Revista "MUNDO e MISSÃO"
Espiritualidade e Missão
Inúmeras
vozes, por Pontifícias Obras Missionárias O FLAGELO
E este número aumenta durante os períodos de escassez, seca e conflito armado. Segundo estimativas da ONU, a subnutrição é um fator determinante da morte anual de treze milhões de crianças com menos de cinco anos. Segundo o Relatório da ONU-2003 sobre o desenvolvimento humano, se não se conseguir inverter a tendência negativa atual, em algumas regiões do mundo, como na África Subsaariana e na América Latina, haverá um progressivo e irreversível empobrecimento. A Aids age como uma foice. Crianças e adolescentes são suas maiores vítimas. Em 2000, cerca de 600 mil crianças, com menos de 14 anos, contraíram o vírus HIV, e, em 2002, mais de 4,3 milhões de pessoas morreram em conseqüência do vírus, das quais 500 mil eram crianças, segundo dados do Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef). Nenhuma outra região do mundo foi atingida tão duramente como os países da África Subsaariana, com três quartos da população infectada. Neste contexto, é incontável o número de órfãos. O Programa da ONU que se ocupa da luta contra a Aids (Unaids) contabilizou um total de 250 mil crianças, com menos de 14 anos, que ficaram órfãs por causa do HIV, em 2001. Trezentas mil crianças são utilizadas como soldados em 20 países, do Afeganistão à Colômbia, passando por Serra Leoa e os territórios palestinos. A denúncia está em um informe do Unicef, divulgado em Paris. Carol Bellamy, diretora do órgão, alertou que a utilização de meninos-soldados está aumentando. Jacques Hintzy, Presidente do Unicef-França, ressaltou que cresce também a presença de meninas entre os menores soldados: “Exceto no Afeganistão, por ser fundamentalista islâmico, não há nenhuma outra guerra sem meninas”. As crianças vêm atuando, não apenas em tarefas logísticas, mas também nos próprios combates. Além disso, elas sofrem uma extrema violência sexual. Na Colômbia, por exemplo, as meninas representam um terço do total de crianças ligadas a grupos armados. Em Uganda, são 50%. Quando elas se tornam combatentes, estão sujeitas à “violação, gravidez não desejada e muitas outras formas de violência”, afirmou Hintzy. PROMOÇÃO HUMANA INTEGRAL O mais triste para a consciência cristã é o fato de que todas estas crueldades acontecem, infelizmente, pela falta de testemunho evangélico de vida. Não podemos nos limitar à assistência emergencial, mas a transformação da sociedade e da economia numa nova ordem, voltada para o bem comum, é a mais urgente exigência. No Eclesiástico encontramos o ensinamento: “Quem oferece um sacrifício com os bens dos pobres, é como quem imola um filho na presença de seu pai”. (Eclo 34, 24). Deus, Criador e Senhor da vida, garante com fartura, para o bem da humanidade, a fecundidade da natureza e os meios para que todos possam viver e desenvolver seus talentos, sem destruir o equilíbrio ecológico da Terra. O preceito evangélico “dar de comer a quem tem fome, vestir o nu, visitar o doente e o prisioneiro, acolher o migrante” (Mt 25,31-46), não se reduz à prática assistencial. Quando se atende somente às necessidades imediatas dos pobres, corre-se o risco de perpetuar a desigualdade social. A caridade evangélica é fundamento do agir cristão, e requer a promoção humana e a libertação integral. É colocar a serviço do outro suas próprias energias, seu espaço, sua influência social e política, e não migalhas de tempo e poder. SOLIDARIEDADE E RESPEITO Atualizando a Populorum Progressio, de Paulo VI, João Paulo II fala da necessidade de se “pautarem decididamente os processos de globalização econômica em função da solidariedade e do respeito devido a cada pessoa humana”.
Ele deixa no ar a pergunta: “Como é possível que, no nosso tempo, ainda haja quem morra de fome, quem esteja condenado ao analfabetismo, quem viva privado de cuidados médicos elementares, quem não tenha casa onde se abrigar?”. Se “o desenvolvimento é o novo nome da paz”, conforme nos ensinou Paulo VI, só alcançaremos a paz tão desejada, à medida que a economia se colocar, de fato, ao serviço do ser humano, invertendo-se a lógica do mercado que hoje prevalece. Enfim, tudo converge para o imperativo ético do respeito à vida, que está acima dos contratos humanos. O poder público é obrigado a atender prioritariamente todos os cidadãos em situação de fome ou miséria, ainda que, para isso, venha a alterar ou reduzir o pagamento de suas dívidas, pois a fome não espera, e a vida está acima da “dívida”. (Documento n.º 69 da CNBB). Nas Encíclicas Sollicitudo Rei Socialis (n.º 36) e Centesimus Annus (n.º 38), João Paulo II diz que “os homens e as mulheres estão fortemente condicionados pela estrutura social em que vivem, podendo esta tanto facilitar como dificultar o seu viver conforme a verdade. Embora tais estruturas se formem a partir do agir humano, nem sempre podemos encontrar, na origem delas, decisões livres e conscientes... Acontece que tais estruturas, formadas desse modo, podem estar sendo, não um instrumento de criação da vida, mas de morte”. SUPERAR AS ESTRUTURAS DO PECADO Nesse caso, pode-se falar de estruturas de pecado, “pois impedem a plena realização daqueles que vivem oprimidos por elas, ao oferecerem um ambiente no qual, muitas vezes, a opressão é amparada e legitimada por leis que não visam o justo ou o bem comum, mas o bem de uns poucos, ou a corrupção é generalizada a ponto de se tornar uma instituição”. Tais estruturas acabam por criar situações de pecado, onde a consciência acerca do bem e do mal acaba enfraquecida, e a noção de bem comum torna-se opaca. Nesse contexto, fazer o bem e evitar o mal é objetivamente difícil, ainda que a destruição dessas estruturas não livre as pessoas da contínua opção a que são chamadas, em cada momento da vida. As “estruturas de pecado” são a presença do que pode ser chamado de “mal objetivo” no coração do mundo, constituindo, portanto, um anti-sinal do Reino. Sua superação coloca-se como um imperativo evangélico; porém, como diz o Papa, “enquanto perdurar o tempo, a luta entre o bem e o mal continua, também no coração do homem” (Centesimus Annus, n.º 25d), de forma que nenhuma sociedade política poderá ser confundida com o Reino de Deus. A instauração definitiva do Reino será o ato totalmente livre de Deus, com o qual Ele encerrará nossa história, levando e elevando toda a Criação ao seu fim último. Serviço de Informações Missionárias (SIM) |
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