, cativando a amizade da família real com os seus eloqüentes e penetrantes sermões. O Sermão da Sexagésima foi um dos mais famosos, entre tantos. Foi proferido na Capela real de Lisboa em março de 1655. Através dele, o pregador esmerou-se na retórica, contando com sua memória prodigiosa e rara habilidade no domínio da palavra.

As palavras de Vieira transformaram-no em um orador digno de fé e despertavam nos ouvintes uma paixão transformadora. “Antigamente convertia-se o mundo, hoje por que não se converte ninguém? Porque hoje pregam-se palavras e pensamentos, antigamente pregavam-se palavras e obras. Palavras sem obras são tiros sem balas; atroam mas não ferem.1” Além da temática religiosa, Vieira cultuou com prazer o apostolado político e social, podendo, dessa maneira, estar presente em questões que diziam respeito à coisa pública.


Página de rosto da primeira
edição da obra Sermões
vários e tratados

Sua oratória permitiu-lhe ser missionário e lhe reservou um lugar elevado graças à facilidade de produzir textos e à maneira de se comportar no púlpito. Para ele, o púlpito foi um lugar privilegiado para emitir juízos críticos e opiniões severas sobre assuntos de natureza mundana. Vieira foi um autêntico homem público, confirmado pelos aplausos que seus admiradores sempre lhe dirigiam. Em 1681, debilitado pela idade, Vieira abandonou a Corte e regressou à Bahia.

Trabalhava ordenando os sermões para transformá-los em livros. Fez suas últimas pregações, e não conseguia mais escrever com o próprio punho. Morreu na Bahia, em 17 de junho de 1697, com 89 anos, deixando uma esteira de pregações religiosas, missionárias, em favor dos mais sofridos. A igreja de Nossa Senhora da Ajuda, na Bahia, assim como muitas outras igrejas do mundo, guarda a lembrança de pe. Antônio Vieira, cujas palavras queimavam.

A autora é Mestranda da PUC-SP
Literatura e Crítica Literária
1 VIEIRA, Pe. Antônio (1995).
Sermão da Sexagésima.
São Paulo: Cultrix

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