Revista "MUNDO e MISSÃO"

Espiritualidade e Missão

Grígory Mendes

oger Schütz nasceu na região de Jura (Suíça), em maio de 1915. Foi o último dos nove filhos de um pastor protestante. Uma tuberculose pulmonar, que o imobilizara na juventude, despertou-lhe forte desejo de criar uma comunidade que pudesse abrigar, sob um único teto, cristãos reconciliados. A semente da comunidade nasceu enquanto estudava teologia protestante em seu país. Na condição de presidente da Federação de Estudantes Cristãos, Roger organizava reuniões de estudo e aprofundamento, que atraíam muitos universitários.

Em 1940, Roger foi morar na França, a pátria da sua mãe. Em plena guerra mundial, estabeleceu-se em Taizé (pronuncia-se tezê), cidadezinha próxima de Cluny, na Borgonha, onde comprou uma casa abandonada. Com a ajuda da irmã Geneviève, acolhia refugiados de guerra, principalmente eslavos e judeus. Denunciados pelos nazistas, eles abandonaram Taizé em 1942. Em 1944, Roger retornou. Três outros “irmãos”, aos quais confiou seus propósitos, o acompanharam. E assim surgiu a Comunidade de Taizé, que dividia seu tempo entre trabalho e oração.

Na Páscoa de 1949, Roger e seus companheiros (já eram oito) se consagraram ao celibato e à simplicidade da vida comunitária. O sonho da unidade entre os cristãos e entre as nações começava a tomar forma. A comunidade nascente tornar-se-ia um verdadeiro mosteiro de monges de diversas Igrejas cristãs, decididos a viver juntos a aventura da busca da unidade. “Irmão Roger nos ensinava – testemunhou um companheiro – a nos dividir entre o amor a Deus e o amor aos homens”. Em 1952, no silêncio
de um longo retiro, irmão Roger escreveu a Regra de Taizé.

Um dos itens diz:

“Ama teu próximo, seja qual for a sua visão religiosa ou ideológica”. A vila se transformou em local de oração e de diálogo, ponto de encontro para pessoas de diversas confissões religiosas e principalmente para milhares de jovens que, do mundo todo, começaram a acorrer à Comunidade em busca de oração e recolhimento.

Homem de ação, irmão Roger ensinava: “Feliz aquele que tira as mãos da frente dos olhos e arrisca avançar, sustentado apenas pela confiança da fé”.

Mas, ao mesmo tempo, demonstrava a mística de São João da Cruz:

“Às vezes – dizia – a oração é o combate interior. Às vezes, é simples abandono de todo o ser em Deus, no silêncio, sem palavras”. Em 1962, irmão Roger participou, como observador, do Concílio Vaticano II, quando conheceu Karol Wojtyla, arcebispo de Cracóvia, que se tornou seu amigo e que visitaria a Comunidade pelo menos duas vezes (retornou a Taizé em 1986, como papa). Irmãos de Taizé e jovens começaram a peregrinar pelos países do Leste, levando a mensagem da unidade. Da mesma maneira, Taizé se espalhou pelo mundo inteiro, promovendo encontros, sobretudo de jovens (Concílios de jovens, Peregrinação de Confiança).

A experiência de Taizé rendeu ao irmão Roger o prêmio Unesco da Educação para a Paz, em 1988. Esta vida de oração, de fé e de apelo à unidade cristã foi ceifada tragicamente no dia 16 de agosto deste ano de 2005, enquanto Roger conduzia a oração da tarde à frente da Comunidade. Dois mil e quinhentos jovens participavam da cerimônia, quando uma mulher romena, mentalmente insana, aproximou-se do ancião de noventa anos e o esfaqueou por três vezes. Apesar do socorro imediato, irmão Roger não sobreviveu.

Suas últimas palavras foram: “O canto continua...”

A seu respeito, dom Cláudio Hummes, arcebispo de São Paulo, declarou: “Seu projeto ecumênico e sua Comunidade de Taizé são um dos principais sustentáculos do diálogo ecumênico. Mas também o é o seu carisma no trabalho com os jovens do mundo. Fez um bem imenso aos jovens. Levou-os a pensar em termos de mundo, na luz de Jesus Cristo. Formou-os para o diálogo e a construção da paz entre as religiões e entre os povos”.

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